Algumas Pessoas Nao Merecem nosso Amor
Mas sempre chega um momento da vida em que você vê uma pessoa e pensa: "Maldito seja o cara que comete o crime de partir o coração dessa menina!"
"Lendo poemas de novo?", ela perguntou. Um hábito adquirido, ainda é um hábito, mas naquele caso significava um algo mais. Ele olhou para ela e sorrindo respondeu: "Acho que poetas são basicamente uma representação do que todos nós seríamos se tivéssemos o dom de nos expressar. Se eu pudesse demonstrar todos os sentimentos que tenho por você, eles viriam como poesia, mas escrever não é bem o meu forte, então prefiro te enviar uma todas as manhãs e imaginar seu sorriso ao ler."
Ela completou o sorriso dele com outro sorriso: "o almoço tá pronto, vem pra mesa.", disse para o rapaz que um pouco antes de se levantar do sofá falou: "Poetas são ótimos em palavras, Drummond, Poe, quem diria, tô lendo até Horácio. Mas se soubessem o que se passa em meu coração, não saberiam jamais colocar no papel." Dedicou palavras tão belas ao coração dos amantes, onde dormiam os poetas e eternos apaixonados.
Como posso compreender o mundo?
Como posso tornar o irreal em algo possível?
Quando as impossibilidades são tão agudas que tornam-se palpáveis, visíveis, olfativas...
Como posso dizer que a vida segue, quando não é o que quero dizer?
Quando não ter respostas é a forma que a própria vida encontra para ser professor, mentor, mestre. Aquela que ensina a lição muda e surda, esperando que eu, cego, a compreenda.
Facilita minha partida, não me estendes os braços na chegada. E paciente, meditando, aguardo...
Sem saber se devo, se posso, se é bobagem ou tempo perdido.
Pacientemente relevo aquilo que todos os componentes químicos do meu corpo acusam como cilada. Pois cair na armadilha é o mantra dos tolos, dos otimistas, e até dos apaixonados.
Toda palavra escrita, advém.
Advém do falante ator
Do calado escritor,
Do homem comum.
Daquele que chora
Daquele que mente,
Daquele que ri.
O que fala
O que sente,
Provém do sentir.
Poesia vem da escrita rústica
Do palavreado comum,
Da gíria arrastada
Da dose tragada
Até de um copo com Rum.
É a expressão educada
Presente farsante
De amigo, parente
Amante.
Sim! É possível poetizar qualquer coisa!
É possível banalizar a dor
Amolecer o cansaço
Até, acalentar o amor.
Amar a si mesmo é muito fácil. O ser humano tem propensão a se amar, mesmo sabendo que é errático, que faz besteira a todo tempo. Mas amar outra pessoa é um ato de coragem. Reconhecer e aceitar suas falhas, ter paciência, estar de braços abertos em qualquer hora do dia. Se alguém disser que te ama de verdade, essa pessoa já abriu mão do próprio ego. Porque no amor não há espaço para egos.
"Meu maior erro foi oferecer uma vida que julgava perfeita, quando o perfeito na vida está nos erros, nas imperfeições. Ofereci algo sem o peso, sem consequências, e esqueci que são essas consequências que nos dão o medo e a coragem pra arriscar todas as boas cartas que temos na mão."
Ela pausou seu pensamento dito, olhou menos para o chão, como de costume, mais para os olhos. Decidiu que aquela mochila de arrependimentos não poderia ser o seu fardo e escolheu largar. Ele que nunca gostou de carregar peso, só se aproximou com mais um passo. "Perder tempo pra que né?". O beijo trouxe todas as palavras não ditas, antes mesmo da cerveja esquentar. Ganhariam e perderiam tempo juntos, nas filas, nas praças, no ônibus.
No lar dos poetas da música, caía a chuva da angústia. Saudosa Lapa, de histórias incontáveis, a espreita, pronta pra escrever mais uma. Entre os pesares de Cartola e humor negro de Bezerra, uma à uma, tocavam os sambas que serviam como trilha sonora de sua vida. A cada gole de cerveja, ele pensava profundamente na inexpressiva forma da vida de agir para com ele. Até que entre "Não deixe o samba morrer" e outro gole profundo, ouviu uma chamada, quase que uma convocação: "tem samba que se dança juntinho. Tá afim?" Chegou a moça, certeira, sabia o que dizer e o que queria dele. A tão inexpressiva vida mudou seu tom, prometendo que o samba não morreria, assim como na música. Era samba pra gente sambar, juntos, por que não?
Ela era um poço de amores. Profunda e intensa. Seus sentimentos contrastavam com as experiências dolorosas que a marcou profundamente. Aquelas eram cicatrizes que um dia serviriam para mostrar que apesar dos pesares ainda vale à pena acreditar na legitimidade de alguns sentimentos. De manhã olhava pela janela, tomava um banho quente, arrumava o cabelo e antes mesmo de colocar os pés fora de casa pensava: "Hoje é meu dia!", e assim o fez, por todos os dias que se seguiram. Foi apenas amor, negou - se a rotina de pensamentos vazios e a preencheu - se do que mais possuía: sua luz.
E um dia você será a pessoa mais importante do mundo pra alguém, dando propósito e sentido a todas as coisas que não compreendia.
Falei o teu nome em três bares por onde passei. Em tom de alegria, raiva e dúvida. De certa forma fui redefinido por você. Embora diga que não sou, talvez seja. Embora diga que não estou, talvez esteja. Embora ache que não esteja olhando, talvez veja.
Amar é ser ferido de morte diariamente. Morre o ego, o individualismo, o "eu".
Amar é reviver diariamente.
Você vai andar sob o gume da espada. E enquanto seus pés sangrarem ao corte, todos ao redor se perguntarão os motivos por não estar usando botas, ao invés de se perguntarem o motivo dos gritos. O homem é superfície, e seu coração é uma planície árida.
Eu abriria mão de todas as homenagens que poderia receber depois da morte por um "eu te amo" realmente sincero em vida. As pessoas esperam demais pelas coisas que não são, até que realmente deixam de ser.
Nunca é numa praia às 23:00 da noite sob a luz do luar, ou numa praça antes do nascer do sol. É no bar, é numa taverna, num botequim qualquer, numa esquina sem iluminação, num portão velho. São nesses lugares que os maiores acertos e decepções do amor realmente acontecem.
DE COR
Esse jogo de correr é sem fim
Você corre das contas,
Dos problemas,
De mim.
Foge de tudo
No início
Meio
Fim.
Sabe o que busca e tem medo
Sabe o que quer e não estende a mão.
Destrói tua prosa e teu verso
No medo de outra ingratidão.
Esquece que outrO risco é viável
Abre mão do que há de melhor.
Sozinhos são todos mais livres
Livres, infelizes e só.
Abre os braços e vá de encontro
Desencontro que ata esse nó.
Ser feliz é possível, é palpável
Eu prometo, disso eu sei de cor.
Tenho mil coisas no coração que provavelmente apodrecerão com ele no final. Tudo que senti, foi unicamente e exclusivamente meu.
A palavra de ordem sempre foi a "parcimônia". A medida certa de tudo que tá disposto a dar e fazer por alguém. Sempre amar na mesma medida, e responder o carinho na mesma quantidade. É impossível ser feliz quando é o único que se doa ao máximo.
Acredito que para namorar, casar, enfim... Para que se chegue nessa decisão, uma pessoa precisa estar tomada por uma vontade, uma decisão profundamente convicta. Não se faz nada por motivos de "se não der certo, eu sigo em frente", porque existe o outro lado, a outra pessoa, e ela pode não ser tão boa em seguir em frente quanto você é. O emocional não é um jogo.
O Trem das Cinco e Quinze
Na Suíça, os trens são pontuais como o bater de um relógio de cuco. Foi às cinco e quinze da tarde, precisamente, que ela entrou no vagão carregando uma mala de rodinhas desengonçada e um livro sob o braço. Ele já estava lá, sentado próximo à janela, com os olhos perdidos nos Alpes que desfilavam como pinceladas brancas e cinzas. O sol de inverno, baixo e pálido, fazia o lago de Zurique cintilar à distância, como um espelho quebrado.
Ele a viu primeiro tropeçar no degrau do trem, recuperar o equilíbrio com uma risada abafada pelo cachecol vermelho. Ela se sentou diagonalmente a ele, dois assentos de distância. Entre eles, apenas o silêncio alpino e o leve rangido do trem nos trilhos. Até que, em algum momento após St. Gallen, ele perguntou, em um alemão hesitante, se ela sabia a que horas chegariam a Lucerna. Ela respondeu em inglês, com sotaque francês: "Você fala como quem decorou as frases de um manual ontem à noite". Ele riu, confessando que era brasileiro, um arquiteto em fuga de um projeto mal resolvido no Rio. Ela, por sua vez, era belga, pianista, voltando de um concerto em Viena onde havia tocado Chopin para uma plateia de casacos de pele e suspiros contidos.
No vagão-restaurante, dividiram uma garrafa de vinho branco suíço tão seco quanto o humor dela. Ele falou de linhas retas e concreto; ela, de escalas menores e metrônomo. Quando o trem atravessou um túnel, a escuridão os uniu mais do que a luz: naquele breu repentino, suas mãos se encontraram sobre a mesa de mármore, e nenhum dos dois soube dizer quem havia se movido primeiro.
Em Lucerna, desceram juntos, embora ela devesse seguir para Bruxelas e ele para Milão. Na plataforma número 3, sob o relógio que marcava sete e quarenta e três, ele lhe deu um cartão de visita rabiscado com o número de um hotel em Veneza. Ela lhe entregou uma partitura improvisada no verso de um mapa de trem, com notas que subiam e desciam como os trilhos que os haviam levado até ali. Prometeram escrever, ligar, encontrar-se na primavera. O beijo foi breve — um sopro de vapor no ar gelado —, mas suficiente para que, anos depois, ambos ainda se perguntassem se o gosto daquele momento havia sido de vinho, neve derretida ou simplesmente de *quase*.
Ele seguiu para o sul, onde o concreto de seus projetos ganharia raízes. Ela voltou ao norte, onde as teclas do piano a esperavam, frias e pacientes. Escreveram-se por um tempo, cartas que levavam semanas para cruzar a Europa, até que uma delas se perdeu no correio de Berna, e a outra, por orgulho ou cansaço, nunca foi reenviada.
Anos mais tarde, numa estação em Genebra, ele reconheceria uma melodia ao piano distante — *Nocturne op. 9 nº 2* — tocada por mãos que já não usavam anel. Sentado num banco, deixaria o trem das cinco e quinze partir sem ele, paralisado pela doce crueldade de um destino que os reunia apenas em segundas estrelas, estações erradas, e em todas as versões não vividas daquela tarde nos Alpes, onde o amor foi tão preciso quanto um horário de trem, e tão fugaz quanto o vapor de seu hálito misturando-se ao frio.
