A Verdade de cada um Pirandello

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Eis o castigo mais terrível de um culpado: nunca ser absolvido do tribunal de sua consciência

Muito bem. Agora sou um homem sem comida, com dois dedos a menos na mão e um a menos no pé do que tinha quando nasci; sou um pistoleiro com balas que não podem disparar; estou passando mal por causa da mordida de um monstro e não tenho medicamentos; tenho água para um dia com sorte; posso conseguir andar talvez uns vinte quilômetros se puser em ação minhas últimas forças. Sou, em suma, um homem à beira de qualquer coisa.

Eu amei esse quadro da primeira vez que o vi. Amei a ideia de um homem solitário em luta contra a morte.

Leia as palavras de um poeta no tempo em que ele era jovem
E encontrarás versos que serão como um elixir para a vida.
Leia as palavras de um poeta quando este começa a envelhecer
E encontrarás versos que mais parecerão um xarope
Que na melhor das hipóteses curará alguma tosse.

A face de um homem e sua propria biografia. A face de uma mulher e seu trabalho de ficcao.

Eu pensei várias vezes em dar um fim nisso, não fiz porque eu sabia que ia me arrepender e voltar atrás.

Jamais perder a sensibilidade, mesmo que às vezes ela arranhe um pouco a alma.

Desconhecido

Nota: O pensamento costuma ser atribuída a Clarice Lispector, mas não há fontes que confirmem essa autoria.

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Os encontros temperados com um pouco de missa são os melhores. Não há nada mais mimoso do que uma olhadela que passa por cima de Deus.

Se você tratar um indivíduo como ele é, ele permanecerá como é. Mas se você o tratar como se fosse o que deveria ser, ele se transformará no que deveria e poderia ser.

Um peixe que está na água não tem escolha do que ele é. Os gênios possuem este talento que possuímos de nadar na areia. Somos peixes e nos afogamos.

O Anjo
Com um mover da fronte ele descarta
tudo o que obriga, tudo o que coarta,
pois em seu coração, quando ela o adentra,
a eterna Vinda os círculos concentra.

O céu com muitas formas Ihe aparece
e cada qual demanda: vem, conhece -.
Não dês às suas mãos ligeiras nem
um só fardo; pois ele, à noite, vem

à tua casa conferir teu peso,
cheio de ira, e com a mão mais dura,
como se fosses sua criatura,
te arranca do teu molde com desprezo.

(Tradução: Augusto de Campos)

Você acha que não porque esperar a dor passar é como olhar um transatlântico no horizonte estando na praia. Ele parece parado, mas aí você desvia o olho, toma um picolé, lê uma revista, dá um pulo no mar e quando vai ver o barco já está lá longe.

[...] isto não é um poema. Poemas são um tédio, eles te fazem dormir.
Estas palavras te arrastam para uma nova loucura.
Você foi abençoado, você foi atirado num
lugar que cega de tanta luz.
O elefante sonha com você agora.
A curva do espaço se curva e ri.
Você já pode morrer agora. Você já pode morrer do jeito que as pessoas deveriam morrer: esplêndidas, vitoriosas, ouvindo a música,
sendo a música, rugindo, rugindo, rugindo.

Em certos os casos, quanto mais nobre o gênio, menos nobre o destino.
Um pequeno gênio ganha fama,
um grande gênio ganha descrédito,
um gênio ainda maior ganha desprezo;
um deus ganha crucificação.

Dias felizes

Não deixe de desejar um dia melhor.
Ainda que hoje seja o dia mais que perfeito.
Onde tudo se encaixou e você encantou.
Onde as pessoas foram amáveis e você faturou muito.
Ainda assim, tudo pode ser melhor.
Estamos nos acostumando com as coisas e notícias ruins.
E quando chega aquele dia gostoso, de paz, de coisas boas,
ficamos desconfiados.
Tipo: me belisca para ver se eu já acordei!
Pois é, mas o comum, não é ter somente dias de dores.
O que deveria ser comum é o dia feliz!
Um dia de muita risada, muita conversa. muitos beijos, muitos abraços,
“amassos”, comidinha quente e gostosa.
Ah! e é claro; muitos amigos.
Coisa boa não é?
Pois pense assim, pense como criança.
Lembra quando você era criança?
O grande barato era acordar para brincar mais um pouco.
Havia tanta coisa para fazer…
E se você teve o privilégio de crescer em um ambiente aberto,
com ruas largas, as vezes sem asfalto, campinhos, árvores,
ai então, era só alegria…
lembra?
Qual era o segredo desse tempo?
Pense…vou te dar mais uns segundos…
O grande segredo das crianças é não fazer planos.
É acordar para viver intensamente o dia que começa.
Criança não fica parada elaborando planos de vingança,
nem fica pensando como vai fazer para fazer uma maldade.
Tudo acontece espontaneamente…
Então, acredite que o dia pode ser melhor e será.
Deixe-se contagiar pela alegria da infância.
Despreocupe-s e um pouco.
Mesmo sendo médico cirurgião com uma grande cirurgia pela frente.
Deixe-se guiar pelo seu aprendizado, e depois do trabalho bem feito,
solte-se numa cadeira e se ela for giratória,
aproveite e brinque como se fosse um parque de diversões.
Talvez a vida não passe disso, um grande parque com muitos brinquedos.
Só que muita gente anda com medo de se soltar e se divertir.
O dia pode ser muito melhor!
Acredite, lute, sonhe e realize.

A saudade não tem nada de trivial. Interfere em nossa vida de um modo às vezes sereno, às vezes não. É um sentimento bem-vindo, pois confirma o valor de quem é ou foi importante para nós, e é ao mesmo tempo um sentimento incômodo, porque acusa a ausência, e os ausentes sempre nos doem.

Martha Medeiros
MEDEIROS, M. Doidas e Santas. Porto Alegre: L&PM, 2008.

Nota: Trecho da crônica "Matando a Saudade em Sonho"

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Sorriram um para o outro. E tudo estava certo, outra vez, e tudo tinha um gosto bom.

Imaginação: um armazém de fatos gerido em parceria pelo poeta e pelo mentiroso.

Dance-me até o fim do amor

Dance-me até sua beleza com um violino ardente
Dance-me através do pânico até eu estar em segurança
Eleve-me como uma oliveira e seja a pomba fazendo ninho em mim

Dance-me até o fim do amor
Dance me até o fim do amor

Deixe-me ver sua beleza quando as testemunhas se forem
Deixe-me sentir você se mover, como fazem na Babilônia
Mostre-me lentamente aquilo de que eu só conheço os limites

Dance-me até o fim do amor
Dance-me até o fim do amor

Dance-me ao casamento agora
Dance-me, outra vez e outra vez
Dance-me mansamente e me dance por muito tempo

Nós dois estamos abaixo do nosso amor
Nós dois estamos acima
Dance-me até o fim do amor

Dance-me até as crianças pedindo para nascer
Dance-me até as cortinas que nossos beijos desgastam
Monte uma barraca de abrigo agora, embora toda linha esteja rasgada.

Dance-me até o fim do amor
Dance-me até o fim do amor

Dance-me até sua beleza com um violino ardente
Dance-me através do panico até eu estar em segurança
Toque-me com sua mão nua ou me toque com sua luva

Dance-me até o fim do amor
Dance-me até o fim do amor
Dance-me até o fim do amor

Um aperto de mão comovido foi o nosso adeus no aeroporto. Sabíamos que não nos veríamos mais, senão por acaso. Mais que isso: que não queríamos nos rever. E sabíamos também que éramos amigos. Amigos sinceros.

Clarice Lispector
Felicidade clandestina. Rio de Janeiro: Editora Rocco, 1998.

Nota: Trecho do conto Amizade sincera.

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