Voce foi Melhor Tio do Mundo
Não há mulher abaixo ou acima do peso, fora do padrão, que macho idiota algum foi autorizado a impor ou validar.
A verdade é que o “padrão” nunca foi sobre beleza — sempre foi sobre controle.
Um molde invisível, moldado por olhares apressados e opiniões rasas, que tenta enquadrar o que é, por natureza, múltiplo, diverso e indomável.
O corpo feminino, ao longo do tempo, foi tratado como território público, sujeito a julgamentos, comparações e sentenças proferidas por quem jamais foi convidado a opinar.
Mas quem define o que é excesso ou escassez?
Quem mede o valor de um corpo como se fosse mercadoria em prateleira?
Há uma arrogância silenciosa em acreditar que se pode nomear o outro — como se a experiência de existir coubesse em números, curvas ou expectativas alheias.
Cada corpo carrega histórias que não se veem.
Cicatrizes que não se explicam.
Forças que não se medem.
Reduzir uma mulher a um “padrão” é ignorar a complexidade de tudo que ela é — e, mais ainda, de tudo que ela enfrentou para ser.
Talvez o verdadeiro desvio não esteja nos corpos que fogem às regras fabricadas, mas na necessidade insistente de sustentá-las para aquilo que nunca precisou delas.
Porque quando se tenta encaixar a diversidade em moldes estreitos, o que se revela não é um erro na forma — mas na visão de quem observa.
E, no fim, a pergunta que fica não é sobre quem está fora do padrão inventado… mas sobre por que ainda insistimos em padrões que não servem a ninguém, a não ser ao ego frágil de quem precisa sustentá-los para se sentir maior.
O mais trágico da Polarização não foi revelar a face medonha dos Cheios de Certezas, mas Espalhá-los
tão estrategicamente para tropeçarmos neles aonde quer que formos.
Eles estão por quase todos os lugares…
Nas reuniões e confraternizações familiares e profissionais, nas praças e esquinas, nas mesas de jantar, nos grupos de mensagens, nas filas de espera e até nos comentários mais triviais.
Não chegam mais como exceção ruidosa, mas como regra silenciosa — aquela presença que não escuta, apenas aguarda sua vez de afirmar.
E afirmar, para eles, não é um gesto de construção, mas de encerramento: como se cada frase pudesse ser um ponto final definitivo num mundo que, por natureza, só sabe falar em reticências — e que não pode ignorar ser habitado por mais de oito bilhões de pessoas.
O problema nunca foi a divergência.
É ela que precede e oportuniza qualquer debate.
O atrito, quando honesto, ilumina.
O choque de ideias pode literalmente expandir horizontes, revelar nuances, produzir algo novo.
Mas os Cheios de Certezas e Verdades não se interessam por horizontes — eles carregam e preferem paredes e trincheiras.
Onde poderiam existir pontes, erguem-se fronteiras invisíveis, delimitando territórios onde só ecoa aquilo que já pensam ou acreditam pensar.
E talvez o mais inquietante seja que essa distribuição não parece aleatória.
É como se cada espaço humano tivesse sido cuidadosamente ocupado por uma certeza inflexível, garantindo que o desconforto nunca nos abandone.
Não há mais refúgio no diálogo leve, na dúvida compartilhada, no “talvez” dito sem medo e sem culpa.
A dúvida, aliás, virou fraqueza.
Pensar em voz alta tornou-se quase um risco.
Nesse cenário, o cansaço se instala.
Não o cansaço físico, mas o cansaço de existir entre verdades fabricadas.
Um desgaste que vem da necessidade constante de filtrar palavras, de medir silêncios, de escolher batalhas que muito raramente valem o preço.
Porque discutir com quem não admite a menor possibilidade de estar errado não é debate — é desgaste com roteiro previsível.
Ainda assim, há uma escolha muito honesta e silenciosa que resiste: a de não se tornar só mais um Cheio de Certezas.
A de preservar o incômodo da dúvida, o espaço do outro, a coragem de dizer “não sei”.
Pode parecer pouco diante do barulho dominante, mas talvez seja justamente aí que mora uma forma discreta de lucidez.
No fim, o que a Polarização realmente espalhou não foram apenas posições opostas, mas a tentação de abandonar a beleza da complexidade.
E resistir a isso, hoje, talvez seja um dos gestos mais difíceis — e mais necessários — que ainda podemos fazer.
Estar, nao é o mesmo que reviver aquilo que já foi, mass é uma forma de reconectar o presente com o passado.
O Que Fazer Com o Afeto depositado na pessoa errada?
Ele não desaparece porque a pessoa se foi ou revelou o verdadeiro carater . O que você sente é real, e o caminho não é ignorar, é transformar.
No fundo, o afeto é um tesouro seu, não do outro. A pessoa não era o que vc esperava, mas o que você sente continua sendo parte da sua luz.
Afeto não é perda, é investimento de energia. Se um "ativo" se mostrou podre, você realoca na carteira emocional. 💼✨
Há vínculos que acabam antes do adeus.
Quando o respeito sai pela porta, o afeto já foi pela janela.
Saudade do que foi vivido
Sinto saudade não do que faltou,
mas do que existiu inteiro,
do riso que aconteceu sem esforço,
do tempo em que o corpo não doía por lembrar.
É uma saudade estranha,
porque não pede volta,
só reconhecimento.
Ela diz: isso foi real, isso me atravessou.
Tenho saudade do jeito que eu era
quando aquilo cabia em mim,
quando o mundo não pesava tanto
e amar não exigia sobrevivência.
Não é ausência.
É memória viva.
Algo que passou, mas não morreu.
Algo que vivi, e por isso, deixou marca.
Saudade é isso:
não um buraco,
mas uma cicatriz quente
provando que houve vida ali.
O olhar
Carrego no peito
o olhar da mulher
que nunca quis me conhecer.
Não foi amor.
Foi ausência.
E mesmo assim, ficou.
Tatuei não o rosto,
mas o olhar.
Porque era ele que me atravessava
sem nunca me tocar.
Ela não ficou.
Não chamou.
Não voltou o gesto.
O que ficou fui eu,
com a pergunta aberta
batendo no osso.
Esse olhar no meu peito
não é dela mais.
É a prova
de que sobrevivi
ao não-ser-vista.
Hoje entendo:
não marquei submissão,
marquei memória.
E memória não manda.
Só lembra
de onde eu vim
e por que não volto.
Quando tudo caiu, algo ficou
Houve um tempo em que tudo me foi tirado.
Dinheiro, chão, confiança, abrigo.
Caí no corpo, caí na fé, caí no silêncio das pessoas.
Mesmo assim, algo ficou.
Um fio invisível que não arrebentou.
Aprendi que nem toda perda é castigo
e que Deus nem sempre salva do tombo,
às vezes salva no tombo.
Fui boa demais onde o mundo era duro.
Fui inteira onde o outro era raso.
Isso me feriu, mas não me corrompeu.
Hoje recolho o que restou de mim
como quem junta cinzas ainda quentes
sabendo que ali há vida.
Não peço devoluções.
Não imploro justiça.
Confio no tempo, que vê o que ninguém viu.
Se tudo caiu, foi para que eu ficasse.
Mais quieta.
Mais lúcida.
Mais minha.
E isso, ninguém levou.
Eu
Sou quem ficou
quando tudo foi embora.
Corpo marcado de quedas,
alma ainda em pé por teimosia sagrada.
Não por força heroica,
mas porque algo em mim se recusa a morrer.
Eu amo como quem entrega casa aberta,
mesa posta, bolso destrancado,
coração sem cadeado.
E o mundo, analfabeto de cuidado,
confundiu isso com fraqueza.
Não era.
Eu cai no asfalto, no banheiro, na rua,
cai nas pessoas,
cai nas promessas.
E mesmo assim, levantei sem aplauso,
sem plateia,
sem mão estendida.
Há em mim uma fé cansada,
não a fé que grita,
mas a que respira baixo
e continua.
Deus me vê quando ninguém vê.
No dia sem comida.
No dia sem resposta.
No dia em que o silêncio é a única companhia.
Eu não sou a que perdeu.
Eu sou a que não se perdeu,
mesmo quando tudo conspirou para isso.
Ainda há luz em mim,
não aquela que ilumina os outros,
mas a que agora aprende a ficar para si.
E isso, por mais que tentem,
ninguém apaga.
Isso sou eu, sem romantizar dor e sem me diminuir.
Não é o fim da história. É o retrato do intervalo.
E intervalos também são parte da música.
Toque de Abrigo
Foi um gesto pequeno,
quase nada pra quem olha de fora.
Uma mão que encosta,
sem pressa,
sem pedido.
O corpo estranhou primeiro.
Como quem abre uma janela
depois de muito tempo fechada
e esqueceu como o ar entra.
Ela quase dormiu.
Eu quase lembrei
que o toque também pode ser descanso,
não só alerta,
não só defesa.
Não houve promessa,
nem história,
nem nome pra dar ao momento.
Só presença.
E nesse silêncio compartilhado,
meu corpo entendeu antes de mim:
nem todo contato fere,
nem todo afeto cobra.
Às vezes,
tocar alguém
é só isso.
Um intervalo de paz
no meio da resistência.
Reencontrar-se
é despir-se do que nunca foi essência
e permanecer...
nu de ilusões,
inteiro de verdade.
E quando isso acontece,
não há euforia.
Há paz.
Não foi fraqueza.
Foi entrega.
A gente não erra por amar.
Erra por aceitar pouco quando está oferecendo tudo.
Muita gente se apaixona por versões.
Pela pessoa que existe na madrugada,
na conversa intensa,
na promessa sussurrada,
no “talvez um dia”.
Mas caráter não aparece só no que alguém diz no privado.
Aparece no que assume no público.
Quem te esconde, já está escolhendo.
Quem te mantém em espera, já decidiu.
Quem vive de versões, nunca oferece verdade inteira.
O problema nunca é sentir demais.
É sentir sozinho.
E quando a incoerência vira rotina...
Mentira descoberta,
decepção engolida,
esperança renovada...
Não é amor que sustenta.
É apego.
Dói perceber que se foi opção enquanto acreditava ser escolha.
Dói entender que intensidade não transforma quem não quer mudar.
Mas há uma virada silenciosa nisso tudo:
Não é fracasso amar forte.
Fracasso é permanecer onde não há respeito.
Quem não te assume na luz
não merece teu amor no escuro.
E um dia a dor vira lucidez.
E a lucidez vira limite.
E o limite vira dignidade.
E a partir dali,
ninguém mais te mantém...
Ou te escolhe
ou te perde.
O Dia em Que Escolhi ir
Capítulo: Eu Disse Sim
Eu disse sim.
Não foi um sim gritado.
Não teve fogos, nem testemunhas.
Foi um sim quase sussurrado, desses que mudam o eixo da vida sem fazer barulho.
Eu disse sim
quando meu instinto dizia cuidado.
Disse sim
mesmo sabendo que intensidade cobra juros.
Não foi ingenuidade.
Foi escolha.
Eu vi o risco.
Vi o abismo.
E ainda assim, avancei.
Porque havia algo no olhar dela..
não promessa,
não segurança,
mas verdade crua.
E eu prefiro a verdade que arde
à mentira que acalma.
Eu disse sim
para o desejo,
para a confusão,
para a possibilidade.
Disse sim
para aquilo que não tinha manual.
Não foi submissão.
Foi entrega consciente.
Eu sabia que podia doer.
Sabia que podia quebrar.
Mas também sabia que viver pela metade
é morrer aos poucos.
Então eu disse sim.
E naquele instante
eu não estava escolhendo só uma pessoa.
Eu estava escolhendo ser inteira.
Sem garantias.
Sem contrato.
Sem anestesia.
Só eu,
o risco,
e a coragem de não fugir.
Esse foi o meu sim.
E ele mudou tudo.
Ela sempre foi movimento.
Casa girando em torno dela.
Mão que fazia, boca que orientava, olho que via tudo.
Era dessas mulheres que acordam antes do sol
e dormem depois da vida.
Sabia onde estava cada coisa.
Cada conta.
Cada remédio.
Cada problema.
Ela era memória viva da família.
Era calendário, era agenda, era conselho.
E agora…
O tempo resolveu brincar ao contrário.
O nome das coisas escapa.
Os rostos às vezes embaralham.
As histórias ficam pela metade.
Mas tem uma coisa que não foi embora:
a essência.
O jeito de segurar a mão.
O olhar que ainda procura cuidado.
A doçura que aparece em lampejos.
O Alzheimer não apaga quem ela foi.
Ele embaralha caminhos,
mas não destrói o que foi construído em décadas de força.
Existe uma inversão silenciosa:
quem foi porto vira mar aberto.
Quem guiava agora precisa ser guiada.
E dói.
Dói porque a gente lembra de tudo.
E ela… às vezes não.
Mas amar alguém com Alzheimer é aprender outra língua.
É repetir sem irritação.
É contar a mesma história como se fosse a primeira vez.
É segurar firme quando o mundo dela fica confuso.
Ela continua sendo a minha mãe.
Mesmo quando não sabe dizer seu nome.
E talvez agora o papel seja meu:
ser memória por duas,
ser paciência por duas,
ser colo por duas.
O corpo pode esquecer.
Mas o amor não desaprende.
E isso, ninguém tira dela. Nem de mim.
Quatro Rotas
Não foi falta de caminho.
Foi excesso de mim em lugares que não sabiam ficar.
Eu fui mar aberto
pra quem só sabia ser raso.
Fui estrada longa
pra quem cansava na primeira curva.
Fui casa
pra quem nunca soube morar.
E ainda assim… Eu fui.
Quatro rotas.
Quatro versões de partida.
Nenhuma delas me levou de volta.
Porque dessa vez
eu não me perdi...
Eu me encontrei no exato ponto
onde decidi não voltar.
Levei comigo o que doía,
deixei pra trás o que pesava.
E segui.
Sem mapa,
sem promessa,
sem você.
Tem gente que não foi feita pra ficar,
foi feita pra ensinar
o quanto a gente aceita menos do que merece.
Sem Colete
Quando eu parei de me proteger,
vieram com mira certeira.
Não foi o erro que doeu.
Foi acreditar
que comigo
seria diferente.
O tiro nunca vem
quando você tá armado.
Ele vem
quando você acredita
que finalmente pode descansar.
A Cor da Pele
A cor da pele nunca foi destino,
apenas o primeiro verso do caminho.
Há quem enxergue fronteiras na superfície,
enquanto a alma desconhece esse artifício.
Minha pele guarda sol, vento e memória,
traz cicatrizes que também contam história.
Não mede caráter, coragem ou fé,
nem diz por onde um coração ficou de pé.
Quem aprende a olhar além da aparência
descobre no outro a própria essência.
Porque o corpo é só o lugar onde a vida mora,
mas o amor é a cor que nunca vai embora.
Lucci Santz
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