Versos de Tempo

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A sua paixão é a força da morte e a voracidade do Sheol, uma lei mais antiga que o tempo, que não aceita resgate ou suborno.

O tempo não cura, ele apenas te obriga a conviver com a ausência e a transformar a falta em presença interna.

A paciência é o tempo que Deus te dá para que você se prepare melhor.

É uma perda de tempo esperar a aceitação integral de quem só consegue conceber a vida e as pessoas em fragmentos.

Desperdiçamos o tempo vital na engenharia impossível de forçar a vastidão da nossa alma nos compartimentos estreitos alheios.

O tempo é uma serpente que leva a gente pro fim da vida, rastejando silenciosamente e devorando todos os nossos dias.

No espelho dá para ver ele corroer e deixar feridas, pois o tempo não cura tudo, apenas registra as batalhas que perdemos.

Há memórias que são feridas abertas, sangram sem aviso, ignoram o tempo e nos lembram que o passado nunca dorme.

Escrever é o meu jeito de dizer ao tempo que, embora ele esteja vencendo a batalha contra o meu corpo, minha voz ainda ecoa nos vãos das horas. Cada palavra é um prego que martelo na parede do esquecimento, tentando segurar o retrato de uma alegria que já não reconheço.

O tempo cura, mas só depois de exigir a sua paciência bruta e a sua reconstrução ativa e dolorosa.

Meu passado é um espelho cujo reflexo me fere, ainda que eu o quebre, as lembranças de um tempo sombrio permanecerão intactas.

A segunda-feira nos lembra que o tempo não espera: cada manhã é um convite a reconstruir o que fomos e a aproximar o que ainda sonhamos ser.

Em um floresta de carvalhos, com seus troncos velhos pelo tempo e retorcidos, por terem sofrido o bastante, esse é um lugar que não me sinto tão diferente assim.

De um certo tempo para cá, caminhar sozinho se tornou sobrevivência.

O tempo é um paradoxo quântico, para mim, não faz sentido, pois nossa existência é moldada por instantes que já se foram e por futuros que ainda não nasceram. Vivemos no fio tênue do agora, mas carregamos em nós as marcas de tudo que foi e a ansiedade de tudo que poderá vir. O presente é apenas um fragmento entre duas eternidades invisíveis.

Somos tolos em nossa própria ilusão, atribuindo valor ao que se desfaz com o tempo, dinheiro, status, títulos. Olhamos com arrogância para aqueles que sustentam silenciosamente a vida em sociedade, os que limpam, os que recolhem, os que tornam possível o nosso cotidiano, como se a dignidade fosse privilégio e não essência. No fundo, seguimos apenas rótulos impostos por uma sociedade adoecida, sem perceber que a verdadeira grandeza não está no que se ostenta, mas no que se é.

Há beleza na carne que cicatriza, florescer sangrento, obra-prima talhada por dor e tempo.

O passado é um cadáver intocado pelo tempo; regressar a ele é deitar-se na podridão, aspirar a decomposição de ossos que jamais voltarão à vida. Ainda assim, minha mente enferma cava covas dentro de mim, arrancando memórias que nem sempre são minhas, mas que me invadem como larvas famintas. Eu as vivo em carne exposta, como se fossem chagas abertas, sangrando uma dor que não me pertence, mas que me consome como se fosse a única verdade que restou.

No breve tempo que me ausentei, ao regressar, percebi que já não era o mesmo. Os sentimentos haviam se esvaído como água entre as mãos, e em meu peito apenas o silêncio se aninhava. Aquele eu que um dia partira, morreu no exílio do tempo e jamais retornaria. Em seu lugar, restou apenas uma sombra errante, um eco de mim mesmo, condenado a habitar a casa, mas nunca mais a pertencer a ela.

A jornada foi escola de paciência, sei esperar o tempo que o fruto precisa, colho com mãos firmes.