Vc foi uma coisa Boa na minha Vida
Há noites em que minha voz se perde como folha na chuva, cada palavra desfia-se em gotas que não alcançam ninguém. O quarto vira um navio naufragado de memórias, e eu mergulho por coisas que nem sempre merecem resgate.
Minha raiva tem o tempero das pequenas humilhações: sal e silêncio. Ela cresce na cozinha, no caminho do trabalho, na janela onde ninguém olha. Quando explode, não pede licença, derruba vasos, palavras, hábitos, e depois deixa um rastro de verdade crua que, estranhamente, cura.
Se alguém ousasse mergulhar na minha mente, seria imediatamente entorpecido pelo caos, aqui não existe repouso, apenas um conflito eterno entre passado e uma sucessão de pensamentos perturbadores que fazem da desordem o meu único lar.
Minha voz, às vezes, é um barco que não encontra cais. Bate nas pedras do entendimento e volta vazia. Se pudesse, mudaria de mar e deixaria a costa para trás. Mas aprendi que certas correntes só ensinam a nadar melhor. E então permaneço, remando com paciência terna.
Minha história tem capítulos escritos com caneta de mão trêmula. Alguns trechos foram riscados com dor e coragem. Reescrevo às vezes em silêncio de madrugada. Não por inventar, mas por entender as linhas antigas. E cada reescrita é cura, ainda que lenta.
Eu tentei seguir, mas o vazio caminha comigo. Ele senta ao meu lado, dorme na minha cama, repete suas lembranças como uma oração torta. Seguir em frente, às vezes, é apenas aprender a carregar o peso sem deixar que ele nos destrua por completo.
Graduei-me em simular estabilidade, mas meu corpo é um delator que desmente cada vírgula que minha boca ensaia.
Minha infância ainda soluça em algum sótão da memória. Peço perdão ao menino que fui por não ter sido o herói que ele esperava.
Não confunda minha resistência com força. A força busca a vitória, a resistência só quer sobreviver a mais uma noite.
Nasci com um cansaço atávico, como se minha alma carregasse o peso de séculos e a esperança estivesse permanentemente em débito.
Minha escrita não busca o aplauso da plateia, mas o reconhecimento silencioso de quem lê e pensa: "eu também habito esse deserto".
Exibo cicatrizes invisíveis que alteram minha postura, pesam nas minhas escolhas e ditam o ritmo da minha caminhada.
Às vezes, sento-me diante de Deus e não digo nada. O silêncio é a única oração que minha exaustão consegue formular.
Minha mente é um território hostil após a meia-noite, lembranças andam armadas e a esperança raramente faz o turno da noite.
Exauriu-me a tarefa de legendar minha dor para quem não sabe ler sentimentos. Prefiro o silêncio de quem escreve.
Minha dor é um texto longo, cheio de notas de rodapé e silêncios estratégicos que nenhuma frase curta consegue resumir.
Sou vítima de cenários hipotéticos, sofro por tragédias que minha mente cria com a perfeição de quem já viveu o pior.
Minhas cicatrizes criaram relevos na minha alma, elas limitam meu alcance, mas definem a singularidade da minha jornada.
Não busco salvadores, busco testemunhas. Alguém que valide minha travessia sem tentar consertar o que é, inerentemente, humano.
Às vezes sinto que minha alma é um piano de cauda abandonado sob a chuva, onde cada gota que cai sobre as teclas evoca um acorde de saudade que ninguém mais sabe tocar. A música que resta em mim não é para os ouvidos do mundo, mas para o silêncio dos que já se perderam de si mesmos.
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