Textos de Saudade do Namorado
Madurar
Os adultos não sabem que não são crianças
Vivem reclamando, chorando por suas mães
Não perceberam na vida as totais mudanças
Clamam por suas ingenuidades perdidas sãs
Os adultos querem ser meninos e meninas
Eternamente...
Deitar no colo e permanecerem traquinas
Eternamente...
Querem não ter dever e nunca terem rotinas
Eternamente...
Os adultos esquecem que um dia tem que dobrar as esquinas
Da vida, madurar
Eternamente...
Luciano Spagnol
Morte e vida
A vida está sempre de partida
A morte de início e ressureição
Dia a dia se morre na descida
Do tempo, em sua contramão
E nesta poética de folha seca
Que o vento leva além do olhar
Um pouco do tudo será soneca
E nada a quem não soube amar
Quando eu for, está gaveta estreita
Estreito estará o caminho do perdão
Por mim rezem ladainhas bem feita
Para a direita do Pai o meu coração
Se a partida ainda não chegou a vez
E só tenho a data de minha chegada
De fevereiro a fevereiro é o meu mês
Feliz vivo, sem a morte na vida privada
(Entre a vida e a morte prefiro ser cortês!)
Luciano Spagnol
Avessos
Em cada verso dispo os avessos
Do espírito da emoção a uivar
Dos rastros dos seus processos
Num precioso momento impar
Que saem e onde expresso
E que não me deixam calar
Cada verso chorado, por vir
É a minha forma de rezar
Pois a convicção é para se sentir
E a alma quer se manifestar
Loucuras?
Fazem parte de o meu poetar
Ali me escondo, minhas venturas
Digo meus fados sem oprimir
Cato pareceria aos versos solitários
Assim as fantasias podem fluir
E eu ter o meu fértil relicário
Pois dele dependo, e ele de mim
Efeitos que decifram meu diário
Do meu complexo eu sem fim
Sim ou não, um novo itinerário
Que me faz ir além, e assim
Nos avessos o sentimento é o cenário
E o amor meu estopim.
Luciano Spagnol
Farnel
A existência é um caracol
De curvas e lombadas
Tem o breu da lua e o brilho do sol
Sobe e desce e algumas paradas
E nestes altos e baixos
Deparamos com nossas caminhadas
Altivos e cabisbaixos
Tentando superar as escadas
O que não se pode perder no cordel
Neste emaranhado fio da meada
É de ter genuíno amor no farnel
Luciano Spagnol
Hesitas
Quando é, dormindo, será dia?
Quando é, noite, serei recordação?
Eu alma, a minha alma, fria
Alheio o pulsar do coração
Não sei, nada sei desta arrelia
Ou se despertarei da escuridão
Onde terá sol, ou terá só magia
E se assim, acordado, serei são
Planeja o tempo, o fado em parceria
Passará a dúvida, serei oração
E nesta angústia que me agonia
Serei curiosidade sem revelação
E na velocidade vem a vida, ironia
Descendo as ladeiras da vitalidade
Inspirando hesitas na minha poesia
De uma única certeza, um dia. Sem ser brevidade!
Luciano Spagnol
Mais um outono
Mais um outono aos amuos do vento
Desarraigando as folhas num valsar
De alento, saudade ou desalento
Que vão pelo umedecido e cinzento ar
Em pares, grupos ou solitárias
Vão se acomodando pelo chão
Em lentas e calmas romarias
Com doridas vozes em oração
Nos galhos os abraços dos ninhos
Acariciados pelos redemoinhos
Ali ficam poeirados e agarradinhos
As folhas são barcos nas corredeiras
Nos charcos descansam nas beiras
O outono costurando suas algibeiras
Luciano Spagnol
Me Deixem Chorar...
Quero uma fatia do tempo
Tirar a alma do relento
Assim o desacontecimento
Ter sentido, ter alento
E então descansar
Vendo o minuto passar
Com razão e oportunidade
Ter nova felicidade
Neste peso no coração
Sem que nada me peçam
Ou que seja em vão
Quero prantear livremente
O gemido triste ou contente
E se a dor me invadir totalmente
Que venha sem culpa ou penitência
Tirar a moral da aparência
Pois é minha e é única
E vestir o desejo com a túnica
Da superação, e ser compreendido
E não ter que ser corrompido
Mesmo que não saiba lidar com ela
Pois o novo dói sim, quero abrir a janela
E gritar ao mundo: - Sou livre! - Posso!
A vida não é um negócio...
Vou secar a lágrima e ir à luta outra vez
Quero ressurgir mais forte, ter mais lucidez
E no ato de tentar e tentar
Na fragilidade humana
Peço que me deixem chorar.
Luciano Spagnol
O tempo e eu
Tudo se tornou tão conciso
O tempo pequeno
O sonho que preciso
Um aceno...
Tudo tão distante, indeciso
Passando tão rapidamente
Meus velhos amigos, indiviso
Os cabelos brancos comumente
Eu ali diante do tempo, sem opção
Que passa velozmente, outrora recente
Aquele tempo cheio de porção
Que aos olhos era lentamente
E livre de pensamentos o coração
Abruptamente
Calcei a meninice de pés no chão
Que ficou no passado
Trancado pelo tempo o portão
Vai em frente
Diz com decisão
Friamente
Quando de repente lágrimas de emoção
Escrevem palavras de lembranças
Retratando a casa da vovó, paixão
O tempo agora, confiança
Já é tão sucinto
Mas com esperança
Acumulado no recinto
Da aliança
Do tempo e o aprender
A ter fé, nesta real dança
De que ser feliz é amar no viver.
Luciano Spagnol
A alma do vinho
Na garrafa a alma do vinho arrolhada
Transpassa o desejo de degustação
Quer mais que goles na madrugada
Quer ser lacre no fado da emoção
Bem se sabe o deleite que seduz
São néctar as papilas de puro prazer
Dando coragem que nos conduz
Nos vestindo de abrasante ser
Fogueada face em plena amiga rodada
Escorre no cristal num balé aromatizado
Estirpe que nos lábios tem elegância atracada
Que faz do espírito um eterno apaixonado
Oh! Prisioneiro do cárcere de vidro
Tu libertas o meu poetar a chilrear
Em leveduras dos amores contidos
Velho e bom amigo que vem consolar.
Luciano Spagnol
Ponto
No caminho pedras e trilho
Guiando no carril de ferro
Os fados de um andarilho
Entre planícies e cerro
Num misto de estampilho
De silêncio e de berro
Desencontros e amores
Nascimento e enterro
Constrói-se os valores
As flores, acerto e erro
De aprendizes prescritores
De vírgula, reticência
Da vida, e no fim o ponto
Cerrando a diligência
Encerrando o conto
Luciano Spagnol
Tento... Tento... Tento...
Às vezes com, as vezes sem alento
Acerto, erro, sustento
Nem sempre com advento
Mas sedento de crescimento
Afinal a vida é dos de talento
Assim invento
Rápido ou lento
Sou rebento
No amor acrescento
Na vida contento
Tento... Tento... Tento.
Luciano Spagnol
O silêncio da alma
Escondido nos segredos do coração
A doce melodia de silenciosa canção
Se escuta na arte da contemplação
Apagando os sons do tempo, da vida
Nos transportando além da tranquilidade
Adormecendo a dor de uma partida
E o sossego da felicidade...
Quando se alcança esta harmonia
Tudo se completa, tudo é alegria
É beleza na diversidade do amor
E sabedoria no perfume de uma flor
Num maná oferecido ao espírito
De bênçãos quem vem a ti
Pelas mãos do Criador, que não exclui
Dando mais energia a emoção
E mais paixão a respiração
Pois somos tudo num só e nada num todo
O bem e mau que inquieta e acalma
Nodoados no silêncio da alma...
(Questão de escolha... Opção!)
Luciano Spagnol
VETUSTO.
É ali, é lá, acolá, é cá
O tempo nunca foi planejar
É solto no ar, é patuá
Corre pra todos no pedalar
Por obediência o seguimos
E ele sem rima é caminhar
E neste túnel submergimos
Da ingenuidade a vetustez
Um dia aqui outro partimos
A certeza que temos, nossa vez
Nos tornamos memórias
Somos enroupados e nudez...
Luciano Spagnol
Se fala tanto em tempo
Como se o tempo fosse cura
Como se fosse uma estrutura
Alterável e não mutável como é
Pois ele devasta, afasta e avança
Tem pressa, se torna lembrança
Num piscar de olhos é só recordação
Então tenha no tempo mais emoção
E neste tempo para tudo
Use o amor como escudo
Luciano Spagnol
Dualidade
Oh fado, oh cerrado!
Chorei nostalgias calado
Tortuosa em ti a emoção
Trouxeste comitiva e solidão
Terei lembrança toda vez
Ao ver secura, ver nudez
Dos campos e sua rudez
Ah! Como conter o desejo
E o displicente lampejo
Do ávido adeus, sem pejo
Apenas sonhado despejo!
Oh fado, oh cerrado!
Encantado e desencantado
Magia de mato encurvado
Em ti sou dualidade, atado
Quando eu me for, enfim
Num novo início ou no fim
Terei e não terei saudades, sim...
Oh fado, oh cerrado!
Luciano Spagnol
Fugaz
Quero o ar do imaginário
Me perdendo na melodia
Quero todo o vocabulário
Das rimas sem melancolia
Que tudo não seja breve
A hora só traga hegemonia
Que a noite e o silêncio seja leve
Quero todo o tempo na poesia
Onde minha alma fique alqueve
Pra cantar-te beijar-te amar-te, ao meu coração alforria.
Tudo é fugaz, a vida mais fugaz ainda... Breve!
Luciano Spagnol
Refundir
Respiro os sonhos, acordado
As dores são suspiros
Inflados no peito, chorado
Que na alma criam giros
Da vida aos quais se é laçado
Criando loucuras e estupidez
Quando vale a pena é ser amado
Mergulhar nesta sensatez...
Se o fato está desgovernado
Refunde como se fosse a primeira vez
Resgatando o bem e a harmonia
Sem nenhuma escassez
Na emoção criando sabedoria
E no amor solidez...
Luciano Spagnol
beijo
beijo inocente
beijo roubado
adolecente
enamorado
beijoca, beijinho
fraternidade
fração do carinho
beijo de amizade
amigo,
doce abrigo
beijo,beijos,beijo
de despedida
lágrimas e cortejo
alma partida
beijo traíra
enganador
beijo cuíra
estertor
beijo
beijemos
gracejo
apaixonemos
desejo
bom mesmo é beijar!
um beijo, mil beijos
afeto, carinho
ensejo
de amor
beijos!
Luciano Spagnol
Páscoa...
Renascer... Germinar o coração
Na esperança a renovação
No amor a reflexão...
Que possamos olhar os aflitos
O que tem dor em seus gritos
Que pede socorro, o miserável
O faminto, o de pouca fé inaliável
Esquecidos da fidelidade de Deus
Nos embustes de nosso viver
(O Pai!) Não nos deixe esquecer
Do Teu sacrifício
Em nossa omissão
Preterição...
Pois não existe artifício
Que não o único caminho
A única verdade, o único amor
A Trindade, nosso paterno protetor
Que venha ao nosso encontro
Pra tornarmos mais solidários
Menos egoístas, menos solitários
Nesta nossa vida penitente
De sobressaltos presente
Ofertando carinho, afago
Sorriso fiel e largo, e assim trazer:
Vós conosco em verdade
Em luz no nosso viver
Não importando o quão é difícil
Se muito, agradecendo o pouco
Se pouco, partilhando o muito
Para gozarmos juntos à felicidade
Perpetuando a alma na eternidade
Oh Senhor! Nosso louvor!
Derrame em nós a dádiva que perdoa
Inundando com Sua afeição que povoa
O nosso espírito....
Feliz Páscoa!
Luciano Spagnol
SONETO DO AMADOR
Amador é o desejo do ser amado
Vive desejando mil formas pra achar
Se no amor não tem o que imaginar
Pois é virtude no ato de ser desejado
Se nele se tem o ser transformado
Onde mais o amador quer desejar?
Pois só assim o bem irá conquistar
E o afeto na alma então será liado
Mas se pouco for o desejo no olhar
Pouco o amador terá encontrado
Aí por ele, o amor, então vai passar
Se ao amador o amor é cobiçado
Então deixe o amor lhe alcançar
Pois o verbo dum amador é amar
Luciano Spagnol
Poeta do cerrado
Fevereiro de 2017
Cerrado goiano
