Textos de Amizade entre Tia e Sublinha

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O POUSO RASANTE DO SER
(Diálogos entre o cosmos e o abismo de si)

O meu “eu” atrelou-se à Terra e minha forma etérea decolou em uma viagem astral. Vi-me em uma linda nave espacial. Avistei viajores do tempo e o incomensurável arco-íris no cosmos. Então, encontrei a Deusa Ísis, que me disse:
— Vieste buscar o tesouro? Não o encontrarás aqui, pois ele está incrustado nas encostas mais íngremes do teu subconsciente.
Atrelagem em pouso rasante. Um sonho que desperta!

Lu Lena / 2026

O AVESSO DO RASCUNHO
(Entre marcas de expressão, a liberdade de ser essência lapidada)

Ontem, eu era um rascunho mal traçado. Hoje, quando olho no espelho, vejo marcas de expressão, rugas e fios brancos que sinalizam: sou uma sobrevivente de um passado que marcou e machucou, mas que também me fez feliz. Tive minha evolução!
Na tela do celular, distraio-me brincando com as letras até formar minha poesia e os escritos que quero deixar como legado — para que se lembrem de que minha essência, agora lapidada, permanece. Entre uma rolagem e outra, observo o sol que parece ser de plástico, enquanto rego, com lágrimas secas, o meu próprio caos.
Vivo num mundo caótico onde a esperança se renova a cada adormecer; pois é no sono que, desprendida da matéria, sou totalmente liberta.

Lu Lena / 2026

BARCO À DERIVA
(Entre Ondas e Solidão)

Dentro de mim
navegas como um barco
incerto, à deriva...
Ondas gélidas e enfurecidas
que vêm e vão...
Nesta turbulência em que me
fecho em ostra, esboçando
um sorriso esmaecido.
Açoita em minha alma essa
solidão...
Momento insone em que lágrimas
ardem em minhas retinas...
Gotículas que ferem, agulhas
no meu coração...
Num choro compulsivo desta
lembrança de dor que ainda sinto
daquela partida...
Desmoronando em cada arrebentação.

Lu Lena / 2026

O AUTISMO ENTRE "ASPAS"
(O esquecimento do adulto e o silêncio da mãe)

Autistas, ao atingirem a idade adulta, tornam-se esquecidos.
No início, há uma luta desenfreada. Quando ainda são crianças, a gente nutre a doce ilusão de que o autismo poderá ser “revertido”. Mas o tempo passa.
À medida que crescem, vamos ficando calejadas. Calejadas de buscar respaldo do governo, de clínicas assistenciais, de redes de apoio... de bater em portas que insistem em não abrir.
E, então, eles são esquecidos. E nós, as mães, também.
O mundo para. Para o adulto autista e para a mãe, que já não enxerga mais o horizonte. Quando eram crianças, a gente via muito além do arco-íris. Mas, na vida adulta, o arco-íris some.
Nossa porta se fecha. O que nos resta é apenas uma janela aberta.
Uma janela que se escancara para deixar entrar a luz nos raros “momentos de oásis”... ou que se fecha apertado para nos proteger da tempestade das crises.
O autismo não termina na infância, mas o olhar do mundo, infelizmente, parece se fechar ali.

Lu Lena / 2026

O AVESSO DO DIZER
(O Verbo que o Silêncio Esconde)


Assim, vou vivendo entre sonho e realidade,
essa ilusão é como a bruma que borda o amanhecer,
e vivo assim em passos lentos caminhando sem saber...
tropeçando em letras para juntar o que não consigo dizer.
Se no meu silêncio mora a poesia desconexa,
aí eu pergunto:
— Palavras pra quê?


Lu Lena / 2026

O VOO DO SER
(Entre o sopro e a luz)

Sou como uma nuvem passageira,
Sem forma fixa, sem peso ou chão;
Voo livre que separa o tempo
da finitude.
Nesse toque divino me desfaço,
Desprendo-me das amarras de quem julguei ser,
Deixando o ego perdido
Para um novo sentido poder florescer.
E finalmente, dentro dessa luz, me encontro,
Pois no ponto mais alto me liberto
Dessa impermanência no infinito.
Lanço um suspiro ao campo estelar que sorri para mim,
No sopro que acabo de soltar.
É nos dedos de Deus que me encontro,
Como um verso escrito em pleno ar,
No silêncio que desata esse nó da existência
E me ensina o segredo de apenas estar.

Lu Lena / 2026

​A ARTE DE SOLTAR AS ÂNCORAS
(​Entre o conforto da companhia e a liberdade do ser)

​Observei, olhando para o horizonte, o sol ao longe e pensei na lua. Mesmo distantes, nunca se encontram. Foi então que veio esta reflexão: como a presença do outro, aos poucos, pode nos fazer desaprender a caminhar lado a lado, sem perder o próprio eixo?
​Ser independente é garantir que, caso todos os outros partam — seja vínculo familiar ou não —, teremos a nós mesmos. Isso quer dizer que devemos ser livres e não depender de ninguém. Às vezes, essa dependência surge porque o outro facilita nossa vida e nós nos acomodamos. Passamos a nos aproximar, ou nos deixar aproximar, por essa escolha — ou melhor, por esse comodismo de estar sem agir.
​Essa conexão inconscientemente passa a ser: "por favor, me preencha, mas saiba que sou completo; caminhar ao seu lado me dá segurança, mas sei que um dia terei que me libertar". Porque, no fim das contas, nascer e morrer só nos lembra que somos essências únicas e responsáveis pela nossa caminhada. Afinal, a liberdade reside em saber soltar o que prende e permitir que flua, com leveza, tudo o que a vida nos entrega.

​Lu Lena / 2026

​O HORIZONTE DA INÉRCIA
(Entre o bater de asas e o silêncio da gaiola)

​A vida é tão complexa e, ao mesmo tempo, simples e natural como o pássaro que voa... O diferencial é que o pássaro pode não ser mais visto, ou pode ficar preso na gaiola por não saber voar, condicionado a essa prisão.
​Assim como as circunstâncias de nossa existência, que não se explicam: a gente observa e as deixa apenas voar, ou elas ficam aprisionadas por nosso comodismo.

​Lu Lena / 2026

​REVÉRBEROS NA ESCURIDÃO
(​O despertar entre o estuário e a luz letal)

​Vi o holocausto e a natureza morta entre pedregulhos;
nasceram ervas daninhas e me alimentei do ar, da água, da terra…
Sombras do tempo envoltas num mistério obscuro,
sem presente, passado ou futuro.
​Fui rastejando nesse filete de luz letal
que vai delineando os córregos, como lanterna
que clareia a minha escuridão…
​Mergulhei em lágrimas e naufraguei no fundo do estuário;
e nesse cenário inglório, onde me sinto fraca e fugidia,
pálida e sem vida, ouço anjos tocando harpa
num inferno sem calvário.
​Completamente atordoada, em plena suspensão,
vejo minha alma levitando no espaço
e meu corpo decompondo-se no chão.
​Vejo revérberos de almas se esbarrando na escuridão.
​Num sobressalto, acordo...
E já não sei se foi a morte ou a vida
que me despertou dessa caótica alucinação.

Lu Lena / 2026

​GRITO NA ESCURIDÃO
(​Entre o pesadelo e a redenção)

​Meu grito ensurdecedor,
abafado e ganido...
Minhas lágrimas doridas,
trancafiadas na garganta,
secas, espremidas num
coração corroído...
Sem forças e aflita,
rastejo-me...
Na lama fétida e fria,
meu corpo enfraquecido
lentamente sinto...
As pálpebras que fecham.
​Pergunto a mim mesma:
Morri, será?
Ou apenas mais um pesadelo
interminável, na tentativa
estúpida e inócua de
encontrar-te nessa vida?
​Estou cansada, novamente
entrego-me à mercê dos seres
que zombam de minha dor...
Impossível nesse lamaçal
encontrar você, meu amor...
​Olho para meu corpo e não
o reconheço...
Dou voltas num poço fétido,
imenso...
​Sim, a luz eu vejo, o clarão!
Teu rosto disforme vejo
na imensidão...
Nesse devaneio, por alguns
instantes, seguro tua mão...
​Imploro-te!
Tire-me desse vão
onde você me colocou sem
dó e perdão...
Mate-me de vez,
então...
Para que meu grito
ecoe na escuridão...

​Lu Lena / 2026

​CHÃO E CÉU
​(A plenitude de uma caminhada entre dois mundos)

​Viver é caminhar, às vezes, com um pé no chão e uma mão no céu. E quando fecharmos nossos olhos e adormecermos na eternidade, veremos a luz que nos guiou nessa efemeridade terrena, porque é a mesma que nos soprou o fôlego da vida.

Lu Lena / 2026

​O VOO DO SUSPIRO
(​A metamorfose silenciosa entre o destino e a liberdade)

​Renascemos todos os dias, mesmo que os ciclos não terminem. Muitas vezes é por força do destino. Pois, enquanto o mundo gira lá fora, por dentro precisamos arrancar as penas nessa metamorfose e inevitavelmente buscamos o alto da montanha e aguardamos, em resiliência, o morrer e o viver dentro de nós. Precisamos ser águias e num suspiro o voo acontece...

​Lu Lena / 2026

​METAMORFOSE DA VIDA
​(O bater de asas entre a memória e o agora)

​O que mais dói na maturidade não é a dor física, mas a saudade da essência que ficou para trás. Nessa transição, somos como borboletas em constante metamorfose: ora asas que se abrem para a vida, ora casulos que se fecham, introspectivos, para ela.

​Lu Lena / 2026

O Que Não Se Despede


Entre nós não houve fim —
houve silêncio.


Como quando o mar recua
não por desistência,
mas para respirar mais fundo
em outro tempo.


Te amei além das formas
que o mundo entende,
além dos dias certos,
dos gestos perfeitos
e das versões que tentamos ser.


Te amei onde ninguém vê —
no invisível.


E é lá que ainda te guardo.


Se no plano da vida
nossos caminhos se desencontram,
no plano do espírito
eles jamais se perdem.


Porque o que foi verdadeiro
não se apaga —
apenas muda de lugar dentro da eternidade.


Hoje eu te solto…
não por ausência de amor,
mas por amor suficiente
pra não prender o que precisa seguir.


Levo comigo teu riso,
teu jeito,
teu toque que ainda ecoa
como memória viva no meu peito.


E sigo…
com a certeza tranquila
de que algumas almas
não se despedem —


apenas se afastam no tempo.


Se houver outro começo,
em outra vida,
em outro corpo,
ou no reencontro silencioso dos espíritos…


eu vou te reconhecer.
Porque aquilo que é da alma
não esquece.

⁠Um trisal tão nefasto entre a Igreja, o Estado e seu Braço Armado só poderia parir tamanha aberração.


Não há sutileza nessa união — ela sempre carrega consigo os germes do abuso e da manipulação.


Quando a fé se deita com a política, e ambos convidam o braço armado para o mesmo leito, o resultado buscado nunca é comunhão, mas o controle da nação.


A Igreja, que deveria consolar, torna-se cúmplice do silenciamento.


O Estado, que deveria servir, converte-se em senhor.


E o braço armado — que deveria nos proteger — se vê no direito de intimidar.


É nesse pacto que o sagrado se prostitui, o político se corrompe e a violência se legitima.


Não é difícil reconhecer os frutos dessa aberração: consciências domesticadas em nome da obediência, corpos disciplinados pelo medo e uma sociedade moldada não pelo diálogo, mas pela imposição.


O trisal nefasto não gera filhos livres, mas servos disfarçados de cidadãos.


E talvez o maior desafio não seja tão somente apontar os riscos sem precedentes dessa união, mas perceber como, vez ou outra, ela continua a ser desejada por aqueles que temem mais a liberdade do que as medonhas grades invisíveis da prisão.

⁠⁠Não há sussurro mais bonito e charmoso que o da Sabedoria entre os berros dos Cheios de Certezas tentando silenciar os Cheios de Dúvidas.


Há um encanto muito raro no sussurro da sabedoria, porque ele não disputa palco nem precisa levantar a voz.


Enquanto os Cheios de Certezas berram para abafar as perguntas — como se o volume pudesse substituir a verdade —, a Sabedoria prefere caminhar entre as Dúvidas, reconhecendo nelas o início de todo entendimento.


Os gritos tentam impor, o sussurro convidar.


Os que se dizem completos temem os silêncios, pois neles moram as perguntas que desmontam suas convicções frágeis.


Já os cheios de dúvidas, mesmo inseguros, carregam a coragem de escutar, de rever, de aprender e até a humildade de se questionar.


É a eles que a sabedoria se dirige, não para oferecer respostas prontas, mas para ensinar o valor de perguntar melhor.


No fim, o barulho cansa e se esgota.


O sussurro permanece.


Porque só quem não precisa gritar, sabe que a verdade não se impõe — se revela, livre e leve, sobre as sandálias da delicadeza, a quem aceita não saber tudo.

⁠Entre a
indiferença e a imposição,
eu fico com a que
fere menos:
a indiferença.


A imposição já chega fazendo barulho demais, atravessando vontades, atropelando silêncios…


Ela não pergunta, determina.


Não escuta, ordena.


E quase sempre se disfarça de cuidado, de verdade absoluta, de “é para o seu próprio bem”.


Mas deixam marcas — profundas, invisíveis e até persistentes.


A indiferença, embora gélida, ao menos respeita nossas fronteiras.


Dói, sim.


A ausência pesa, o vazio ecoa…


Mas nela ainda há espaço para respirar, para escolher, para não ser moldado à força pelo desejo do outro.


A indiferença não invade a alma; apenas passa ao largo dela.


Entre ser ignorado e ser violentado em nome de certezas alheias, há uma diferença crucial: um fere pela falta, o outro fere pelo excesso.


E excessos, quando impostos, quase nunca constroem — apenas nos quebram.


Talvez o ideal fosse o cuidado que escuta, o amor que propõe sem impor, a presença que respeita.


Mas enquanto isso não acontece, que ao menos nos poupem da brutalidade das verdades empurradas goela abaixo.


Entre a indiferença que não pede para ir nem ficar e a imposição que já chega metendo os pés na porta, que fique a indiferença.


Porque aquilo que não toca pode até doer,
mas o que força… costuma ferir demais.


Me abandone, mas não me atormente!

⁠Com tanto bandido se escondendo sob a segunda pele do braço armado do Estado, a linha entre o Crime Organizado e o Desorganizado fica cada vez mais tênue.


A farda, que deveria simbolizar ordem, proteção e confiança, passa a carregar também o peso da dúvida.


Já não é apenas o medo do desconhecido na esquina escura, mas a inquietação diante daquilo que deveria ser nosso porto seguro.


Quando o distintivo deixa de ser garantia e passa a ser interrogação, o cidadão se vê encurralado em um labirinto moral onde escolher em quem confiar se torna um exercício de risco.


Não se trata de negar a existência de profissionais íntegros — eles existem, resistem e, muitas vezes, pagam um preço muito alto por isso.


Mas o problema não está apenas nos indivíduos, e sim no terreno fértil que permite que a corrupção floresça.


Quando os mecanismos de controle falham, quando o silêncio corporativo fala mais alto que a justiça, e quando a impunidade se torna regra não escrita, o sistema deixa de ser escudo e passa a ser arma.


Nesse cenário, o crime deixa de ter uma única face.


Ele se fragmenta, se infiltra, se adapta.


Ora veste o capuz, ora se esconde sob a insígnia.


E o mais perigoso: começa a operar com a legitimidade que deveria combatê-lo.


A violência, então, deixa de ser apenas um ato ilegal e passa a ser também institucionalizada, ainda que veladamente.


O cidadão comum, no meio desse conflito, é reduzido à estatística ou ao dano colateral.


Vive sob a constante sensação de que, em algum momento, será obrigado a escolher entre dois riscos — e nenhum deles representa, de fato, proteção.


É o tipo de escolha que não deveria existir em uma sociedade que se pretende justa.


Talvez o ponto mais crítico dessa jornada seja perceber que o problema não se resolve apenas com mais força, mais repressão ou mais poder concentrado.


Sem transparência, responsabilidade e coragem para enfrentar as próprias falhas, qualquer estrutura — por mais necessária que seja — corre o risco de se corromper por dentro.


E, quando isso acontece, o que se perde não é apenas a confiança em uma instituição, mas a própria noção de justiça.


Porque, no fim, o que mais assusta não é o crime em si — é quando já não conseguimos distinguir de que lado ele está.

⁠Bastou o encardido encontrar o ponto fraco do povo — esse abismo sutil entre a religiosidade e o fanatismo — para politizar as igrejas.


A religiosidade, quando saudável, nasce da consciência da própria fragilidade.


Ela é ponte: liga o humano ao divino, o erro ao arrependimento, a culpa ao perdão.


Já o fanatismo é muro.


Ele não aproxima; separa.


Não ilumina; incendeia.


Não convida ao amor; convoca à guerra.


Entre uma coisa e outra existe um terreno perigoso: o ego travestido de fé.


É ali que discursos políticos encontram abrigo, não para servir, mas para dominar.


Quando a fé deixa de ser transformação interior e passa a ser instrumento de poder exterior, o altar vira palanque — e o púlpito, trincheira.


Não é a política que contamina a fé; é o coração que, seduzido por certezas absolutas, troca o Evangelho pela ideologia.


O problema não está em cidadãos que creem participar da pública — isso é legítimo.


O problema começa quando a fé deixa de ser farol moral e se torna escudo partidário.


O fanático não se percebe capturado, acredita estar defendendo Deus, quando, na verdade, está defendendo homens.


E homens passam.


Projetos passam.


Mandatos também.


Mas o dano causado quando se confunde Reino com governo terreno atravessa gerações.


Talvez o maior sinal de maturidade espiritual seja justamente este: saber que Deus não precisa de cabos eleitorais, nem de militantes inflamados, mas de consciências coerentes.


A fé que se ajoelha não precisa gritar.


A fé que ama não precisa esmagar.


A fé que é verdadeira não teme perder espaço político, porque jamais dependeu dele para existir.

⁠No abismo sutil
entre a Religiosidade
e o Fanatismo,
o Encardido
perverteu as Almas Carentes
para instrumentalizar as igrejas.


A religiosidade, quando nasce da consciência, é ponte.


Liga o humano ao transcendente, a fragilidade à esperança, o erro à possibilidade de redenção.


Já o fanatismo é muro.


Separa, acusa, simplifica o que é complexo e transforma fé em trincheira.


Entre a ponte e o muro há um abismo quase imperceptível — sutil como a Vaidade Espiritual que se disfarça de Zelo.


É nesse intervalo que a fé deixa de ser encontro para ser ferramenta.


Ferramenta de poder, de influência, de domínio.


Quando a espiritualidade perde o compromisso com a verdade e se apaixona pela própria narrativa, ela se torna vulnerável à manipulação.


E almas carentes — feridas pela vida, desassistidas pelo Estado, esquecidas pela sociedade — tornam-se terreno fértil para discursos que prometem pertencimento antes mesmo de oferecerem transformação.


O fanatismo seduz porque oferece respostas rápidas para dores profundas.


Ele entrega identidade pronta a quem ainda não se encontrou.


Dá inimigos claros a quem não consegue nomear suas angústias.


Simplifica o mundo em “nós” e “eles”, como se Deus coubesse em slogans e a Eternidade pudesse ser reduzida a palanque.


A religiosidade madura, ao contrário, incomoda.


Ela exige autocrítica, compaixão e muita responsabilidade.


Ela não precisa gritar para existir, nem destruir para se afirmar.


Sabe que a fé autêntica não é instrumento de coerção, mas caminho de conversão — primeiro interior, depois social.


Quando igrejas se deixam capturar pela lógica da influência e do controle, deixam de ser hospital para se tornarem comitê.


E onde deveria haver cuidado, instala-se a estratégia.


Onde deveria haver silêncio reverente, instala-se o ruído deliberadamente calculado.


O sagrado passa a ser moeda simbólica numa economia de poder.


Talvez o maior antídoto contra essa instrumentalização seja a Maturidade Espiritual.


Uma fé que não negocia sua essência por aplausos.


Uma comunidade que prefere formar consciências a fabricar soldados.


Um povo que entende que Deus não precisa de defensores raivosos, mas de testemunhas coerentes.


No fim, o abismo entre Religiosidade e Fanatismo não é teológico — é humano.


E atravessá-lo ou não, depende menos do discurso dos púlpitos e mais da vigilância.