Texto de Amor para Mulher
Reflexo Desconexo
William Contraponto
Não é por amor nem por favor,
É o medo que mantém.
Aparência moldada no pavor
De estar consigo e mais ninguém.
Rostos se dobram em disfarces,
Almas se calam no fundo.
Caminha-se em círculos e impasses,
Um vulto preso ao peso do mundo.
A verdade arde como chama,
Mas se esconde atrás da muralha.
O coração sabe o que reclama,
O corpo finge e logo falha.
Ser livre exige despir-se inteiro,
Aceitar a sombra que nos invade.
O medo é muro, frio carcereiro,
Que nega ao ser sua própria verdade.
E quando a máscara enfim cair,
Não restará nada além da essência.
Um ser cansado de fugir,
Sedento de paz, faminto de consciência.
Entre a Literatura e o Luto: A Jornada de Amor e Resiliência de William Contraponto e Maurício
O escritor e pensador William Contraponto (William Gogolenko Risther) tem transformado sua dor mais profunda em arte e reflexão. Conhecido por sua escrita densa e olhar crítico sobre a sociedade, o autor enfrenta atualmente um de seus capítulos mais desafiadores: o luto pelo falecimento de seu companheiro, Maurício Rodrigues Lucas, ocorrido em 26 de setembro de 2026.
A história dos dois, que se estendeu por anos de cumplicidade, tornou-se um testemunho público de afeto, respeito às diferenças e, acima de um tudo, uma profunda lição sobre a finitude humana.
O Encontro das Diferenças
Um dos aspectos mais marcantes na trajetória do casal era a forma harmônica com que lidavam com suas visões de mundo distintas. Enquanto William Contraponto se define publicamente como ateu — pautando sua filosofia na razão e no ceticismo —, Maurício mantinha uma fé católica convicta.
Longe de ser um ponto de discórdia, a divergência religiosa era celebrada como parte da individualidade de cada um. Essa dinâmica de respeito mútuo permaneceu intacta mesmo nos momentos mais difíceis e hoje se reflete na forma como William preserva a memória do parceiro em seu lar, mantendo os símbolos de fé que eram importantes para Maurício.
A Batalha e a Despedida
Maurício Rodrigues Lucas faleceu aos 37 anos, após uma batalha contra uma grave doença oncológica. O diagnóstico e o processo de tratamento exigiram do casal uma resiliência imensa. Durante todo o período de internação e cuidados paliativos, William assumiu o papel de cuidador e confidente, documentando de forma velada ou direta as nuances de ver quem se ama enfrentar o declínio físico.
A partida de "Maumau", como era carinhosamente chamado, gerou uma forte onda de solidariedade entre os leitores e amigos do escritor.
A Dor que se Transforma em Palavra
Para um homem de letras, a escrita é tanto um escudo quanto uma ferramenta de cura. Desde a perda de Maurício, William Contraponto tem utilizado seu blog oficial e sua página na plataforma Recanto das Letras como canais de vazão para o luto.
Seus textos recentes abandonaram temporariamente a crônica política e social para mergulhar em uma densa autoficção e poesia confessional. William escreve sobre a ausência, o silêncio da casa vazia e o peso das lembranças, transformando a figura de Maurício em uma presença literária eterna. Ao expor sua vulnerabilidade, o autor acaba por acolher centenas de leitores que também enfrentam o luto, humanizando o processo de dor.
O Legado do Afeto
A história de William e Maurício deixa uma mensagem clara: o amor sobrevive à ausência física. Através da literatura, Contraponto garante que o companheiro não seja esquecido e que a batalha vencida pela biologia não apague a vitória do afeto que construíram juntos.
Existem vários tipos de amores:
Amor bandido.
Amor gostoso.
Amor que amamos
Amor que assusta
Amor que se foi
Amor que não veio
Amor que se confia
Amor que trai
E o pior dos amores é aquele que não vivemos, não brigamos por ele, deixamos passar sem perceber que esse era o amor verdadeiro.
(Saul Beleza)
Em ti, tudo é convite e despedida,
Um abraço que aquece, um amor que arde,
Explode o desejo, apaga a noite fria,
E ao amanhecer, incendeia a alma e a tarde.
Teu amor é um fogo que me consome,
Me entrego a ti, sem medo, sem receio,
Pois sei que em teus braços, eu me sinto em casa,
E que a saudade é o preço do amor que sentimos.
Mas se a despedida habita nossos dias,
É porque o amor que sentimos é verdadeiro,
E que mesmo na dor, há uma alegria,
Que só o amor pode trazer, sem igual.
E assim, me entrego a ti, sem medo, sem dor,
Pois sei que em ti, meu amor, eu sempre estou em um eterno deleite.
(Saul Beleza)
essa é a tradução daquele meu cantar depois do prazer, e fico nos teus braços murmurando...gostou?
O amor me ensinou a lição
que a felicidade é só uma estação.
Pensava que era só alegria.
Mas a verdade é outra, a dor também é dia.
Aprendi a suportar o que não vem no cardápio.
A espera, a saudade, o coração vazio,
amar de verdade é aprender a lidar
com as dores que o amor pode causar.
(Saul Beleza)
*Amor que não cobra*
Te quero perto do jeito adulto,
que divide a cia debaixo do cobertor,
sem promessa de filme da Disney,
só de café passado e louça lavada.
Se vier pra junto de mim
traz teu mau humor de segunda sem ter tomado um café amargo,
que eu respeito seu ronco nas madrugadas
e a gente negocia o lado do sofá.
Amor não é fogos de artifício,
é saber calar quando o outro tá cansado
é lembrar de comprar o pão
e não transformar celos em uma guerra.
Não precisa ser pra sempre
só precisa ser honesto hoje,
e amanhã a gente conversa de novo
com os dois pés no mesmo chão.
Se azedar, a gente adoça com respeito
se apertar, a gente afrouxa com conversa
se acabar, acaba sem dívida
mas enquanto durar, que seja inteiro e verdadeiro.
(Saul Beleza)
*Meu amor,*
O meu amor não envelheceu.
Só você envelheceu, e eu vi cada linha nova no seu rosto virar parte da minha história favorita.
O tempo tentou fazer de você passado. Tentou te colocar no pretérito perfeito, resolvido, encerrado.
Mas não conseguiu. Você ficou no imperfeito comigo. Nesse tempo que não acaba, que ainda dói, que ainda ama.
Eu não te esqueci de vez porque o tempo não deixou. E eu também não quis.
Tem gente que passa. Você ficou.
Se um dia a gente se encontrar de novo, o meu amor vai estar igual. Só mais vivido.
E se não, ele continua aqui, sem envelhecer.
Com todo o amor que o tempo não apagou,
Eu...
(Saul Beleza)
*Pretérito Imperfeito*
O meu amor não envelhece
Só envelheceu quem eu tanto amei
O cabelo branco, a pele marcada
Mas o sentir? Esse eu guardei
E o tempo não quis que eu te esquecesse
De vez, por inteiro, pra sempre
Mesmo que isso fosse pretérito imperfeito
Eu te conjugo no presente
"Eu amo"
"Eu amava"
"Eu amarei"
Todos os tempos cabem
Quando o amor não sai
Não virou passado resolvido. Virou história que ainda respira.
(Saul Beleza)
Eternamente
Não quero que esse amor seja eterno.
eterno pesa,
eterno prende,
eterno cansa até o que é bonito.
e se for pra ser eterno,
que eu morra
sem te amar de verdade.
que eu morra amando pouco,
amando torto,
amando de longe.
porque te amar de verdade e pra sempre
seria morrer todo dia
um pouco mais.
(Saul Beleza,)
Se existe um amor, por que ficar só?
Que insensatez é essa de se guardar,
se o coração chama e quer amar,
e a vida passa num só dó?
Ficar só tendo amor por perto
é negar a chuva, negar o mar,
é ter o vinho e não brindar,
é ter caminho e andar deserto.
Se existe um amor, que ele venha,
que sente à mesa, que fique enfim,
que me embriague e more em mim.
Porque amor que existe e não se tem
é saudade antes mesmo de ser,
é morrer só, sem nunca viver.
(Saul Beleza)
Porque o amor que dura pra sempre
não precisa de todo dia.
Ele não vive de mensagem, de toque, de presença.
Ele vive de ter acontecido de verdade.
Uma vez que duas almas se reconhecem,
não existe mais longe.
Existe só saudade.
E saudade é só o jeito que o amor tem
de provar que ainda tá lá,
batendo.
Tem gente que passa a vida inteira do lado
e nunca se toca.
E tem gente que se tocou uma vez só,
e nunca mais se largou por dentro.
Esse é o amor que perdurou.
Ele não acabou.
Ele só mudou de lugar.
Saiu do mundo e entrou na eternidade.
(Mario Valen/Saul Beleza)
Não há interesses mais confusos e covardes quanto aos que confundem amor com carência, e acabam após saciados.
Porque o Amor Verdadeiro não se esgota quando a fome é saciada — ele nasce justamente quando o outro deixa de ser remédio para a solidão e se torna companhia na inteireza.
A carência só quer preencher um vazio; o amor, transbordar!
Quem ama pela falta, consome, desgasta e até usa o outro.
Quem ama por plenitude, compartilha o que tem de mais inteiro.
Por isso, é tão fácil ver relações que começam com tanta intensidade e terminam em silêncios tão ensurdecedores — eram tão somente gritos de necessidade disfarçados de afeto.
O amor não almeja saciedade, mas sim, permanência.
Aprendi que tudo feito com muito Amor e Carinho dá certo…
Inclusive Brigar!
É raro alguém conseguir Brigar com tanto Amor e Carinho, sem deixar o pincel cair de propósito — só para rabiscar o perdão no meio da discussão.
Porque certas brigas nascem apenas para nos lembrar que o Abraço é o ponto final mais bonito…
Os abraços grandes, os memoráveis, nascem das mãos livres… e dos corações presos — ao desejo de amar.
Com carinho — à prima, Elaine Ferreira.
O amor não se sustenta nem se eterniza só na calmaria, mas também na fidelidade nas tempestades.
Na saúde, na doença e na eterna gratidão por estarmos juntos.
Sem revolta, passamos o Natal no hospital.
Sabíamos — e seguimos sabendo — que o Grande Aniversariante veio pelos doentes.
Sem revolta, passamos o réveillon no hospital.
E hoje, sem revolta, passaremos também o nosso aniversário de casamento no hospital.
Porque sabemos que estar juntos não é circunstância — é aliança: na saúde e na doença.
Naquele que tem autoridade até sobre a tempestade, confiamos:
Ele jamais permitiria que a atravessássemos se não pudesse dominá-la.
Mas ainda assim, Pai Amado, humildemente Te suplico:
restaura a saúde da mulher da minha vida —
aquela que me deste por esposa.
Toca seu corpo com a Tua cura,
acalma sua alma com a Tua paz
e renova suas forças dia após dia.
Dá-nos vigor quando o cansaço insistir,
silêncio quando o medo tentar falar mais alto
e esperança quando os dias parecerem longos demais.
Sustenta-nos na travessia
e permite que, ao final dela, saiamos mais inteiros,
mais gratos
e ainda mais unidos em Ti.
Que o Pai Amado continue abençoando a nossa jornada!
A Ti, Pai, gratidão por mais um ano de casados!
Amém!
Talvez não haja Dor que supere a de beijar a Testa Gelada do nosso Grande Amor num caixão.
Há despedidas que não encontram palavras suficientes.
O silêncio pesa muito mais do que qualquer discurso, e o coração tenta aceitar aquilo que a alma insiste em negar.
Nesse instante, compreendemos que o verdadeiro amor não se mede apenas pelos dias felizes, mas pela imensidão da saudade que fica quando a presença vira memória.
Quem ama de verdade, nunca está preparado para dizer adeus.
Restam as lembranças dos sorrisos compartilhados, das mãos entrelaçadas, dos sonhos construídos e da gratidão por cada momento (com)partilhado.
A morte pode até interromper uma história nesta terra, mas jamais poderá apagar um amor que marcou uma vida inteira.
Hoje, entre lágrimas, medos e saudade, só consigo dizer:
Vá em paz, amor da minha vida, Célia Maria!
E, mesmo com o coração dilacerado, elevo meus olhos aos céus e agradeço:
Gratidão, Pai Eterno, Pai Amado, por ter me emprestado a mulher da minha vida por mais de três décadas.
Que eu tenha forças e hombridade para honrar tudo o que vivemos, e para carregar comigo o legado de amor que ela deixou.
Talvez uma das maiores provas de que o amor existe seja exatamente a tamanha intensidade da dor da despedida.
E, talvez, não haja dor que supere a de beijar a testa gelada da pessoa mais amada da sua vida num caixão.
Vá em Paz, amor da minha vida!
O grande Amor da nossa vida não é só quem Acelera nosso coração, mas também quem Desacelera nossa cabeça.
Porque amar não deveria ser viver em constante estado de alerta, tentando decifrar silêncios, justificar ausências ou adivinhar sentimentos.
O amor que realmente importa não é aquele que nos deixa presos à ansiedade de saber se somos suficientes, mas aquele que nos oferece a tranquilidade de simplesmente sermos nós mesmos.
Há pessoas que chegam e despertam borboletas no estômago, fazem o coração bater mais forte e transformam dias comuns em momentos inesquecíveis.
Mas existe algo ainda mais profundo: encontrar alguém diante de quem a alma consegue respirar.
Talvez o verdadeiro amor seja menos sobre a intensidade dos primeiros encontros e mais sobre a paz que permanece depois que a euforia passa.
É ter alguém que não alimenta inseguranças, que não transforma afeto em disputa, presença em prêmio ou silêncio em castigo.
É poder descansar no abraço de alguém sem precisar perguntar se amanhã esse abraço ainda estará ali.
Porque paixão pode incendiar.
Desejo pode estremecer.
Encantamento pode nos tirar o chão.
Mas, amor, quando é saudável, também sabe nos devolver ao chão — e permanecer ao nosso lado enquanto recuperamos o equilíbrio.
No fim, talvez o grande amor não seja quem nos faz sentir tudo ao mesmo tempo, mas quem nos ensina que não precisamos sentir medo para sentir amor.
É aquele alguém que acelera o coração quando chega, mas que, quando fica, faz a nossa mente finalmente encontrar silêncio.
E talvez seja essa a forma mais bonita de amar: encontrar alguém que não seja apenas motivo para o coração bater mais forte, mas também razão para a alma descansar.
Em vão tento me reencontrar antes do grande amor da minha vida;
só tem depois.
Há um homem que fui e que já não sei onde encontrá-lo.
Um sujeito que habitava o mundo sem desconfiar que, um dia, outro ser humano lhe alteraria a geografia da alma, deslocando suas certezas, reinventando seus abismos e dando novos nomes às coisas que, até então, julgava conhecer.
Procuro-o nas fotografias antigas, nos lugares onde meus passos ainda não tinham pressa, nas canções que eu ouvia sem imaginar que, um dia, algumas melodias poderiam me devolver a um tempo em que eu ainda não conhecia a saudade de alguém.
Mas tudo me escapa…
É como procurar o rio antes de ele descobrir o mar, como tentar encontrar a semente depois que a árvore já aprendeu a conversar com os ventos.
O amor, quando é grande, não apenas nos acontece: ele nos modifica.
E talvez seja essa a sua mais profunda crueldade — ou a sua mais extraordinária beleza.
Porque, depois dele, já não somos inteiramente donos daquilo que éramos.
Há em nós uma nova linguagem, uma sensibilidade que desconhecíamos, uma espécie de eternidade que passou a caber nas coisas breves.
Antes, eu julgava conhecer a solidão.
Hoje, sei que existe uma solidão anterior ao encontro e outra, inteiramente distinta, que nasce quando alguém nos ensina a dimensão da presença.
A primeira é um quarto vazio; a segunda é uma casa inteira que ainda guarda o cheiro de quem partiu, ou a memória de quem permanece, mas já não cabe nos mesmos gestos de outrora.
E o mais intrigante é que não sei se desejo, de fato, reencontrar aquele homem que fui.
Talvez eu sinta falta apenas da sua ignorância.
Da maneira como caminhava, sem saber que certas pessoas chegam para nos transformar em perguntas.
Da inocência com que acreditava que o coração era uma morada estável, quando, na verdade, era apenas uma casa à espera de alguém que lhe mudasse as paredes de lugar.
Quem ama profundamente perde, em alguma medida, a possibilidade de voltar a ser quem era.
Não porque o amor nos roube a identidade, mas porque nos revela dimensões de nós mesmos que, uma vez descobertas, já não podem ser desabitadas.
É como conhecer o oceano e tentar, depois, convencer-se de que uma poça d'água basta para explicar o mundo.
Talvez seja por isso que o passado me pareça cada vez mais distante, embora continue tão perto.
Não porque os anos tenham crescido entre mim e aquele que fui, mas porque a experiência abriu um abismo na memória.
O homem de ontem e o de hoje compartilham o mesmo nome, o mesmo corpo, talvez os mesmos olhos; contudo, entre um e outro, existe um acontecimento que não pode ser desfeito: eu amei.
E amar, quando o amor alcança as alturas, é permitir que a existência nos reescreva por dentro com uma tinta que não aceita borracha.
Às vezes, penso que amadurecer é justamente aprender a conviver com essa impossibilidade de retorno.
É compreender que certas portas não se fecham atrás de nós: elas desaparecem.
E, quando olhamos para trás, já não encontramos a entrada, mas apenas a paisagem transformada pela distância.
O que fazer, então, com essa nostalgia de alguém que ainda somos, mas que já não conseguimos ser?
Talvez seja necessário parar de procurar.
Parar de exigir que a vida nos devolva intactos aquilo que ela própria precisou transformar para nos fazer crescer.
Há uma vaidade escondida no desejo de permanecer o mesmo, como se a nossa versão anterior fosse mais legítima do que aquela que sobreviveu aos encontros, às perdas, às descobertas e às contradições.
Não era melhor, necessariamente, o homem que fui antes daquele amor.
Era apenas um homem que ainda não sabia quase nada da vida.
E há coisas que somente a experiência ensina, embora o preço dessa aprendizagem seja nunca mais podermos olhar para o mundo com os mesmos olhos.
Hoje, compreendo que a vida não é uma estrada que nos permite voltar ao ponto de partida para corrigir o percurso.
É uma travessia em que cada encontro altera a paisagem e cada despedida modifica o significado da chegada.
Por isso, já nem procuro recuperar quem fui.
Procuro compreender quem me tornei.
Talvez o verdadeiro reencontro não consista em regressar ao passado, mas em reconciliar-me com todas as versões de mim que precisaram desaparecer para que eu chegasse até aqui.
O menino que eu era merece ternura, não resgate.
O homem que sou merece compreensão, não condenação.
E aquele que ainda serei merece a liberdade de não precisar justificar-se eternamente pelas marcas que carrega.
Porque o amor não deveria ser medido apenas pelo tempo em que alguém permanece ao nosso lado, mas também pela profundidade com que transforma a nossa maneira de existir.
Há amores que se tornam presença; outros, memória.
Alguns nos oferecem um lar; outros nos ensinam que até aquilo que chamávamos de lar pode mudar de forma.
Mas todos os grandes amores, de alguma maneira, nos obrigam a rever a pessoa que acreditávamos ser.
E talvez a tragédia não esteja em não podermos voltar a ser quem éramos, mas em passarmos tanto tempo tentando regressar que nos esquecemos de viver quem somos agora.
Em vão tento me reencontrar antes do grande amor da minha vida; só tem depois.
E, se só tem depois, que eu aprenda a habitá-lo.
Que eu não transforme a saudade numa prisão, nem a memória num tribunal onde condeno o presente por não se parecer com o passado.
Que eu compreenda, enfim, que não preciso recuperar o homem que fui para honrar a história que vivi.
Porque há um tempo em que a vida nos pertence como possibilidade, e outro em que ela nos pertence como consciência.
Antes, eu tinha a inocência de quem ainda não conhecia a profundidade de certas águas.
Depois, tenho a lucidez de quem já mergulhou e sabe que nunca mais será possível confundir a superfície com o fundo.
E, no silêncio de tudo aquilo que mudou, começo a suspeitar que talvez não tenha perdido a mim mesmo.
Talvez eu apenas tenha deixado de caber na definição que, um dia, fiz de quem era.
Afinal, existem amores que não nos afastam de nós mesmos; afastam-nos apenas da ilusão de que já nos conhecíamos por inteiro.
E, se antes de você eu era uma história ainda por acontecer, depois de você me tornei também a consciência de tudo aquilo que uma história pode fazer com um homem.
Não posso voltar...
Não porque o passado esteja longe demais, mas porque já não sou aquele que poderia habitá-lo.
Resta-me seguir, levando comigo o que fui, acolhendo o que sou e aceitando que o futuro não me deve a devolução de nenhuma versão já esquecida.
Porque a vida, em sua sabedoria silenciosa, não nos concede o privilégio de sermos os mesmos depois de conhecermos o extraordinário.
Concede-nos algo talvez mais difícil: a oportunidade de continuar existindo depois de termos sido profundamente transformados.
E talvez seja esse o verdadeiro sentido de amar: descobrir que não há retorno à pessoa anterior, mas ainda há um mundo inteiro a ser vivido pela pessoa que nasceu depois.
Sobre SER TIA...
Pouco se fala sobre o amor que nasce quando a gente se torna tia. Queremos proteger, cuidar, vibramos com cada pequena conquista.
Não chega perto da maternidade, mas é um amor, que, de alguma forma, nasce dentro de nós.
Talvez seja por isso que, quando alguém diz: "fala com a tia", mesmo que não seja sobrinho, o coração entende tão rápido.
Porque "tia" não é só um nome . É um lugar no coração de alguém.
Ser tia é descobrir que existe um amor capaz de transcender qualquer laço de sangue, qualquer explicação, qualquer medida.
É amar uma parte da nossa família como se fosse uma parte de nós!
POEMA INEVITÁVEL
Eu queria falar sobre deus, sexo, política, amor e trivialidades; mas me colocaram uma carapuça, e fui treinado a ser um personagem.
Depois, quis me tornar poeta, músico, filósofo e até ator. Porém, descobri que, desses, eu já tinha me tornado ator, não por opção, mas por imposição das situações, e sufoquei os outros personagens.
Eu quis me tornar um humanista, um sociólogo, talvez antropólogo, filólogo e até defensor de causas perdidas ou ganhas. Acontece que meu personagem não discute muito com minha dignidade: meu lado ator sempre vence quando a conveniência grita mais alto!
Enfim, decidi partir para as trivialidades da vida, já que não me restavam muitas escolhas. Eu tentei ser muitos, e acabei não sendo eu. Então, fiz da vida minha luta, minha sobrevivência, minha causa (também por imposição). Ergueri um castelo de sofismas, e o meu estandarte foi tremular pequenas ideias que não eram minhas. Lutei bravamente para anunciar, dentro de mim, um poema inevitável, confrontando meu personagem que, por conveniência, acabou sufocando o eu iludido que achava que era eu!!!
#israelsoler
VÉRTICES
Quando me vem o medo de amar,
lembro-me de que o amor é bom
e paro num espaço de tempo retrógrado.
Em frações de segundos,
vejo-me, olhando-me por dentro,
com o coração acelerado.
E, em um curto espaço de tempo,
a colisão de dois corpos,
ambos tentando ocupar
o mesmo espaço, a mesma matéria...
Assim foram aqueles tempos.
Chego a pensar na suavidade do vento,
este que lambia seus cabelos naquele dia,
e lembro de belezas mil que me ofertaste.
As lembranças são partes a revoar
ao longo dos dias na minha mente,
que insistem em se perpetuar
ao longo dos anos!!!
Em meus pensamentos,
estas lembranças que se formam
através de imagens
ressuscitam tempos bons, enigmas e parábolas,
construindo, assim, vértices
em pontos estratégicos do coração,
mostrando toda a beleza
dessa encantadora criatura
que caminha em busca do seu equilíbrio!
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