Ter Fe e ver Coragem no Amor Los Hermanos
Já venci guerras que ninguém soube que existiram. As batalhas invisíveis nos ensinaram a ter compaixão por aqueles que lutam calados.
A exaustão mental é o reflexo de um espírito que lutou em batalhas que nunca deveriam ter sido suas.
O verdadeiro poder é não ter que provar nada para ninguém, exceto para a sua consciência silenciada.
O mundo só respeita quem se levanta mais rápido. A superação não está em não ter feridas, mas em ter a atitude implacável de continuar a luta.
Você é feito de sobrevivências. De histórias que poderiam ter te destruído, mas escolheram te construir. Tudo em você é prova viva da sua força.
O medo da solidão é o medo de ter que encarar a si mesmo. Se você não é boa companhia para si, como espera ser para o mundo?
O maior luxo da vida é ter tempo para o silêncio e para o afeto, o resto é apenas ruído e superficialidade.
A maturidade é o cálculo frio onde se troca a febre vã de ter a última palavra pelo alívio profundo de ter sossego, a serenidade é a moeda de troca que aniquila o valor de qualquer argumento.
A perda me ensinou a medir tudo em silêncio. O pouco que sobrou passou a ter peso de tesouro. Conto moedas de afeto e invisto em gestos pequenos. Há economia no cuidado com o próprio quebrado. E essa prudência constrói a base para novos começos.
Há manhãs em que o céu parece ter riscado meus planos. Reescrevo com caneta de paciência. Algumas letras saem tortas, mas ainda dizem algo. Aprender a reescrever é dom que a vida impõe. E a cada versão, eu sou menos imaturo.
No final, o que nos salva é ter nome para o que sentimos. Nomear a dor, a alegria, o medo, a graça. Com o nome, a sensação perde um pouco de potência destrutiva. Passa a ser matéria que podemos trabalhar. E assim, transformando linguagem em trato, vamos vivendo.
Deus deve ter um carinho especial pelos que choram escondidos no banheiro, abafando os soluços com a toalha para não interromper a janta dos outros. É nesse silêncio úmido que a santidade se manifesta, longe dos altares e perto das misérias que nos tornam humanos.
A alma é uma casa abandonada onde o vento sopra entre as frestas de memórias que eu deveria ter enterrado há muito tempo. Mas eu gosto do barulho do vento, ele me lembra que, embora a casa esteja vazia, ela ainda respira a poeira do que foi vivido.
A solidão é o preço que se paga por ter uma alma que não aceita imitações e que prefere o isolamento à companhia de quem só sabe falar do que é superficial. É um custo alto, mas a vista do deserto é muito mais honesta do que a da cidade iluminada por luzes artificiais.
24 Prelúdios, Op. 28, de Frédéric Chopin.
Naquela noite em Valldemossa, o mundo parecia ter sido reduzido ao som da água.
O mosteiro respirava um silêncio antigo, quebrado apenas pelo insistente cair das gotas — como se o céu, cansado de sustentar seus próprios pesos, decidisse chorar sobre a pedra fria. Dentro de um quarto úmido, Frédéric Chopin não dormia. O corpo frágil repousava, mas a alma permanecia desperta, inquieta, à beira de algo que não se pode nomear.
Dizem que a chuva o atravessou.
Não por fora — mas por dentro.
Cada gota que tocava o telhado encontrava eco em seu peito, como um pulso repetido, uma lembrança que se recusa a morrer. E então, entre a febre e o silêncio, ele viu — ou sentiu — a si mesmo afundando lentamente em um lago escuro, onde o tempo não corre, apenas escorre.
Gota.
Gota.
Gota.
Não era mais o mundo que chorava.
Era ele.
Quando George Sand voltou, encontrou um homem que já não estava inteiro. Havia nele algo que tinha ficado naquela água imaginada, submerso entre sombras e sons. Mas sobre o piano, quase como um reflexo involuntário da dor, nascia uma sequência de notas que insistiam em cair — sempre a mesma, sempre igual, como se a música tivesse aprendido a imitar a chuva… ou a memória.
Ele negaria depois.
Diria que não era chuva.
Que não havia gotas.
Que a música não descreve, apenas existe.
Mas há verdades que não pertencem ao compositor — pertencem ao abismo de onde a música vem.
E naquele prelúdio, escondido entre luz e tempestade, ainda é possível ouvir:
não a chuva do céu,
mas a que cai dentro de alguém.
- Tiago Scheimann
