Soneto da Falsidade de Vinicius de Moraes
[...] O ser humano que não conhece a arte tem uma experiência de aprendizagem limitada, escapa-lhe a dimensão do sonho, da força comunicativa, dos objetos à sua volta, da sonoridade instigante, da poesia, das criações musicais, das cores e formas, dos gestos e luzes que buscam o sentido da vida.
Posso sentir o abraço das asas de Deus, posso tocar o céu com a palma da mão, sem precisar tirar os pés do chão, e sem abrir os olhos posso enxergar a tua luz!
Como se ele fosse a inércia da matéria, que conserva impressão, mas que não a guarda senão o tempo que é gasto para um novo agente modificá-la.
Nas lágrimas de amor há, como na saudade, uma doce amargura, que é veneno que não mata, por vir sempre temperado com o reativo da esperança, a moça julgou dever separar da dor, que a fazia chorar amargores, a esperança que no pranto lhe adicionava a doçira, e, tendo de exprimir a doçura, Ahy cantou.
Ora, todos sabem que os amantes têm um prazer indizível em matraquerar os ouvidos dos que os atendem com uma história muito comprida e mil vezes repetida que, reduzindo-se à expressão mais simples, ficaria em zero ou, quando muito, nos seguintes termos: “eu olhei e ela olhou”; eu lhe disse “pode ser, não pode ser".
