Somos Passaros de uma Asamario Quintana

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Às vezes o futuro me parece uma sala de portas fechadas. Toco uma, depois outra, e escuto apenas o eco de mim mesmo. Então respiro e deixo que o tempo abra as demais. Há uma sabedoria silenciosa no modo como as coisas se revelam.Aprender essa paciência é um dom que só nasce com o tempo.

A saudade é uma moeda que não se desvaloriza. Troco por lembranças, por músicas, por fotos. Com ela compro consolo quando falta companhia. Às vezes a moeda pesa, mas é firme e confiável. E guardo ainda mais quando o cofre do peito treme.

Há uma guerra silenciosa em meu peito, sem plateia, sem trégua e sem ninguém para recolher os escombros das minhas derrotas diárias.

Há manhãs em que não desejo o fim, apenas uma pausa na consciência, um repouso de mim mesmo e do barulho da minha mente.

Existe uma exaustão que o sono não cura, ela reside onde os remédios não alcançam e onde só a ponta da caneta consegue tocar.

Não sou um objeto quebrado, sou uma obra em reforma perpétua, tentando alinhar as peças enquanto o chão ainda treme.

Minha esperança é uma sobrevivente teimosa, mesmo ferida e sem fôlego, ela insiste em se manifestar nos escombros.

Carrego um luto sem rito de passagem, uma perda invisível que me transformou em alguém que eu ainda estou tentando conhecer.

Minha trajetória não é estética, é ética. Há uma beleza ferida na honestidade de assumir que nem tudo está bem.

Sigo. Não por coragem heróica, mas por uma teimosia visceral que me impede de aceitar o ponto final antes da hora.

Minha mente é um canteiro de obras infinito, sempre há algo sendo demolido para que uma nova versão de mim tente nascer.

A esperança é uma visita inesperada, ela senta em silêncio, não promete nada, mas sua presença torna o ar menos pesado.

Há um cansaço que não se cura com o sono, uma espécie de ferrugem silenciosa que começou nos meus ossos e agora dita o ritmo lento do meu sangue.
Viro os bolsos da alma e só encontro os restos de quem eu prometi ser, enquanto o silêncio da casa se torna um inquilino que não paga aluguel e ocupa todos os cômodos.
Escrevo para não ter que gritar contra as paredes, mas as palavras saem como estilhaços de um vidro que eu mesmo quebrei, cortando a garganta antes de ganharem o ar.
O tempo aqui dentro não corre, ele sangra, transformando cada lembrança num peso morto que eu insisto em carregar como se fosse um troféu ou uma condenação.
No fim, sobra apenas esse corpo que é um mapa de lugares onde ninguém mais quer morar, e a triste certeza de que a solidão é a única coisa que nunca me deixou pela metade.

Atravessando o rio gélido de um destino não tão bonito, em uma velha jangada, anunciando sua trajetória lenta, pesada, tocando um sino enferrujado, com seu som abafado, como se estivesse submerso, sendo afogado, feita de almas atormentadas, cheias de dor, pelo fundo pedregoso, margens lamassentas e ao horizonte, não existem margens, o rio não se finda e o céu, baixo e cinzento, curva-se como um teto prestes a ruir, comprimindo o ar nos pulmões já cansados, a corrente não conduz, apenas arrasta, e cada braçada é um adeus ao que ficou para trás, enquanto a jangada range, como se soubesse que não há porto, não há farol, não há terra firme, apenas o curso interminável dessa água fria que não acolhe, não absolve, não esquece. E assim sigo, não por esperança, mas por não haver retorno, deixando que o sino continue seu lamento mudo, até que o próprio som se dissolva na névoa, e eu me torne parte do rio que jamais termina.

Sou o adulto que tenta ser o abrigo para o menino que ainda chora em mim, esperando por uma justiça que o tempo não traz.

Sinto saudades de uma versão minha que talvez nem tenha existido, apenas a ideia de quem eu poderia ser antes de tudo.

A música de Sergei Rachmaninoff não é apenas ouvida, é sofrida em cada terminação nervosa, uma arquitetura de dor e glória onde os concertos para piano se erguem como catedrais de um romantismo tardio e visceral. Há uma beleza quase insuportável na forma como suas notas fortes golpeiam o silêncio, não por violência, mas por uma necessidade urgente de existir, enquanto as mãos gigantescas do mestre costuram harmonias complexas que parecem traduzir o peso de uma Rússia eterna e nostálgica. É um mergulho em águas profundas e gélidas, onde a melancolia se transfigura em virtuosismo, revelando que, por trás de cada acorde denso e cada fraseado melódico que se arrasta como um suspiro de despedida, habita a alma de um homem que transformou o próprio exílio interno em uma das linguagens mais sublimes e devastadoras que o mundo já ousou escutar.

Minha alma tem a textura de uma casa abandonada, onde o vento sopra entre as frestas de memórias que eu deveria ter enterrado.

Viver nesse estado não é uma escolha estética, é a única forma de habitar um corpo que já não reconhece o sol como uma promessa.

Existe uma beleza aterrorizante em ser um náufrago no próprio quarto, vendo as paredes se transformarem em maré enquanto as memórias flutuam como destroços. Não peço por terra firme, peço apenas que a água não apague a tinta com que descrevo o abismo.