Se ela quer Voar a porque tem Asas
Porque a vida não é feita só de alegrias ou coisas boas, mas são elas que fazem a gente enfrentar o que for, questionar verdades absolutas e decidir ir em frente naquilo que acreditamos.
Insônia
Silenciosa vem a noite
E no vazio das horas
Tua presença se impõe
Porque eu ainda sonho...
É tudo o que a noite me permite,
E ao contrário do tempo,
Eu tenho os meus limites...
E a noite silenciosa apenas diminui
O que eu pensava vasto,
Deturpa o que eu julgava casto,
E o que eu pensava edificado, rui...
A noite silenciosa habita em mim,
E quando chega a manhã,
A noite continua,
Sem lua, sem estrelas, sem luzes...
A noite sou eu,
Com todas as ausências, todas as ausências...
JOOAKINA E SERAFIM
O sol já brilha à pino
Porque ainda dormes Serafim?
Lembro-me de ti, madrugador,
Falavas em pegar o sol com a mão,
Hipérbole ou não, mas tinhas tudo sob controle...
Era bom ouvir teus passos e o som da tua voz
Entre as plantações de café...
Cantarolavas canções que embalavam nossos sonhos...
Vieram crises, mas eras incansável, forte,
voluntarioso...
Foram tempos de lutas, mas eras um guerreiro.
Agora o teu olhar longínquo, alem do que, não podemos ir,
Alem dos nossos limites,
Será a pressão, a labirintite?
Letícia telefonou, mas não mencionei a queda,
Pra que preocupá-la? Tiras de letra...
Esquece os meninos, nem meninos são mais...
Cresceram... se foram... também tenho saudades
Suas risadas, suas brincadeiras ao redor da casa
Enchia tudo de vida...
Foram tempos inesquecíveis.
Agora temos o rex, o golias, as galinhas...
Temos um ao outro, me prometeste seria pra sempre...
Queria te confessar algo que nunca te disse:
Sempre te amei
Sempre amei esse teu jeito ousado
Tinhas o olhar insistente, a mão quente...
Agora o teu olhar parado... atua mão... fria...
Acorda Serafim! Serafim!
Serafim! Serafim! Serafiiiiiimmm!!!
CRIANÇA
Enquanto eu não escrevo o verso
eu não me reinvento,
Porque ao contrario do que penso,
Eu sou sistemático e perverso,
Enquanto eu não escrevo
o poema eu não aconteço
Porque o silêncio e uma granada
Assim como a própria terra
espera o seu tempo pra explodir
Por isso antes de mais nada
me da teu seio
Como se eu fosse uma criança
Me da a esperança
De acreditar e prosseguir
Isso completa a minha estrofe
Depois eu ateio fogo em Roma
E ponho a culpa em Nero...
Porque tanto barulho
se dessa gente, o orgulho
morre ao passar das horas...
porque brindar assim um novo ano
se nos instigam ao raiar do dia
velhos enganos...
Acabou o show, todos já saíram; eu fiquei aqui no meu cantinho, melancólico pensando, porque não deu certo o amor? Porque não um final feliz como Janete Clair? Fiquei olhando os olhos rasos da platéia, conjecturando um final onde dissessem: “e foram felizes para sempre.” Um lanterninha se aproxima e pede que eu me retire. O teatro está silencioso; ouço apenas murmuro nos camarins, provavelmente atores e atrizes se descaracterizando. As luzes vão se apagando lentamente; o lanterninha está diante de mim, terno preto de designer anônimo como uma imposição, uma ameaça; o show acabou, a pipoca murchou, o refrigerante esfriou, vou saindo triste e decepcionado de um espaço arquitetônico com perfeita estética e funcionabilidade. Meu celular emite o som inconfundível das mensagens; abro ansioso e percebo; é julieta; leio com alívio e indescritível alegria: ”te amo, Romeu!”
AMENDOÍNS
Porque eles exibem seus sentimentos,
Seus ressentimentos, carregam sacas de cimento
Pra fazer poemas a todos os Pessoas,
Drummonds, Cecílias, Joõescabraisdemelosnetos,
Chicos, Pablos e outros
Metáforas, prosopopeias aos que nasceram na galiléia
E os que nem nasceram ainda,
Brunas, Clarices, Corascoralinas
Todos os carinhos e agruras da gramática
Que as vezes o certo soa errado
Mas olhem o lado bom, o lado da essência
Beijo pra mim mesmo, que penso que também sou
Beijo pro Cauby e pro Waldick
Que nem sabiam que eram poetas, mas eu os reputo,
E qualquer puto que medita num verso
Não pisem na gramática, matem-na ou ela te matará,
Gil gostei de Metáfora de Maracatu Atômico,
Mas além de tudo, tem o sangue da África nas tuas veias,
Beije as mulatas da Bahia, beije suas bundas,
Não tenho quinze anos, mas tenho Viagra...
À todos os poetas, amendoins
Porque tem tanta mulher carente, vamos fazer essa gente feliz...
Deixa eu te mostrar meu verso
Porque sou poeta
e toda lágrima ou sorriso eu escrevo
Deixa eu mostrar meu universo
Feitos de manhãs e madrugadas
As namoradas que eu pensei que tinha
Só me trouxeram desertos
As namoradas que eu jamais terei
De longe eu as amo
As namoradas sem amores são todas minhas
Quando perco uma destas namoradas
Pra alguém eu me alegro
Porque elas perderam um amor ausente
Mas terão paixão por perto
SAMBA ENREDO
Porque fico mudo
Às vezes me iludo
E sonho,
Componho o absurdo que sou
Barracão vazio com teto de zinco
Fantasias despidas em abstrações,
Um samba silente
Num ritmo dolente
Tocando em mil frustrações,
Vagalumes são os lumes das estrelas
Que entram pelas frestas do zinco,
O que sinto não presta,
O que presta não sinto,
Absinto me traz teu olhar,
Licor de tangerina a me embriagar...
Enredo a saudade às minhas mágoas
E tenho medo,
Meu samba enredo usa fraldas,
É uma criança, choraminga
Versos, estrofes e rimas
Sem nenhuma esperança,
Mas fala de amor
JOSEFA
Josefa matou o cachorro porque latia muito
Matou o gato porque miava
A galinha porque cacarejava,
Matou o avô de quem não gostava muito
A avó porque reclamou do suco
O tio porque era um vadio
A tia porque criava cutias
Josefa matou o vizinho porque não dava bom dia
Matou seu Mané no boteco
Porque botava boneco quando bebia
Josefa matou o carteiro porque não dava notícias
Josefa matou a enteada
Porque falava no ex-marido
O finado morreu de um pirão que comeu
Seu segundo marido comeu baião e nunca mais acordou
Seu último companheiro morreu de martelada
Desconfiado não queria comer nada...
Hoje Josefa paraplégica na cadeira de roda sob a sombra do oitizeiro
Rever todos os que partiram
Sabe que morreu faz tempo
Mas o tempo não quer saber de Josefa...
quero ver de novo teu sorriso
e acreditar que não sonhei
não quero perder meu juizo
só porque me apaixonei
o que penso que quero saber
é saber dessas coisas que nada sabem
porque florescem os cactos em meio a tantos espinhos
porque tulipas florescem tão próximo às urtigas
essas coisas que a gente pensa que nada sabem
e não sabemos que o sapo conquistou o universo
e ele nem quer saber como soletrar insetos
tem um jogo de língua, e se alimenta de asteróides
mas não quer saber...
saber como o peixe palhaço se caracterizou
mas imagina a sereia com aquela cauda
a fauna se apaixonou
e surgiram cavalos marinhos, peixes-bois
peixes leões, os bichos invadiram o fundo do mar...
mas quem quer saber disso
saber é o inverso do inverso do reverso da ignorância
saber saber é ignorar a ignorância...
a serpente rasteja, é cega e no paraíso enganou Adão e Eva
então se descobriram despidos...
sem saber que aquilo era paixão
mas o que eu penso que quero saber
é saber exatamente o que não quero
NORMA X MARILYN
Nada me fará entender porque
Possivelmente, provavelmente
Antes que se faça breve e claro,
Tênue e frágil, soluçará angustiado
A frustração inoportuna
De estar explícita a solidão;
Mas não é bem assim,
Direi que a noite está em mim
E solitude é a atitude de querer achar-se só;
Mas não achar-se, como se chama
Esta chama morna,
Norma Jeane explicaria
A beleza de um desencanto
Com um sorriso encantador;
Nem é tão complicado se sábado é sábado
Segunda é sábado, Norma era segunda,
Marilyn domingo, o que era belo, era belo,
O que era lindo, era lindo
Mas no fundo do seu olhar
Algo inquisitivo questionaria:
"Que dia é amanhã?"
ROMANCE DA PEDRA
Se não tivesse a solidez da solidão
porque do solo a aridez lhe fez a ilusão
e derramar-se assim num lago
enfim que algo afim lhe fez lágrima,
pedra de perde-se entre entulho
e que orgulho de obstaculizar caminhos,
nenhum carinho a lhe arremessar às valas
mãos embrutecidas sem noção
exata de viagens no espaço
o que teremos sidos em não topa-las,
em não pisá-las em não percebê-las
jamais saberemos que um dia foram estrelas
Nem nesse mar de olhar
Porque olhar assim é tomar posse
Mas esta solidão me arrebanha o medo,
E nesse tomar, como se fosse paixão;
Porque olhar assim é invasão
E todo meu quintal é só segredo;
Então tudo o que vês não sou eu,
Eu sou tudo o que não vês;
Podes imaginar?
Desde que te conheci, fiquei fascinada. É difícil explicar, porque não se trata apenas da tua aparência — embora eu precise admitir: existe algo quase hipnótico em você. Cada detalhe seu parece milimetricamente perfeito, como se tivesse sido desenhado com uma precisão absurda. E eu, que já te desenhei algumas vezes, posso dizer com certeza que foi um privilégio ter a chance de observar cada detalhe do seu rosto, conhecer teus traços, teus contornos, a nuance da sua expressão.
Se eu soubesse desenhar corpos, seria outra honra. Não por vaidade, mas pelo desejo sincero de prestar atenção a cada parte sua, como quem contempla uma obra-prima moldada com cuidado e reverência.
É claro que falo disso com um olhar artístico, como qualquer artista faria. Sem sombra de dúvidas, todos nós nos regozijamos ao nos deparar com algo tão visivelmente belo.
Mas o que mais me toca em você vai além da estética. Existe um tipo de beleza que não é só física — é uma imensidão que transcende o que os olhos veem e atinge algo muito mais profundo. E você carrega isso. É encantador como a magnitude da sua aura transborda e invade o ambiente, deixando tudo mais agradável e interessante.
Você é como um livro, cheio de conteúdo, e olhando pela capa, tem um mistério que provoca em qualquer um uma vontade absurda de lê-lo, descobrir mais.
Às vezes, a gente se encontra em um daqueles momentos raros onde o tempo desacelera e a conversa flui, sincera, leve, profunda. E eu aprendo tanto com você. É incrível como, quando paramos pra trocar ideia, a gente realmente se encontra ali, num instante que parece fazer sentido. Não tem superficialidade.
Você desperta em mim uma admiração singular, daquelas que não se pede, não se provoca — simplesmente acontece. E um dia, quero ser pelo menos metade do que você é, se puder absorver só uma fração dessa força que você carrega, já vou me sentir mais inteira.
Continua vivendo tudo com essa intensidade absurda, essa luz que te faz ser quem é, e não deixa que nada nem ninguém apague esse fulgor. Que a vida te leve longe, mas que sempre sobre tempo pra gente treinar junto, conversar mais, e ter esses momentos que, sem a gente perceber, viram memória boa.
Audaciosamente,
de: Ananda
para: Minha musa inspiradora (MN)
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