Saudades Cecilia Meireles
TUDO E TODOS
Das rosas o almejar do perfume,
Nunca o contar e o ofender dos espinhos...
Até o sangrar dos dedos.
Do amor, o desfrutar do gozo,
Porém, o descuido das dores
E a racionalidade dos fatos.
Das paixões, quer-se a eternidade,
Não se pondera as loucuras
E a insanidade nas emoções.
Nas palavras suaves
Instiga-se verdades...
Na agressividade instiga-se as mentiras.
Viva enganado!
Aprendi ponderar tudo!
Esperar tudo de todos
E de todos de um tudo!
PASSAGEM RÁPIDA
Hoje sou gente
Amanhã madeira vernizada
Depois terra gramada
Pó e poeira...
Na força dos atos, que marca
Serei história...
Na sorte boa lembrança.
- INVISÍVEIS NO MUNDO
Tanta gente sem cor.
Sem pele, sem osso;
Sem dor, sem um doutor...
Que cabisbaixa cambaleia pelas ruas!
Transparente aos olhos do mundo.
Tanta gente sem alma.
Sem valor, sem nada no bolso;
Perambula por ai...
Invisível aos olhos de quem pode...
Tem tanta gente da gente,
Sem voz, porém, que grita.
Sem palavras, porém, se expressa...
Translúcida, que discursa na praça.
Tanta gente que pede,
Estende as mãos, clamando:
Sem pão pro dia;
Sem beber, sem o vinho;
Com fome e sede...
E gente como a gente, que não se ver.
Tanta gente como a gente.
Sem nome e sem número;
Sem conta e sem dinheiro...
Sem teto, dorme ao relento;
Sem chinelos, anda de pé no chão;
Cabisbaixa anda pelas ruas...
Invisível, mas é noticia todos os dias...
Notícia que não se quer ler
Que não se quer saber
Que não se quer ver
Notícias ruins...
Tristeza!
TACOS E NACOS DA GENTE
Ninguém é tão incapaz,
Que não tenha alguém pior em seu tempo;
Como também, ninguém é tão bom,
Que não se encontre alguém melhor!
Tem-se de tempos em tempos
Pedaços, nacos e tacos aproveitados.
Outrora, os mesmos são descartados.
Ninguém é perfeito...
Ninguém tem tantos defeitos
Humanos... Se é humano!
TRAÇOS E RISCOS
Tudo que eu faço é uma obra única:
Ainda que os traços sejam imitações;
Que sejam os riscos curvos,
As linhas tortas,
Ainda que sejam os rabiscos, rascunhos!
Que sejam manchas, figuras
E sombras ...
São obras!
Traços, riscos e rabiscos...
São meus...
O FIM DO CAMINHO
Conheço o fim do caminho.
Percebi que atalhos não existem...
E se existem, não valem a pena trilha-los.
Que se vá devagar,
Que se corra para chegar...
O tempo não conta.
Tudo tem o seu tempo.
Nada do que ajunto posso levar.
Apesar de não ver nada nas mãos
Sinto as mãos cheias...
Mãos Cansadas!
Que sorte, a minha!
Aprendi esperar e amar o fim...
Como o melhor dia da vida.
Nada mais faço por mim.
Já conheço o fim do caminho.
Nada posso levar...
Nada deixo, porém, pra onde vou,
Não posso levar!
Fim do caminho, sem encruzilhada,
Sem placa
Nada...
CALADO
Faço...
E fico calado;
Pouco ganho publicando.
Espio...
Reparo as reações;
Pedem-me mais.
Silencioso...
Calculo se crio miseráveis:
Gente de pernas, braços e olhos...
Descansados do nada...
O que fazem por mim?
Não esqueço nunca!
Mas, deixo pra lá...
O que aos outros faço, embaraços há no jeito!
Se não perco os dedos,
Vão-se os anéis.
- SOBREVIVÊNCIA
Sofre-se para sobreviver?
Não sei o sentido da vida;
Se vivo sobrevivendo, em vida já estou aos poucos morrendo.
Vive-se pra o prazer?
Evito o sofrimento, porém, ainda não aprendi viver.
A vida é pra ser vivida...
Viver intensamente cada momento.
Que seja no prazer, no sofrer...
Viver é respirar o ar pausadamente;
É sempre amar, ainda que seja no limite das forças;
É entregar-se na esperança do dia seguinte...
Inspirar um dia melhor!
VIVENDO E APRENDENDO
Há aqueles que aprendem,
E também, aqueles que apenas ficam sabendo;
Não assimilam os significados das coisas;
Não agregam à vida os princípios de existir.
Conhecimento não é sabedoria,
Experiência não é garantia;
Sucesso não é eternidade.
Viver é perdurar aprendizado.
Há aqueles que só conseguem enxergar um lado da vida:
O seu lado...
Seu mundo é casca de ovo...
O seu Universo é pequeno.
Há aqueles que ferem:
Alimentam-se das dores,
Zombam das cicatrizes,
E com ossos dos outros fazem obras de artes.
Enaltecem-se sem culpa, insensíveis!
Há aqueles que têm as suas almas vazias.
E nunca aprendem valores...
Invalidam os sentidos das cores,
Fazem de suas razões, verdades absolutas.
A vida e curta!
Viver bem, é conquistar a honra!
É escrever história...
É deixar legado!
- EM OUTRO PARAÍSO
Ser pensador, é ir contra o mundo.
Discordar é direito, ter uma opinião
é ser livre:
Nem sempre é dizer que tudo é perfeito,
Nem é dizer que alguém deve ter encontrado o paraíso.
Ou um outro jardim no Éden,
Onde Adão, Eva e a Serpente nunca estiveram...
Todo canto, tem seus recantos...
Gente sem discernimento, insensata...
Todo canto tem desencantos, que espantam.
Lugar perfeito? Ali, acolá..?
Paraíso aqui?
No mundo dos homens?
Aonde?
Onde mora gente..?
Sossega a mente...
Descansa, espera a sua hora!
SUPOSIÇÕES
Nem sempre a estrada que estas é o teu caminho;
Nem sempre o teto que te abrigas é a tua casa.
Nem sempre o que te beija, é amigo;
Nem sempre o que te abraça apertado, te deseja.
Nem sempre o que te recebe, te quer por perto;
Nem sempre quem te ama, te abraça e beija.
Nem sempre quem te chama de amor, te ama;
Nem sempre quem quer estar contigo, respeita teus direitos.
Nem sempre o que promete, tem para dar o que prometeu;
Nem sempre o se diz, é a verdade que se quer dizer.
Nem sempre se sabe o que é verdade dos outros,
E o que é mentira da vida de alguém.
Há aqueles que nunca arrependem-se dos seus erros.
Nem sempre o desejo é a vontade que se quer viver,
O desejo passa, porém a vontade só se satisfaz depois de suprida.
Nem sempre no céu se vê estrelas,
Porém, o céu sempre estar estrelado.
Nem sempre os personagens são os mesmos,
Porém, repetem-se sempre as histórias.
Nem sempre o que se escreve aconteceu,
Porém, para o leitor é fato.
Nem sempre o que se aprende, a lógica,
É a regra que serve para todos,
Pois, somos todos diferentes.
Nem sempre os costumes de uma época, são costumes de todos.
Nem sempre a sabedoria de ontem, vale para hoje;
Nem sempre a experiência vale a pena, por ser negativa.
Nem sempre o conhecimento, tem valia sem a experiência.
Nem sempre o conhecimento e a experiência funcionam
Nas causas, sem o discernimento.
Nem sempre viver é fácil, nem sempre a vida é difícil,
Porém, é preciso que viva o momento.
Pois tudo sucede a todos...
CONTAR OS DIAS
Se conto os dias, eles passam devagar;
Se não os contos, perco-me nos atos,
Não percebo os fatos...
Dormi no ponto.
Se olhar para o tempo,
Tropeço nas pedras pelo caminho.
O perigo não reside no tempo,
Não está nas pedras...
A maldade não está nas horas que passam,
A ruína não habita nas estrada que passo...
Mas nas pessoas insanas, estão todas as coisas podres.
Não pensam para o bem...
Vale tudo...
DONOS DA VERDADE
Que sejam todos santos,
Que sejam corretos em seus atos,
Que sejam donos de suas verdades...
E defendam suas versões.
Que sejam obstinados,
Que sejam humanos evoluídos...
Talvez possuídos;
Eu quero ficar no meu canto,
Ser o dono das minhas culpas...
Quero ponderar as minhas lágrimas.
Render-me à minha consciência;
Viver a realidade do dia...
Alimentar nostalgia...
Quero ser o dono apenas de mim;
E às vezes, esconder-me do mundo.
CHEIO DE MIM MESMO
Quanto mais evidência quero,
Mais vazio sou e fico.
Quanto mais busco salvar o mundo,
Perco-me, engano-me!
Reencontro-me ao amar o meu próximo,
Mais próximo... Quem?
O mundo é feito de vácuos.
Espaços proibidos, esquecidos;
Negociados, só então permitidos,
Que se tornam buracos negros.
Que as vezes nos engolem.
Se é feito de gestos, dos jeitos.
Das emoções que se carrega;
Das coisas que nos constroem.
Daquelas que vivemos todos os dias...
Das geridas, das engolidas ou remoídas...
Das meias verdades,
Das mentiras acreditadas,
Das verdades omitidas;
Das conquistas e das perdas.
É isso...isto é a vida!
MEUS CHOROS
Chorei, muitos foram os motivos;
Calei-me, quando não encontrei mais razão para chorar;
Chorar, sorrir...
Sempre vivi, o jeito de ser.
Tenho meu próprio jeito de viver.
Amar, sonhar...
Correr contra o tempo,
Um tempo curto
Para quem está feliz...
Ser feliz e viver, não se diz: Vive-se!
DESARMADO
Desarmei-me de tudo que pensava ser,
que não sou...
Atinei para as coisas que penso em ser.
Parece confuso?
A certeza de pensar que sou o que não sou,
Priva-me de lutar pelo que desejo ser.
Detesto enganar-me!
Ainda confuso?
é que acerta-se em tudo, quando,
Se aceita ser apenas o que se é...
A certeza de se ser um ser humano,
Eleva-me no que realmente sou!
Prefiro estar desarmado..
E não enganado.
RASCUNHOS DAS COISAS
Pode se fazer rascunhos dos almejados jardins;
Das mais altas torres, as mais imponentes;
Dos livros de contos de fadas.
Dos gibis de super – heróis, dos favoritos;
Das novelas, das tramas e dramas.
Pode se fazer rascunhos das poesias;
Dos poemas, das estrofes e versos;
Das lindas canções e dos ritmos.
Pode se fazer rascunhos de muitas coisas...
Eu quero continuar a rascunhar,
Rascunhar as histórias de gente;
Das coisas, dos jeitos e defeitos...
Desde que sejam histórias de amor,
De finais felizes.
- RASCUNHOS DE GENTE
Quero poder fazer rascunho de muita gente:
De gente inteligente que converso;
Da criança com uma boa infância;
De adolescentes e suas descobertas
E da juventude e suas aventuras.
Quero poder rascunhar a maturidade:
Em seus dias vividos com sabedoria.
Quero poder rascunhar gente de bons corações:
Dos primos levados e dos engraçados;
Dos melhores amigos, em dias festivos!
Dos bons vizinhos, dos contínuos favores;
Dos pensadores, dos discursos, das poesias...
Se pudesse faria mil e um rascunhos de gente..
Rascunhos de gente feliz!
- RASCUNHOS DO TEMPO
Se eu pudesse faria o rascunho do futuro,
Como desejei muito hoje,
Ter o rascunho dos bons momentos de ontem.
Só não queria rascunhar, e sim mudar
Algumas coisas do passado...
Entristeço-me porque não posso ter o
Rascunho do tempo e de seus feitos abruptos.
Se eu pudesse os bons tempos nunca passariam;
Reprisaria - os de tempos em tempos...
Pois, são eles que trazem a felicidade!
Se eu pudesse rascunharia o tempo.
Por ser ele o juiz implacável das causas:
O tempo cura feridas da alma;
O tempo muda as pessoas;
O tempo traz à memória os favores;
O tempo ameniza as dores
E corrige as histórias contadas erradas.
RASCUNHOS DAS COISAS QUE NÃO VOLTAM
Se eu pudesse faria rascunho da trajetória do vento;
Das mil e uma gotas das chuvas;
Das águas que passam na roda de um moinho;
Das tempestades repentinas, dos sons e dos medos!
Das oportunidades perdidas, depois choradas;
Da flecha lançada a longa distância que foi perdida;
Da pluma lançada ao vento que se perdeu de vista;
E das palavras de bênçãos dos pais nas despedidas!
Se eu pudesse faria rascunho do primeiro choro nos nas-cimentos;
Das primeiras e últimas lágrimas das pessoas amadas;
Dos primeiros e últimos abraços dos entes queridos;
Das primeiras e últimas palavras de um grande amigo
E do primeiro e o último dia de vida
de cada bom ser humano!
É uma pena não pode fazer rascunhos
das coisas que passam e que jamais voltam.
Sem os rascunhos, fico com as lágrimas de saudades!
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