Saber Cuidar - Leonardo Boff
Estranho, só isso. É que antes nós conversávamos por horas, você compartilhava cada pequeno detalhe do seu dia comigo, por mais irrelevante que ele fosse e eu te fazia rir, confiei em você pra te contar coisas que não disse nem a mim mesmo. E agora eu fico surpreso quando você me dá um “oi”.
Comente que eu fui — e como fui — idiota, conte à todos que só te fiz mal, só não diga que não valeu a pena.
E não é como se eu não pudesse viver sem você. Eu posso, e perfeitamente bem. Posso fazer minhas coisas, rir com os amigos, zanzar por aí, beber umas ou outras, beijar dezenas de bocas, talvez me apaixonar… Seguir a vida normalmente. Eu vivi feliz esse tempo todo antes de conhecer você, e vou continuar vivendo da mesma forma depois que você sair da minha vida. Normal, sabe? E é extremamente bobo que eu continue querendo rir com você e de você, andar com você por aqui, ter você regulando minhas bebedeiras, beijar a sua boca, continuar me apaixonando por você todos os dias, mesmo tendo outras opções mais fáceis… Anormal, né?
E eu, mesmo não falando nada, mesmo sem demonstrar qualquer coisa, mesmo escondendo praticamente tudo, ainda sinto muito mais coisa do que você que adora dramatizar, escrever e falar sobre tudo.
E quando você se isola do mundo, se afasta demais, não responde quando é procurado, não procura por livre e espontânea vontade, não dá sinal de vida e nem demonstra que isso faz alguma diferença… Também não pode culpar os outros por eles pararem de sentir sua falta ou cobrar qualquer coisa.
Claro, não tem problema você me ignorar. Nenhum. Também não tem problema você falar facilmente com tudo quanto é estranho, mas não comigo, que te conheço como a palma da minha mão. Afinal, pra quê servem os amigos, se não pra isso? Se tem algo errado você me deixar pra trás — não é nem de lado — quando eu mais precisava das tuas palavras e os teus cuidados? Nope. Mas, então, vem cá… Tu vai achar algum problema em eu parar de sentir tua falta?
Tenta multiplicar zero. Por um, quinhentos, um milhão. Qualquer número. Vai ser sempre, sempre zero. Nada. Isso somos eu e você. Por mais que eu bote as minhas últimas esperanças, meus sonhos e palavras mais bonitas em ti… Isso não muda nada.
Hoje em dia, se tu quer ser diferente, é só permanecer normal. Porque tá todo mundo tão preocupado em ter originalidade, não parecer com os outros e se sobressair, que acabam todos ficando exatamente iguais e sem graça.
Infelizmente a gente pra abrir os olhos, necessitamos por vezes fechar o coração, pois só assim enxergaremos as situações com clareza.
Ela é perfeita... É sim, eu acho!
É tudo aquilo que sempre quis e desejei. Seu senso de humor me faz pular carneirinhos em plena luz do dia.
Fico eufórico, completamente bobo.
Na boa, ela é demais.
Tá, sei que exagerei um pouco. É que essa “tonta” me deixa assim. Perco a noção de raciocínio e fico só elogiando-a.
Que coisa!
Estou em suas mãos, em seus pés, braços... Sei lá, sou dela... Hoje, amanhã, ou na porcaria do dia e do ano que for.
Aliás, ela foi esperta. Lógico que irá murmurar e salientar que não. Mas cai entre nós...
“Cê ganhou um presentão hein garota”?
Tirou-me de minha mãe e nem se quer agradeceu... Sem embrulho, sem laço e muito bem educado. Um tremendo Chefe de Cozinha. Especialista em saladas sem tempero, arroz insonso e café fraco.
É... prontinho... Não precisou nem gastar dinheiro com pilha ou bateria.
Tá vai, sei que tenho defeitos. E não adianta ficar escondida com esse sorriso bobo e com esse olhar sacana.
Quer que eu diga né?
Então tá, vai zombando...
Vou contar pra vocês...
Ela vive reclamando. Deve achar que sou um robô ou um “Power Ranger”... Salienta que vim com defeito de fábrica. Sem aquela porcaria de “botão de liga e desliga”.
Veja só, viram como sofro né?
E além de tudo tenho que ficar aturando essa “bobona”, zombando, “tirando uma palhinha da minha cara de besta”.
Ah, querem realmente saber o que penso sobre ela?
Então tá, senta aí, vou lhe dizer.
Nossa casa vive bagunçada, de “pernas pro ar”. Eu tento arrumar ( Tá... é ela quem arruma tudo, haha), porém cinco minutinhos pós-brilho, coberta dobrada e roupas arrumadas, tudo vira uma “zona” que “cê” nem imagina. Uma tremenda loucura. Divertimo-nos feitos loucos ( os vizinhos não aguentam mais, pobre sindico, passa por apuros conosco. Um beijo seu João! ).
Ah, ela vive derretendo chocolate. Até hoje não entendi direito o motivo. Sempre pensei que fosse por causa da TPM, mas não é não. Deve estar querendo virar uma bola charmosa e elegante só pra desfilar nesse tal evento de moda famoso; São Paulo Fashion Week, deve ser isso, sei lá. Porém, sou eu sempre quem “pago o pato”. Fico com o rosto todo “melecado” com esse açúcar nojento e ainda tenho que esfregar a panela que ela faz questão de deixar suja na pia e com o chocolate derretido seco... Ó CÉUS, eu mereço!
Se eu amo ela?
Eu até queria responder, mas não vou não.
Preciso ir...
Preparei algo especial.
Não conta pra ninguém tá?
É hoje...
Vou pedir essa doida em casamento.
(Eí, garçom... prepara a mesa, as velas e o pianista. “Tô chegando, sô!”).
Psiu, depois te conto tudo... Não saia daí...
O vento
Que da brisa que toca leve o rosto
Que das lembranças que surge o recordar
Que do imperceptível tudo se percebe
Que do singelo aflora sentimentos
Do elemento que traga sempre
A sutileza do seu tocar
ser tolo faz parte da vida uma hora a vida te muda e você que sorria chora você aprende as verdades da vida
