Ruth Rocha Amor

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EU TE DIRIA

- Mira os teus ouvidos nos martelos
E suas toscas investidas na bigorna.
Olha nos passarinhos distantes
Aqueles que cantam soltos.
E nos tristes, os que se chamam encantados,
Que dedilham a lira e as estrelas, dançam.
Tudo isso é mudo e surdo
Mas perceptíveis à alma quieta
- Olhas no verde mais intenso, porões da mata.
Dos vales que eu nunca vou pisar.
E saberá de minhas vontades
Aquelas mais desertas, além, além
As que eu quero tirar da minha visão
Que só farei quando aprender a voar.

Mirava o retrato que me fala
Nas vezes que o procuro na gaveta da saudade.
É mesmo um castigo,
E condenado fui, já, tantas vezes.

Relia um poema de Fernando Pessoa
Que ele construiu, perdido dentro das pessoas.
As venturas da lua e o que a gente escuta
Quando era Jesus Cristo falando
A voz que a gente decifra quando quer.
Segredava baixo em seu ouvido,
E se me acordasse
Me elevaria ao seu guardião.
Mas a palavra lembrada em tempo
Eu me obrigaria a falar.
Falava do velho camponês,
Que guarda zeloso seu rebanho,
E veio o vento tão impetuoso
E não arrastou nem um do seu ganho.
Citava a contravenção do tempo
Levando escondido em seus bornais
Amores que a gente pensa uma vida
Encontrar, amar, pra depois separar.

Inserida por naenorocha

TENTANDO

Foi assim
Quem me chamou foi você
Do fundo da minha vontade
Eu não podia enxergar
Que amor não é por bondade
Mas eu errei em te dar
Entre beijos e cuidados
Cuidando de me querer.

E, então
Não olhar mas eu vi
Tinha esquecido os teus olhos
Andando na mesma estrada
E àquela hora ainda estava
Esperando por você
Tua falta me apertava
Eu não mais queria ser nada.

Ai
Eu me larguei pelo mundo
Um homem bom, que no fundo
Me apontava o nariz
Quando me vi eu já estava
Andando morta a saudade.
E armado noutra cidade
O circo me faz feliz.

Daí, então
Procurei não notar mais você
Nossa amizade perdida
Achava que você nunca me quis
E lá pro fim pude entender
Só fingia não lhe vê
Pensando sorrir poder
Vendo na vida um brinquedo.

Inserida por naenorocha

SIMPLES

Eu não construo poesia
Como quem faz uma casa de praia
Ela se arma onde bem quis.
Na aparência como se vê no espelho.
Esqueci-me das palmeiras de babaçu
Postas na área de entrada
Fazendo um caminho
Que por airoso fica na areia.
Nunca premeditei uma poesia
Como quem virtualisa um amor alado
Desengonçado e trabalhoso.
Como o que sentiu fazer
A primeira maravilha do mundo.
Nunca imaginei a poesia
Como quem idealiza um amor
Não amo as poesias que faço.
Antes, às vezes as odeio e rejeito.
Elas me consomem tudo, o tempo,
Toda afeição de que tenho, traço.
As poesias que têm saído
De meus inventos,
Das rimas que persigo, imerso
Vem do universo.
Vem como chuva
Vem como anjos que voam ao léu.

Inserida por naenorocha

TEMPO DE PAZ

É necessário que se lembre de tudo
A todo tempo tudo seja lembrado,
O levante das mãos, o último abraço,
O primeiro sorriso aberto no mundo.
É preciso de nada se esquecer,
De se trancar a casa quando vai sair,
De se abrir a porta quando é para entrar,
Da rosa pesada que entortou o galho.
É imprescindível a todo momento se estar atento
Não só aos perigos que vazam dos jornais,
Nem às reticências que alguém tem
À tua pessoa e a outras,
Não aos espinhos que protegem flores,
Permanecer vigilante ao amor deserto,
O que necessita, a lágrima certa,
Aos necessitados também do teu amor,
Do amor que ferve, do que se aquieta
No fundo, acomodado.
Os necessitados, os fugitivos de seus amores,
Perseguidos ainda, e ainda com dores,
Dos malefícios de outrem, o infortúnio da diferença,
Que há olhos que vêem....
É preciso estar atento aos teus,
Que pra tudo há tempo, amor e lugar,
De repor o mundo, a dor, de procriar,
De estreitar-se a cama com um só cobertor,
Esses cuidados todos que Deus nos delegou.
Se fores infértil, que não seja de amor,
Pois não fará falta um filho
Que poderão ser teus outros estéreis de pais,
É preciso estar atento, o tempo é de paz.

Inserida por naenorocha

PALMA DA MÃO

Eu não conheço a palma da minha mão.
Entre tantos cruzados de linhas,
E mais de um veio principal
Onde descambam as águas dos meus dias.
Não tenho noção do que seja a palma da minha mão,
Reconheço, e já é volumoso
As coisas que toco, a embaralhar meu destino.

Reconheço, quando a espalmo frente aos olhos,
Alguns poros suados, o anel centenário,
A cor, que coincide com a cor do meu corpo inteiro.
Na aventura a que me lancei,
Em me procurar e me achar,
Em algumas partes de mim deu pra ver
Outras nem que eu virasse o mundo o contrário
Daria para medir, saber, esboçar.

Alguém, como eu, desconhece, numa vista frontal
O seu crânio, seu cabelo, tal como são?
E conhece seus buracos
- só na cabeça contam-se sete-
Afora os outros por onde se mete
Nosso temor, dizer explorar.
E os seus encontros de mãos e pernas,
Como uma árvore, quem conhece?
O por trás todo, ninguém sabe o que é.
Sabemos dos outros, também minúcias,
Nada de definido se sabe
O que conhecemos de nós mesmos
Também os outros conhecem,
E somos mais conhecidos por eles,
Do que por nós, da mesma forma inversa.
Se por fora de nós pouco sabemos,
Imagine um devaneio por dentro.

Inserida por naenorocha

Sabe como é, néh? As coisas vem e vão, mas nada é em vão.

Inserida por nilypopy

TE ESPERO

Te espero desde o início do começo
Desde o tempo dos lampiões de gás
Desde o primeiro samba, a estação derradeira;
Fostes sempre o meu amor tristonho e sensato
Por ti me embati com a vida
Matei mitos intransponíveis
E fiz de pedras quentes flores orvalhadas.

A terra tocou o céu
Com a grande cauda de fogo
Mares se juntaram pra te refletirem inteira
No começo do nosso fictício amor.
Dura e sublime criatura
És o modelo renascido
Das tantas mulheres invisíveis
E ao mesmo tempo, mansa e de carícias
Nosso amor corre para uma luta
Ao toque de valsas muito antigas
A abertura do sol será a nossa estrada
Desvanecidos de paixão

Inserida por naenorocha

NINGUÉM

Quero ser ninguém no aprendizado
Da vida que começa com o meu choro
Quero passar alheio aos olhares
Também não quero ouvir comentários
Sobre quem olha pra outros lados incisivos
Desejo não sejam sobre mim aquele embuste
E meus olhos se aproximam da frente
Incontestável lugar que causei
E minha cara, falhos dos meus olhos
Marcam cortes profundos como veios
E me tornam o olhar pequeno e rude.

Inserida por naenorocha

OS MEUS PROVEITOS

Eu amo tudo o que fiz
Porque eles me apontam agora
E sabem do meu nome
E se compõem de um tanto de mim.

Eu amo o que não fiz
Porque eles me apontam o jeito da feitura
E minha cabeça racha-se em pensar
Será mais bonito, terei mais sabido
E tudo o que eu fiz
Para me felicitar ainda mais
Se deram às pessoas do mundo
E muitos delas falam de mim
E sabem do meu nome.

Tudo o que eu ainda não fiz
Agora está pra ser feito
E eu já tenho os modelos
Um depósito cheio de manequins provadores
E o que eu vou fazendo
Vou sabendo em que cabeça caberá
Como uma coroa encomendada.

Inserida por naenorocha

ACONTECE

Chamaram pelo meu nome e eu atendi
Mas não havia ninguém daquela voz
Não encontrei ninguém na sala
Enganei-me pensando: vem da rua
Só que era domingo o dia triste
Quando as pessoas dormem
Umas por sobre as outras
No conforto e na preguiça próprias do dia.
Ninguém bateu à porta e quis entrar
Sentado à minha frente
Discutimos futebol
Falamos de poesias.

Posto o espelho no meu quarto
Fui ver o meu rosto, meu aspecto
E ninguém ocupara o espelho
Especioso retocava os meus sinais.

Inserida por naenorocha

“Amigo é aquela pessoa que deixa o que traz na mão a largar tudo no chão, só para te abordar com um abraço enfalço”.

Inserida por naenorocha

“O homem no andar da vida não tem nenhum dilema, é ciente que vai”

Inserida por naenorocha

“ Todos nós temos nosso caminho que é o caminho de todos nós ”

Inserida por naenorocha

" Na noite somos capazes de ver quais os caminhos menos assombrosos"

Inserida por naenorocha

“O homem incompleto
É o que deve ser o mais feliz.
Ele tem o que buscar
Com o que se ocupar
Procurar a matéria
De que se faz o humano
É história para cinema cibernético.”

Inserida por naenorocha

" O primeiro oratório de Jesus Cristo foi o ventre de Maria Santíssima "

Inserida por naenorocha

" A vida é perpetuada no pecado e no perdão ".

Inserida por naenorocha

“Me citaram o conceito da vida e me falaram de suas matérias e do seu destino. Ai eu perdi o encantamento que tinha por ela.”

Inserida por naenorocha

DEUS

Deus o ser invisível que se põe entre nós e os nossos olhos
Uma nascente borbulhante que levanta a areia da profundidade
Um silêncio que se ouve com a quietude do coração
Olhos atentos que nos conta um a um na escuridão
Que a todos se revela pela bonificação de acréscimo do seu amor
Um rebento que chora ao ver-Se sair de suas próprias entranhas
E que em nós se acomoda calmamente,
Dos mesmos hábitos os quais já fazemos costumeiros.
Deus que se perpetua a cada momento, desses momentos começos,
E que não se finda, mas que se renova todos os dias, nas manhãs
Que ele mesmo traz com o zelo por haver criado.
Deus que na sua magnitude, infinitude, criou um fim imprevisível,
Que a nenhum cabe conhecer. Só o começo, só o meio
Porque o fim, disto de Deus, foi criar-nos uma perfeita obra
Na complexidade de seres humanos. Amados pro Ele incondicional.
Deus, que viver não é morrer, mas consubstanciar-se Nele,
E de uma entrega, quase sempre dificultosa, por não sermos da sua mesma matéria.
Relutamos às vezes acreditar Nele
Que vemos, sem precisar dormir para sonhar.
Porque Deus
Não é sonho que se conte. E se alguém pensou assim.
Verdadeiramente O viu, e em vendo-O, voltou confuso
Da procura, que pode ser longa, demorada e curta.
Deus é ou deve ser assim:
Um presente que se abre todos dias e não se amontoa
Sobre nossa cama, porque a cada dia só temos um, o mesmo.
O Deus inigualável, o Deus inavaliável, o Deus que se dá mais.
Muito mais, distando consideravelmente, do que recebe de nós.

Inserida por naenorocha

PARA ELLIS

Naquela manhã
O sol banhou teu corpo impune
Só pra depois fugir de ti
E te levar pra longe
Sem revolver, e a nós
Deixar sem voz.
Naquela manhã
Eu pressenti o tempo escuro
Do litoral ao centro do Brasil
Eu acordei inquieto
Com aquela música me perseguindo perto.
E eu senti que era noite no meu coração
Eu senti que findava em ti a paixão.
Naquela manhã.

Inserida por naenorocha