Rosto Lindo
A noite mais longa revela o contorno verdadeiro do nosso rosto à luz das pequenas certezas que resistem.
Sorrio por economia de forças, para que o rosto não quebre. Por dentro, há um mercado de lembranças em liquidação: tudo pela metade. Compro apenas o necessário, memórias que me sustentem até o amanhã, e guardo o resto numa caixa que só abro quando a noite me desafia.
Quando lembro de rostos que se foram, sinto biblioteca. Cada rosto é livro que permanece em pé. Releio páginas e guardo citações vivas dentro do peito. A memória é editorial que não fecha jamais. E eu sou leitor fiel dessa editora íntima.
O mundo é um baile de máscaras onde eu cheguei com o rosto nu e agora todos se afastam, assustados com a honestidade da minha tristeza. Não nasci para o carnaval das aparências, prefiro a quarta-feira de cinzas, onde tudo é cinza, mas ao menos é real.
Quando a noite estava cheia
De temores e as lágrimas corriam
Pelo seu rosto e nossas mãos
Nao haviam se tocado
Eu senti, você me chamar tão profundamente como a lua e o mar
Cuidado...
Não confunda sorrisos com caráter; às vezes, por detrás de um rosto bonito, há um veneno guardado. Judas ainda está vivo!
Minhas lágrimas caíram,
mancharam meu rosto em silêncio,
como tinta da dor escrevendo histórias
que ninguém quis ler.
Helaine machado
A inveja não grita —
ela observa em silêncio.
Sorriso no rosto,
tempestade por dentro.
Ela não quer ser você…
quer tirar de você
o brilho que não consegue acender.
É um incômodo disfarçado,
uma admiração mal resolvida,
um desejo de ter
o que só nasce em quem é verdadeiro.
Mas quem carrega luz
não apaga por causa de sombra.
E quanto mais tentam diminuir,
mais evidente fica:
o problema nunca foi você —
foi a incapacidade do outro.
Helaine machado
Ela
O que me faz apaixonar por ti? Poderia
dizer que é teu rosto, teus traços, o corpo,
o cabelo, o sorriso... teus olhos, tua boca.
E não haveria quem contestasse. Mas
não. Não é isso que me faz apaixonar por
ti a cada novo sol. O desabrochar de uma
flor também lembra-nos de tua finitude.
Portanto, apaixono-me por mais. Por tua
liberdade. Não pelo teu rosto, mas pelas
tuas expressões. Não pelo teu corpo, mas
pela tua graça. Não pelo teu cabelo, mas
pelo carinho com que cuidas de cada
cacho. Não pelo teu sorriso, mas pelo teu
riso. Não pelos teus olhos, mas pela forma
como olhas. Não pela tua boca, mas pelas
tuas palavras. E assim responderia: recuso
me a apaixonar somente por ti. Apaixono
me pelo que transborda.
Deitado no divã de rosto para cima
Se apossava dele certa letargia
E chegava da rua um tal de alarido
Enorme e tristonho que vinha sorrindo
deitado no divã de rosto para cima
se apossava dele certa letargia
e chegava da rua um tal de alarido
enorme e tristonho que vinha sorrindo
e ouvia toda noite da sua janela
o batuque do samba lá na casa dela
e entre tantos chapéus via o seu vestido
dançando no salão como um anjo caído
Eli apaixonado por sambá ouvindo
e ele apaixonado por samba ouvindo
rodava no salão com seu vestido lindo
Eli apaixonado por sambá ouvindo
e ele apaixonado por samba ouvindo
dançava no salão com seu vedtido lindo
Elí apaixonado por sambá ouvindo
e ele apaixonado por samba ouvindo
girava no salão seu vestido lindo
A velhice é o primeiro encontro verdadeiro com o próprio rosto — não aquele que inventamos no espelho da juventude, mas o que sempre esteve ali, esperando. O envelhecimento é a mais cruel das terapias: obriga-nos a elaborar, enfim, a fantasia de nossa eternidade. O idoso não teme morrer — teme reconhecer que nunca nasceu completamente.
Cinco sorrisos
Você tem 5 sorrisos, uma sinfonia perfeita em um mesmo rosto, um mesmo corpo, uma mesma alma.
Sorri largamente com um brilho mágico no olhar, por um fato bobo.
Sorri, de canto de boca, ao escutar um elogio, em que está a agradecer, mas também a manter a humildade.
Sorri de um jeito meigo com o olhar, ao me ver e desejar um beijo meu.
Sorri, mostrando os dentes, quando me escuta falar coisas picantes ao teu ouvido. Como você fica lindo!
Por fim, sorri largo e depois retém a boca em um sorriso pequeno com semblante infantil, porque no fundo sabe que me tem.
@keylak.holanda
Hoje é meu aniversário, mas o espelho se recusou a me devolver meu rosto. Ele reteve meu antigo eu em suas profundezas, como a água retém um sino submerso. Recebi isso como misericórdia. Finalmente, uma superfície que me lisonjeia com semelhança. Ainda assim, algo pairava ali, pálido e inacabado, com a expressão de alguém cuja alma fora entregue ao mamífero errado. Cuja boca é algo ancestral que não dizia nada de forma bela. Um manual de instruções silencioso, pré-mãe, pré-boca, pré-maçã-com-uma-mordida. coreografia que herdei de estrelas que nunca assinaram NDAs, Deus vazou através de mim em pequenos lugares ilegais. o pulso. a garganta. o hematoma sob o pensamento. o café sussurrou você não é real e eu mordi a língua por estar tão convencido. o sangue chegou com seu seu pequeno argumento vermelho. Eu pretendia ascender hoje, mas a roupa suja tinha outros planos. Lá jazia ela, em seu parlamento úmido de versões inacabadas de mim mesma, todas as minhas vestes escuras votando unanimemente contra a transcendência. Dentro de mim, uma delicada engrenagem começou a reportar de Deus a Deus, a apresentar queixas ao divino: encarnação imprópria. sensação excessiva. proximidade demais. portas demais se abrindo para dentro. O céu considerou o caso não urgente. No mercado, uma criança olhou para mim e disse: "Você não é daqui". Não perguntei onde era "aqui". As crianças ainda se lembram dos guardas da fronteira do invisível. Eu estava entre os abacates e os biscoitos sem glúten, sentindo minha antiga tristeza alienígena tentar competir com os preços dos produtos orgânicos. A caixa examinou minha aura duas vezes, recusada por densidade insuficiente. Tentei rezar, mas a oração voltou. Então, curvei-me diante da torneira mais próxima e a chamei de Deus. Ela batizou meu pulso. Santa dos pequenos vazamentos. Padroeira das mulheres encontradas ajoelhadas diante de uma torneira comum, no limite de suas forças. O tempo volta a embriagar-se, cambaleando pelo meu celular, carregando as alucinações de ontem, apagando as velas antes mesmo de as acender. A cada aniversário, ele chega com um bolo numa mão e a lâmina oculta da contagem na outra.
Eu não fui convidado para o meu próprio devir. Isso me pareceu justo. Quem pode estar presente no exato momento em que a semente se divide e a escuridão se torna raiz? Quem pode permanecer presente enquanto o invisível se revela dentro do ser vivo? O algoritmo me confundiu com um anúncio. Cliquei em mim mesma sem querer e agora devo US$ 14,99 por mês por autoconhecimento premium. Ninguém me explicou o custo da consciência. Os termos eram confusos. O período de teste gratuito durou meus trinta anos. O botão de cancelamento estava escondido atrás de uma ferida da infância. E três posts patrocinados. Para regulação do sistema nervoso. Em algum lugar Uma versão paralela de mim está rindo tanto que cai da simulação antes de seu desejo se realizar. Que bom para ela. Vou apagar as velas dela também. Apagarei as velas para cada eu que enterrei sem cerimônia. Para aquela que aprendeu a sorrir com lobos nos lábios. Que entregou sua inocência ao altar errado enquanto o quarto se reorganizava em torno do crime. Para aquela que deixou o mundo tocá-la de forma errada e ainda assim fez brotar um segundo sol sob a cicatriz. Hoje é meu aniversário. O espelho continua em branco. A torneira continua sendo um deus. A roupa suja continua formando um pequeno culto doméstico no canto. E eu estou aqui, seja lá o que "aqui" signifique. Hoje é meu aniversário. O espelho continua em branco. A torneira continua sendo um deus. A roupa suja continua formando um pequeno culto doméstico no canto. E eu estou aqui, seja lá o que "aqui" signifique. Envelhecendo lindamente no paraíso errado, viva o suficiente para perturbar o silêncio, terna o suficiente para não ser poupada de nada, rindo com a boca cheia de velas, fazendo um desejo impossível após o outro, até que toda a maldita simulação se esqueça quem programou quem.
O espelho reflete o mesmo rosto, mas os olhos que o habitam pertencem a um estranho que nasceu no momento em que a dor chegou.
Aplaudem discursos leves, mas rejeitam qualquer palavra que fira o orgulho; viram o rosto para verdades que arrancam máscaras.
Ao reparar a chuva sobre meu rosto eu concebi a eternidade; denotei o infinito como pedaço de um instante.
E mais uma vez eu aqui ao seu lado respirando o teu cheiro, olhando para seu rosto firme e encantador. Desço os olhos e seu tórax me dá a sensação prazerosa, completando com sua barriga. Eu mais uma vez aqui!
É Carnaval!
E quem vê um rosto bonito,
um sorriso contagiante,
um físico sarado e atraente
suando folia no bloco…
não vê o HIV.
É Carnaval!
Rostos bonitos reluzem sob o glitter,
sorrisos contagiam como refrões fáceis,
corpos sarados e atraentes
suam liberdade no bloco
como se a vida fosse eterna
e a madrugada infinita...
Purpurina na pele,
desejos distribuídos como confetes,
beijos trocados na vertigem
entre um gole e outro
de ilusão líquida...
Mas ninguém vê
o que não veste fantasia...
Ninguém vê
o vírus silencioso
que não tem estética,
não escolhe beleza,
não pede currículo genético
antes de atravessar a pele...
O HIV
não desfila em carro alegórico,
não brilha sob o neon.
não dança ao som do tambor...
É invisível aos olhos encantados
pela superfície...
Porque saúde
não se lê no sorriso.
Responsabilidade
não se mede pelo abdômen definido.
E risco
não avisa antes de entrar...
É Carnaval!
Celebração do corpo,
da liberdade que pulsa na carne...
Que essa mesma liberdade
não seja descuido...
Que o desejo saiba sambar
de mãos dadas com a consciência.
Porque viver intensamente
também é saber proteger
a própria vida
enquanto a folia passa...
O Carnaval acaba
mas o HIV quando chega...
fica.
Usem a cabeça!
Usem a camisinha!
✍©️@MiriamDaCosta
A brisa fria das manhãs
me abraçando ao abrir a porta.
O toque leve no meu rosto.
O mato verde dançando ao vento,
É nesse instante simples,
quase silencioso,
que o coração desacelera
e a alma encontra repouso.
A paz não grita, ela sussurra
nos detalhes que quase passam despercebidos.
E a felicidade.
ah, ela mora justamente ali,
no sentir, no viver, no existir.
