Retribuindo uma Amizade
Dá uma raiva danada perceber o quanto de energia eu gasto só pra parecer um vivente normal aos olhos dos outros.
Para quem está acompanhado, é só mais uma data no calendário; para quem ficou sozinho na calçada, é um campo minado.
A liberdade só é bonita quando é uma escolha tua; quando ela é o resultado de um abandono, ela tem muito mais cara de solidão.
Veio só aquele aperto seco no peito, tipo quem reconhece uma cicatriz antiga, aquela que já não sangra mas ainda dói quando aperta no lugar certo.
Talvez uma parte de mim quisesse só sentir o soco de propósito, pra depois poder dizer ‘pronto, já dói, já passou’
Duas contagens regressivas correndo ao mesmo tempo, uma tentando cicatrizar, outra tentando comemorar, e as duas com o mesmo nome dela no meio.
Aquele silêncio esquisito, tipo quando param de tocar uma música no meio e o ouvido continua esperando a nota que não vem.
Talvez seja assim mesmo que a coisa funciona. Não é uma porta que fecha de um dia pro outro, é mais um instante aqui, um minuto ali, se somando devagar, sem pedir licença…
O compasso hoje quase acertou o tom sozinho. Por uns minutos, ele nem lembrou que tava tocando uma música triste.
Não é uma sensação boa, mas confesso que também não é totalmente ruim. Depois de tanto tempo só sentindo falta, dói de um jeito diferente sentir raiva. Quase parece um sinal de vida.
Uma vida inteira cabendo numa telinha de cinco polegadas, aparecendo do nada, sem hora marcada, sem pedir licença.
Cada dia um tijolo, meu, empilhado sem muita lógica, mas de algum jeito formando uma parede que já não desaba tão fácil quanto desabava lá no início.
O compasso hoje não desafinou nem uma vez. Ele só ficou mais lento, tipo música de final de um show longo, quando a plateia já sabe que a noite tá quase acabando, mas ainda quer mais uma música antes de ir embora.
Uma curtida não desmancha convite de casamento nenhum. Mas o peito não entende essas contas direito, ele só sente o que sente, na hora que sente.
Por um segundo, só um segundo besta, eu senti uma pontada de esperança. Uma esperança idiota, sem pé nem cabeça, do tipo que eu já devia ter aprendido a não alimentar.
Doeu diferente de tudo que já senti nesses setenta e três dias. Foi mais fundo, tipo descobrir uma prova de que aquilo tudo foi real, de verdade, escrito à mão, guardado sem querer.
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