Quem Gosta de Ouvir Nao quer Falar

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Fiz da ausência um hábito, depois um vício e, por fim, meu próprio nome. Já não sei quem eu seria se o vazio me deixasse.

Minha escrita não busca o aplauso da plateia, mas o reconhecimento silencioso de quem lê e pensa: "eu também habito esse deserto".

Exauriu-me a tarefa de legendar minha dor para quem não sabe ler sentimentos. Prefiro o silêncio de quem escreve.

Escrever é o gesto de quem já compreendeu que o grito não alcança ninguém, resta, então, converter o pavor em grafia. É usar o próprio sangue como tinta para riscar uma saída numa parede de concreto que jamais cederá aos ombros cansados. Cada frase estanca, por instantes, uma hemorragia interna que o mundo ignora enquanto exige sorrisos e produtividade. Sou o náufrago que, em vez de pedir socorro, consome os últimos fôlegos descrevendo a beleza aterradora do oceano que o afoga.

O brilho nos olhos de quem sofreu muito não é luz, é o reflexo da lâmina que a vida usou para nos lapidar até que não sobrasse nada além do essencial. Somos diamantes feitos de pressão e escuridão, brilhando apenas para quem tem a coragem de olhar para o abismo.

Não confio em quem não tem cicatrizes, pois quem passou pela vida sem ser ferido ou não viveu de verdade ou é mestre na arte de fugir de si mesmo. As feridas são as aberturas por onde a luz consegue, enfim, entrar em nosso interior sombrio.

A espera pelo primeiro amor não foi apenas tempo, foi vida doada. Foi a paciência de quem cultiva uma flor em solo estéril, acreditando que o amor, por si só, teria o poder de fazer brotar a reciprocidade.

Há uma força invisível em quem decide não desistir, mesmo quando o mundo inteiro já virou as costas.

Há algo quase indestrutível em quem já não teme mais se perder, porque já esteve perdido e voltou.

Não me peça para ser inteiro todos os dias, pois aprendi a amar os meus fragmentos como quem cuida de cacos de vidro que ainda brilham sob o sol, a perfeição é uma mentira bonita, mas a minha imperfeição é a única verdade que me mantém humano e minimamente vivo.

O espelho não reflete apenas quem somos hoje, mas quem a dor nos obrigou a ser para sobreviver.

​Olhar para o espelho e não reconhecer quem nos tornámos é o preço mais cruel que pagamos pelas feridas que o mundo nos causou.

Carrego em mim versões que não resistiram ao tempo. São fragmentos de quem eu fui e precisei abandonar para seguir adiante. Às vezes sinto falta até das dores antigas. Elas, ao menos, eram conhecidas, este vazio novo ainda me nomeia.

Escrevo como quem acende uma vela em meio à tempestade: não para expulsar toda a escuridão, mas para provar que, mesmo ferida, a alma ainda é capaz de produzir luz.

Às vezes olho para trás e não sinto saudade de quem eu era. Sinto pena. Pena daquele homem que acreditava que a dor tinha um propósito, sem saber que algumas feridas simplesmente acontecem, permanecem e envelhecem conosco.

Não adianta se puxar o tapete de quem não precisa dele para voar!

Para o sábio, tudo é fonte de sabedoria; para quem não é sábio, a própria sabedoria parece loucura.
Para o poeta, toda paisagem e toda palavra são fontes de beleza; para quem não é poeta, a própria beleza pode parecer insípida.
Abra-se à luz da sabedoria, e o sol da poesia iluminará os campos interiores da sua existência.

Quem não renuncia ao próprio egoísmo dificilmente constrói vínculos profundos. Relações verdadeiras exigem consideração, reciprocidade e a capacidade de, em alguns momentos, colocar o bem do outro ao lado dos próprios interesses. Onde só existe espaço para si mesmo, o afeto acaba sendo substituído pela tolerância conveniente que consequentemente se transforma em antipatia cínica.

A solução está nos pequenos
detalhes, e quem está atento
consegue enxergar o que
muitos não observam.

⁠Está tudo errado com quem depende da não existência do outro para ficar bem e também com aqueles que conseguem se sentir felizes diante do sofrimento alheio