Quem Ama Nao Erra
Quem somos nós? A imagem que sustentamos diante dos outros, construída com cuidado, coerência e esforço, ou aquilo que irrompe quando o controle falha, com um gesto, um pensamento, uma reação que rapidamente tentamos esconder? Talvez essa divisão já revele o conflito central: viver entre o que mostramos e o que tememos revelar. Onde há essa cisão, há tensão contínua, e essa tensão consome energia que poderia ser usada para simplesmente perceber.
Em público, ajustamos a voz, o discurso, o comportamento. Em silêncio, observamos outra coisa se mover. Às vezes contraditória, às vezes desconfortável. Não brigamos contra isso porque seja errado, mas porque ameaça a imagem que aprendemos a proteger. O problema não é a imperfeição do que surge, mas o medo de ser visto sem a armadura. Assim, passamos a vida defendendo uma ideia de nós mesmos.
Então surge a pergunta moral: é melhor ser justo e parecer injusto, ou ser injusto e parecer justo? Enquanto essa escolha existir, já estamos presos à aparência. A justiça verdadeira não precisa de plateia, assim como a injustiça não deixa de existir porque foi bem disfarçada. Quando a preocupação principal é como algo será percebido, o ato deixa de ser claro. Ele passa a ser estratégico.
Buscar equilíbrio entre essas posições talvez seja outra armadilha. O equilíbrio pensado, calculado, escolhido, ainda pertence ao campo do esforço. E esforço implica conflito. O que acontece quando não tentamos parecer nada? Quando não há intenção de sustentar uma imagem nem de combatê-la? Talvez reste apenas o fato nu do que somos naquele instante.
E se a pergunta “quem sou eu?” não exigir resposta, mas observação? Não a observação do personagem público, nem a condenação do impulso oculto, mas a percepção direta do movimento inteiro… sem escolha. Nesse ver sem defesa, sem justificativa, pode não surgir uma definição. Mas talvez surja algo mais simples: o fim da necessidade de parecer.
Quem pode ensinar o coração, que é tolo o tempo todo, ignora a lógica, é o mestre de decisões vãs e mesmo que o corpo definhe, nele não crescem cãs?
Hoje celebramos 23 anos de casados.
Engana-se quem acredita que qualquer sentimento, por mais intenso que seja, é suficiente para manter duas pessoas tão diferentes caminhando juntas por tanto tempo.
O amor é muito maior do que isso.
É uma decisão diária, construída por escolhas, atitudes e renúncias em favor de um propósito comum.
O verdadeiro amor se revela na disposição de cuidar, acolher, ouvir, perdoar, dividir responsabilidades, celebrar conquistas e permanecer presente, sobretudo nos dias difíceis.
A paixão vem, colore a superfície e vai embora. O amor é o alicerce.
E alicerces, quando apresentam rachaduras, não são abandonados; são reparados.
Exigem trabalho, paciência e compromisso.
Também se engana quem imagina uma vida a dois sem desafios.
Houve noites no sofá, palavras mal colocadas, julgamentos precipitados, períodos de silêncio e discussões desnecessárias.
Não seríamos humanos se fosse diferente.
A diferença está em não permitir que os conflitos sejam maiores do que aquilo que construímos.
Quando a poeira baixa, o compromisso prevalece, o orgulho cede ao diálogo e o que nos une fala mais alto.
E quando somos tomados pelo ímpeto da raiva, da vaidade ou do orgulho, a vida nos presenteia com pequenos sinais que restauram a serenidade, reorganizam nossas perspectivas e nos lembram de que o nosso verdadeiro porto seguro sempre esteve um no outro.
Hoje somos muito diferentes dos jovens que disseram "sim" há 23 anos.
Talvez essa seja a maior beleza do casamento: acompanhar a transformação do outro sem deixar de escolhê-lo.
Tive o privilégio de vê-la crescer, mudar e se reinventar inúmeras vezes.
E em cada uma dessas versões, encontrei novos motivos para amá-la.
Depois de 23 anos, entendo que o segredo de um casamento não está em encontrar alguém que nunca muda, mas em escolher amar a mesma pessoa em cada nova versão dela.
E em cada reencontro, fazer a mesma escolha: permanecer, construir e seguir em frente, juntos.
Às vezes é preciso ficar em silêncio, quietinho, para ouvir a voz de quem sabe o que é preciso para despertar.
Quem consegue ver a poesia no simples e harmonioso contexto, consegue ver além do que ela realmente é.
Quem é do bem saberá diferenciar o certo do errado, o falso do verdadeiro e a mentira da verdade. Só quem tem olhos internos saberá. Os olhos são os únicos instrumentos que conseguem enxergar por de trás das cortinas invisíveis e ver com clareza o que tem do outro lado.
Ao ler um livro, o leitor descobrirá a verdadeira essência poética enraizada nas veias de quem o escreveu, despertando assim, a poesia esquecida nas veias de quem está nesta viagem.
O Universo dá para quem estiver preparado para receber. Somos parte dele, portanto, ou o entendemos ou ficaremos à mercê de pequenas atitudes.
Às vezes o que precisamos, é de um sorriso no rosto de quem gostamos. Um forte abraço que nos aconchegue e tire esta dor que está nos machucando. Um olhar sereno que nos acalente. Um ombro amigo para encostar nossa cabeça. Às vezes o que precisamos é de apenas uma palavrinha amiga que toque fundo o nosso coração. E às vezes o que precisamos é apenas a companhia do silêncio.
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