Quem Ama Nao Erra

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A saudade é uma moeda que não se desvaloriza. Troco por lembranças, por músicas, por fotos. Com ela compro consolo quando falta companhia. Às vezes a moeda pesa, mas é firme e confiável. E guardo ainda mais quando o cofre do peito treme.

A fé discreta que me guia não exige manchetes. Ela é lamparina no corredor escuro de madrugada. Quando tropeço, ela me ampara sem pergunta. Não se impõe, só existe como companhia fiel. E eu sigo, grato pela pequena luz.

Quando penso em destino, penso em escolhas sutis. Não em decretos gravados em pedra, mas em trilhas. Cada pequena escolha é nó que nos define. Às vezes desfazemos, outras apertamos ainda mais. E o resultado é essa tapeçaria que somos.

A solidão que cura é diferente da que fere. Ela é companhia seletiva e não abandono cruel. Dar-se a ela é permitir ouvir a própria voz. E essa escuta traz respostas que o barulho não permite. Volto de lá mais inteiro, menos fragmentado.

O remorso que carrego é fósforo que às vezes acende. Ilumina o que precisa ser reparado. Não há vergonha em ver a própria falha à luz. A vergonha vem quando escondemos e furtamos o conserto. Por sorte, sempre há tempo de apagar e recomeçar.

A coragem de pedir ajuda é prova de sabedoria. Não é fraqueza admitir que não se dá conta de tudo. Quando pedi, recebi mãos que não perguntaram por que. E isso fez toda diferença na minha recuperação. Compartilhar é dividir o peso e multiplicar o passo.

A esperança madura não exige certezas absolutas. Ela cresce em terreno de perguntas bem feitas. Satisfeita com pouco, ela floresce mesmo na escassez. Cultivá-la é trabalho de jardinagem diária. E os frutos, quando vêm, têm sabor de testemunho.

A poesia de um gesto simples salva reputações partidas. Um olhar demorado, um silêncio que não acusa. Pequenas misericórdias costuram roupas rasgadas. A bondade costuma ser costureira de almas. E eu aprendo a valorizar cada ponto bem dado.

A ternura que procuro é de origem doméstica. Não vem de placas nem diplomas, mas de mãos simples. Ela aparece em gestos que não pedem retorno. Quando recebo tal ternura, sou restaurado. E volto a acreditar em recomeços honestos.

Se minhas palavras tocaram sua ferida, saiba que agora nossas cicatrizes conversam. Você não está só.

Continuo. Não porque seja fácil, mas porque a vida, em toda sua dor e beleza, ainda merece a minha presença.

Minha infância ainda soluça em algum sótão da memória. Peço perdão ao menino que fui por não ter sido o herói que ele esperava.

Certas tristezas não são visitas, são inquilinas. Trocam as fechaduras, instalam-se e passam a chamar o meu vazio de lar.

Não busco a estética da frase bonita, mas a crueza da palavra honesta, mesmo que ela me deixe exposto e sem defesas.

Sustento um pedido de socorro mudo e polido. Ele não grita para não incomodar a vizinhança, mas sua existência é um ruído ensurdecedor.

Meu silêncio não é deserto, é multidão, está lotado de tudo o que ninguém teve coragem de perguntar ou paciência de ouvir.

Escrevo porque a fala me trai. No papel, as palavras não tropeçam, elas me organizam, me protegem e me mantêm lúcido.

Há manhãs em que não desejo o fim, apenas uma pausa na consciência, um repouso de mim mesmo e do barulho da minha mente.

Existe uma exaustão que o sono não cura, ela reside onde os remédios não alcançam e onde só a ponta da caneta consegue tocar.

Não confunda minha resistência com força. A força busca a vitória, a resistência só quer sobreviver a mais uma noite.