Poemas Vinicius de Moraes Patria minha
Fardo Leve.
Aprendi a dobrar a dor
até caber no bolso da calça.
Ela vira moeda trocada:
pago cafés, sorrio de volta,
ninguém desconfia do peso.
Carrego tempestade em copo d’água
e digo que é só sede.
Os nós na garganta viram
gravatas bonitas, bem amarradas.
Elegância é meu disfarce favorito.
De noite, tiro o fardo do varal.
Ele seca leve, quase pluma.
Mas se o vento muda,
lembro que chumbo também voa
quando a gente sopra forte.
No fundo, todo mundo nota:
tranquilidade demais
faz barulho de silêncio.
E o meu fardo, mesmo leve,
deixa pegada no chão.
(Saul Beleza)
*Apenas em sonhos*
Se te sonho, a culpa é toda tua
Que fez casa no meu pensamento
E agora odeio a manhã que assalta
E me arranca de ti, violento
O dia chega devagar só pra castigar
Quem queria ficar mais um pouco lá
Onde você ainda me pertence
Nem que seja só no sonhar.
(Saul Beleza)
*Olhos que Merece*
Não vou te olhar com ódio e nem com ternura
Vou te olhar com os olhos que merece
Olhos de quem entendeu a lição
De quem aprendeu a se escolher na mesa
Não é vingança, não é carinho
É limite, é nome, é ponto final
É fechar a porta sem bater
E seguir em paz, sem fazer mal
Porque quem ama de verdade não machuca
E quem machuca nunca soube amar
Então te devolvo pro teu destino
Com os olhos que você me ensinou a usar.
(Saul Beleza)
*Pela Fresta*
Teu disfarce e o meu não querer
Vai trazendo a curiosidade de te espiar
Mesmo que de soslaio
A porta range baixa, eu seguro o fôlego
o teu passo de gato ecoa no corredor
E eu juro que não espiei.
Mas guardei tua sombra na memória
Meu caminhar suave, não vai despertar o que dorme dentro de ti
Quem sabe o estrondo do silêncio desperta teu sorriso
E desperta. Um canto de boca, rápido
Tipo segredo que a fresta não segura
Aí a gente volta a fingir,
Enquanto o poema escreve a gente
Mesmo te espiando, finjo não te ver me espiando.
(Saul Beleza)
Não precisamos machucar a alma, não precisamos entender muita coisa. Mas seria bom sentir um carinho, um abraço, ver um sorriso, sentir o acelerar do coração. Pensamentos vão além. Aí um amor começa, e por
um descuido nos apaixonamos.
(Saul Beleza)
*Corte seco*
Amor próprio é trincheira, não ponte
Se aproxima, mas não me toma a fonte
Dou pele, dou riso, dou noite e tormenta
Mas minha alma... essa ninguém assenta.
Me guardo inteira mesmo te querendo
Porque quem se perde amando, termina sofrendo.
(Saul Beleza)
*Grandes Anões*
A vida nos faz ser grandes anões
Cabeça cheia de planos, peito cheio de sermões
Sonhamos castelos, acordamos em vão
E o futuro nos cobra em forma de chão
Choramos o tamanho que não alcançamos
As lágrimas medem o que imaginamos
Mas mesmo pequeno, mesmo em ruína
O sonho insiste, teima, ilumina
Porque anão que sonha ainda é gigante
Num mundo que esquece quem vai adiante.
(Saul Beleza)
*Atraso Bendito*
Sempre nos atrasamos por alguma razão ou por alguém,
O ônibus que não veio, a chuva na janela,
O copo de café que caiu sem querer.
Eu reclamava do tempo perdido,
Das horas que escorriam entre os dedos,
Sem saber que o relógio conspirava a meu favor.
Foi num atraso desses, sem pressa e sem mapa,
Que meu caminho tropeçou no teu.
E no meio da correria que eu não tive,
Encontrei o que a vida inteira almejei:
(Saul Beleza)
*Teu sorriso.*
Aquele que desmonta a pressa,
Que explica todos os semáforos fechados,
Que justifica cada porta que não abriu antes.
Porque se eu tivesse chegado cedo,
Talvez não te visse.
Se eu não tivesse me perdido,
Talvez não te achasse.
Então que venham os atrasos,
Se no fim deles me espera o teu riso.
Porque nenhum relógio pesa mais
Do que o tempo que ganhei em você.
(Saul Beleza)
*Quando a Noite Dura Demais*
Não tenho mais sonhos e nem planos,
Disse o peito cansado.
Tenho só a triste realidade
Que me consome dia a dia.
Mas a terra também parece morta no inverno,
E ainda assim guarda semente.
E o poeta, mesmo sem verso,
Ainda guarda gente.
Porque esperança não grita.
Ela insiste.
É o fio que sobra quando tudo arrebenta,
É o “ainda” depois do “nunca mais”.
Um dia, sem aviso,
A realidade cansa de consumir.
E quem foi consumido,
Aprende a florescer no escombro.
Então guarda isso aqui:
Sem sonhos hoje, tudo bem.
Sem planos hoje, tudo bem.
Mas sem você, o poema acaba.
E o mundo ainda precisa do teu próximo verso.
Você ainda está aqui. Isso já é esperança começando
(Saul Beleza)
O abandono também faz florescer.
Assim é a natureza.
Tira a água, tira o sol,
e mesmo assim a raiz insiste.
A dor vira caule.
A saudade vira pétala.
E de repente você entende:
não era fim. Era primavera.
(Saul Beleza)
A quem amei tanto
hoje chamo de esquecimento.
Mas quando a lembrança me visitar
eu sorrio por dentro,
porque lembro o tamanho do amor que te dei.
É tristeza alegre.
É amor que ainda existe,
é distância que insiste em ficar.
(Saul Beleza)
... a suprema
missão do espírito é despertar
e potencializar conteúdos
e atitudes que, sobretudo,
o testemunhem digno
de espírito!
... imprudente
solidão é a que nos afasta
de nós mesmos...
De tudo que já somos; tudo que
lutando já conquistamos; e,
não poucas vezes, nos
esquecemos!
Quem
tolere o mal
como se toda finalidade
justificasse os meios empregados;
contribui no alastramento
de sua aura doentia,
devastadora!
É parte da cura
o firme desejo de ser curado,
diz o honrado Sêneca!
Logo, não há porque nos
afeiçoarmos a certos hábitos
e deformidades
que apartados de mínima
sensatez, tão só nos
adoecem!
Nunca esperes
por condições favoráveis
para realizar o que
desejas - na verdade, caberá
a ticriá-las, como um primeiro
passo na feitura daquilo
que ambicionas!
Saiba, caro amigo,
que 99% do que cinge
teu espírito; do que harmoniza
e estimulatuas mais caras
competências, teu senso realizador,
permanecem intocáveis,sem uso...
Logo, não te subestimes
nem desanimes diante da vida:
floresça o que te falta
e viva!
... um gesto de perdão
evidencia a virtuosa estatura
de um Ser... E, aos ora acolhidos por
misericordioso aceno, a chance de
remediar suas criadas demandas e
deslizes - ainda que, em muitos casos,
resgatados mediante o amoroso
bálsamo da contrariedade
e da dor!
... a Verdade
enquanto verdade não hesita,
tampouco se contradiz - sequer
acata viciosos jargões, os fortuitos
maldizeres que presos a sinuosidade
dos maus hábitos e imperfeições,
tramam criar brechas e pretextos - os
mais febris artefatos, no intuito
de maliciosamente
contestá-la!
