Poemas Realidade da Vida
IMAGINANDO A MORTE
Eu, imperturbável, e sereno de mãos arrumadas.
— Os amigos vindos de distantes léguas.
— Abraços tristonhos, choros sem tréguas.
— As senhoras de negros fatos bem trajadas,
Trarão na memória, recordações vivenciadas.
— Virão, eu creio, em carruagens puxadas por éguas
Negras, visto que negro serão as regras.
— Com meu terço enrolado nas mãos geladas.
Rogarei a minh'alma, gratidão aos benfeitores:
Pelas exéquias melodias entoadas com lisura.
— Retirar-me-ei, pois dos anjos já ouço louvores.
— A vida se foi a visão tornou-se escura
O último suspiro coube a meus amores!
A Alma à Deus, e o corpo à terra dura.
Natalicio Cardoso da Silva
BOM VINHO
Para brindarmos escolha um bom vinho
Não necessariamente aquele sequioso,
Mas um que tu tenhas especial carinho
Desarrolhe o vítreo e sirva o licoroso
Nas ruidosas taças sobre branco linho.
— Em que pese o romantismo prazeroso,
Apanhei algumas flores pelo caminho
E cada qual com um perfume deleitoso.
— Em especial, colhi de surpresa esta rosa
Por sua beleza aprazível, amena e majestosa.
— Para acalentar os ideais de seus anseios
Enquanto bebermos nesta noite de outono
Se por ventura nos entregarmos a pesado sono,
Quero despertar além da doçura dos seus seios.
NATALICIO CARDOSO DA SILVA
MORRO DO BIM
Minha terra é bem assim
Tem vento envergando coqueiro
Céu azul de brigadeiro
E noites de amor sem fim
Tem o divino Morro do Bim
Cujo povo de espírito romeiro
Lá ergueu um belíssimo cruzeiro
E teve até missa em latim
Depois fizeram lá outro Jesus
Alto, imponente... de longe fascina
Mas não buliram na velha cruz
Eis Santo Antônio da Platina
Terra afável, que muito seduz
Nascer de ti foi minha doce sina
Natalicio Cardoso da Silva
TERNURA DAS FLORES
Venha! Queres ver a ternura das flores?
Se tu quiseres, verás Pétalas, Rosas,
Camélia, Verbena, Tulipas, babosas
E borboletas de matizadas cores
— Haverás de ver, por certo, Monsenhores,
Flor-de-Lis, Perpétua, Íris, gloriosas,
Gérbera, Azaleias, tomentosas,
Alfazemas, Onze-Horas, Dois Amores,
Verbena, Prímula, Nubilum, Peônia,
Cravo, Violeta, Rosa Carolina,
Crisântemo, Lisianto, Helicônia,
Orquídeas, Bromélias, Moreia, Cravina,
Corbélia, Girassol, Lírios, Begônia,
Flox, Amor Perfeito e Leopoldina.
Natalicio Cardoso da Silva
DUAS ESMERALDAS
Senhores, vedes aquela que passa peregrina?
Dela vos falarei com extremo gosto
Desnecessário se fará falar do rosto
Visto que tudo nela fascina
Talvez presumam que gabarei divina,
A qual velo, e que exagerarei no gosto
Eu vos direi que não... sol-posto,
Certo dia, no esplendor da lua albina
Eu vi, senhores, seus olhos brilharem
Na forma e na cor de duas esmeraldas
E como que apaixonados me fitarem
Dizei, vós, ó meus amigos em tela
Deve a musa enfeitar-se em grinaldas
E junto a mim rumar à capela?
Natalicio Cardoso da Silva
Não empregue suas energias em procurar aquilo que sabe que não irá encontrar onde você está.
Segue adiante, mesmo que não encontre o que procura, detenha-se a caminhar fazendo o bem a todos em tua jornada.
(Leonardo da Silva Garcia)
UNI-VERSOS
Uni verso e coração... fiz-me poesia
Uni verso e voz... fiz-me melodia
Uni verso e frente... fiz-me completa
Intensa
Imensa
ao uni-versos!
Ela reina no céu noturno
ele, no dia.
Ela, lua, sorri...
talvez sonhe o encontro
logo mais.
Talvez.
Pergunto-me:
por que os amantes
são inexplicáveis?
É manhã cedinho
ela não devia aparecer
eu sei...
mas o amor faz coisas
que até Deus duvida!
Um dos grandes desafios contemporâneos é de criar (e/ou de se tornar) pessoas fortes em um mundo de facilidades.
(Leonardo da Silva Garcia)
Se Cristo voltasse antes da minha conversão eu estaria perdido, se não voltasse um dia, como prometeu, eu seria consumido pela desesperança.
Tenho, portanto, a misericórdia nesta amorosa espera e o juízo na certeza da promessa. Seja como for, a cada dia que passa a misericórdia Dele me parece maior e o Juízo mais próximo.
Dia após dia sem sentido vou vivendo
clamando ao mundo,
suplicando tudo,
à brisa que passa junto aos quatro ventos
pois nada é eterno
e se quero a morte
ela me dá seu afável amor
aquele que entre irmãos se chama fraterno...
Não há mais nada a sonhar,
a morte me roubou o sono,
de modo que somente em poucos segundos
a vida exprime
entre tropeços e tombos
o que o corpo quer falar
Inspirado com tamanha alvura e beleza
quero exclamar ao mundo,
imensa é a certeza de tão grande paixão.
Fascínio? Não é somente isso.
É muito mais.
É a candura de ter tão ternos lábios
pela eternidade unidos aos meus,
e, mesmo que dure poucos segundos,
crer que o mundo se cala
quando os amantes se entregam
num amor só seu.
Querem calar a voz daqueles que dizem o que pensam,
mas ainda que seja assim, prefiro ser o poeta
que profeta que faz de sua arma a alienação...
Pois o silencio com sua melodia
traz aos meus ouvidos
a letra de nosso amor,
transformado em dores
daquela poesia...
Que passe
Que passe o mundo, injusto;
Que passe o incrédulo, inútil;
Que passe o infame, infeliz;
Que passe o ímpio, incerto;
Que passe a fama, soberba;
Que passe a ira, instantânea;
Que passe a luxúria, momentânea ;
Que passe o ódio, insólito;
Que passe a falsidade, meio de vida;
Que passe a mentira, cotidiana;
Que passe o insucesso, solitário;
Que passe a guerra, morte;
Que passe a amargura, tristeza;
e,
Que a tristeza passe e não se transforme em amarguras;
Que a morte não seja ocasionada pela guerra;
Que o solitário assim não se torne, pelo insucesso;
Que o cotidiano não se permeie pela mentira;
Que os meios de vida não se utilizem da falsidade;
Que o insólito seja de estranheza por coisas boas e não pelo ódio;
Que o momento não nos remeta à luxúria;
Que o instantâneo julgar não nos traga ira;
Que a soberba seja de boas conquistas a ti e aos demais e não pela fama;
Que o incerto não nos torne ímpios;
Que a infelicidade passageira, não nos acarrete na infâmia;
Que o inútil pressupor ampare o incrédulo, para que ele possa crer, mesmo na dúvida;
Que o injusto mundo de muitos se transforme em justiça interna, em sabedoria verdadeira, em amor real.
