Poemas quando eu me Amei de Verdade

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⁠OBSOLESCÊNCIA

Por antiquado me achar,
Deixei-me ir
E deitei-me ao rio
Frio
Dos frustrados,
Por não saber amar.

O ir, é quase uma ciência
De esquecer o que nunca é de vir,
Como obsolescência
De ao defecar, sentir.

O rir,
Pela grossa asneira
De querer meter
Sem jeito ou maneira
Um parafuso
Difuso,
Numa racha estreita
Feita
Mártir sem saber
O motivo
Do seu castigo,
Por sofrer
Em grito amargo,
O não ter
Em si, um largo
Mais largo.

(Carlos De Castro, in Há Um Livro Por Escrever, em 24-03-2023)

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⁠ALTARES

Anos vão.
Construi e tenho no meu quarto
Numa cómoda velha de minha mãe,
Um santuário,
Tipo berçário,
Que acolhe alguns santos
Do reino que Deus tem.

Uns mais que outros, sacrossantos,
Para mim.

E assim,
Talvez pela memória
Feita só estória
De querer afastar medos e quebrantos
Em simples peças de barro,
Já em padecimentos de sarro.

E cada vez mais eu reparo
Que neste mundo às avessas,
A quem faltar fé ou faro
Baterá em portas travessas.

Ravessas, elas só se abrirão
Por senha ou pela beatice,
Sempre esta minha tolice
De não aceitar sermão.

(Carlos De Castro, in Há Um Livro Por Escrever, em 27-03-2023)

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⁠REFEIÇÃO

Jamais te convidaria...
Por certo, estás habituado
A comeres mais fartos,
Feitos com amores
E sabores
De repastos
Em outras mesas
De mais certezas
Que a minha, que se vai
E esvai em lavagens porcinas
Feitas comeres
Sem temperos e saberes
Por gentes sem disciplinas.

E neste comer só de olho,
Há quem só coma restolho
Que nos deixam abandonados
Como dejetos de cães votados
Ao desprezo
Em mesas tristes, já fadadas
Para servir ração a um preso.

Sinais puros de vinganças
Todavia, sem esperanças...

Porque eu sou pedra
Sou esta dura vida,
Sofrida,
Senhor,
Que és o tutor
Dos meus atos.

Aqui, comem melhor os gatos.

Muito gostaria,
Mas pelos factos,
Jamais te convidaria.

(Carlos De Castro, in Há Um Livro Por Escrever, em 28-03-2023)

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⁠CRUZ DE JESUS

Tanta gente.
Tanta fé, ó Cristo,
Na tua cruz
No teu sinal
Que seduz,
Se beija
E se benze,
Para afastar maleitas,
Maus-olhados,
Que afinal,
São coisas imperfeitas
De males mal limpados.

Tanta gente.
Que gasta o madeiro
Da tua cruz infinita,
De tanto o dedo raspar
Para afastar o medo
Da sua desdita.

Tanta gente.
Irmão, Senhor, Jesus,
Que só quer a tua cruz
Por gostar,
Sem amar,
Sem te ajudar
A suportar
O peso desse fadário,
A caminho do teu calvário.

Por nós,
Que não te damos voz.

(Carlos De Castro, in Há Um Livro Por Escrever, em 30-03-2023)

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⁠O MENINO E A BOLA

Ele ia atrás da bola.
Que belo, ele a correr
O menino de sua mãe,
Que Deus a conserve e tem
No enlace com seu pai,
Em risonho amor de viver.

Chuta, vá meu pequenino,
Afaga os teus pezitos na bola,
Com o esquerdo ou o direito
O teu chutar é perfeito,
Rumo ao verdadeiro destino
Traçado na camisola.

E no passar do sol pela lua,
Pelo fogo, pelo ar, pela água
Sem mágoa
E pela terra,
Um dia, nunca te esqueças
Peço-te, não esmoreças,
Pois a vida será sempre tua
Nua e crua,
Pela verdade que encerra.

(Carlos De Castro, in Há Um Livro Por Escrever, em 01-04-2023)

Inserida por CarlosVieiraDeCastro

⁠O GRITO

Ouvia-se o grito.
Na noite do vendaval,
Duma garganta, saía aflito
O ronco de algum mortal.

Terrífico
Horrífico,
Que entrava pela janela
Fechada pelo medo
De entrar nela,
Mau credo ou até bruxedo.

O vendaval amainou.
O grito parou.
Aberta a janela,
Ao perto, à luz da vela:
Era uma voz de fome,
Um homem sem nome,
Sem idade de vida ou ser,
Que só pedia a esmola do comer.

(Carlos De Castro, In Há Um Livro Por Escrever, em 03-04-2023)

Inserida por CarlosVieiraDeCastro

⁠Escrevia, Miguel Torga, Poeta Maior, em Coimbra, a 4 de Abril de 1981:
- "Tentei explicar o mecanismo psicológico. O poeta é, de facto, um ser
incómodo. Mais cedo ou mais tarde, obriga os detratores a um embaraçoso
mea culpa. E como eles, no íntimo, o sabem perfeitamente, olham-no sempre
de través, a adiar quanto podem essa hora de rendição. Até que ela chega
irrevogavelmente pela mão da morte. E, então, é uma avalanche de adjetivos a
ver se o soterram e, alçados no cômoro lutuoso, se glorificam na glória que
proclamam." (Diário XIII - Miguel Torga)

MINHA HOMENAGEM:

QUADRA PARA TORGA

Se o poeta é desconforto,
Digam-no já em vida,
Não falsem depois de morto,
Que foi um santo de ermida.
© 𝕮𝖆𝖗𝖑𝖔𝖘 𝕯𝖊 𝕮𝖆𝖘𝖙𝖗𝖔.

Inserida por CarlosVieiraDeCastro

⁠DANÇAS DO VENTRE E OUTRAS EXCITAÇÕES

Era na noite avançada
Dos nossos tempos idos.
Aplicavas os teus fluídos
Nos requebros do teu ventre,
Em danças que a gente sente
Acordar libidos adormecidos.
Em lascívias
Óbvias
Do teu tronco,
Em sinais de púbis molhados
Nos negros caracóis
Fantasiados
Nos brancos lençóis,
Que depois da dança tua
De ventre
E de frente,
Fazíamos amor
Cansado
Mas sempre apetecido
Quando regurgitavam
Orgasmos,
Em espasmos
De loucura e dor.

(Carlos De Castro, in Há Um Livro Por Escrever, em 08-04-2023)

Inserida por CarlosVieiraDeCastro

PÁSCOA SEM PASSAGEM

⁠Foi Páscoa.
Só dei por ela e pela aragem,
Na singeleza do nome passagem,
Só mesmo, sem mais,
Neste mundo dos mortais.

O sol, estava tão triste,
O vento, sem ação,
E se a memória resiste
Caía uma melancolia
Na cruz erguida,
Ferida, do meu coração.

Páscoa, para mim,
Não é doce nem salgada,
É assim
Como quase tudo do nada
Em desprender de vícios
E estrupícios
Na minha fé amansada.

Que interessa Páscoa
Se na passagem
Da mensagem,
O mundo vive em clausura
Mesmo sem grades,
Nestas minhas saudades
De uma Páscoa pura?

(Carlos De Castro, in Há Um Livro Por Escrever, em 11-04-2023)

Inserida por CarlosVieiraDeCastro

⁠PESADELOS
Enrolam-se como áspides
Serpentes venenosas
Pela calada do meu sono
Em mono
Por falta de estéreo
Neste mistério
De horrorizar
O som dos medonhos.
Enfiam máscaras de mortos
Idos,
Absortos,
Sem perdão
De alguma salvação.
Depois, no filme, entre flatos
De cus abstratos,
Caricatos,
Talvez de gatos,
Aparecem então os vivos
Cativos
Já de morte anunciada,
Malignos seres na encruzilhada.
Fazem-me suar,
Transpirar
A estopinhas
Molhar a roupa do corpo
Vivo e não morto!
Mais eis que, no final,
Há sempre um vencedor.
Surge alguém que já está
Lá,
Na terra verdade e me salva a recato.
Depois, vem aquela estúpida
Vontade de mijar
De duas em duas horas
E eu acabo de matar
O pesadelo
Ao afogá-lo na água
Que brota,
Abundantemente,
Sem piedade,
Do autoclismo.


(Carlos De Castro, in Há Um Livro Por Escrever, em 15-04-2023)

Inserida por CarlosVieiraDeCastro

⁠LAURO O INFELIZ

Lauro morava debaixo de chapas pobre
Tinha as mãos encardidas de ranho e sol
Já foi senhor e estupor de graveto nobre
Antes de ter o cabelo com baba de caracol

Lauro batia ao bicho de hora em hora
Seduzido pela erva queimada em cenoura
Depois adormecia co'a coisa de fora
Deprimida encardida e tão redutora

Lauro tinha quem por ele rezasse
Ao longe numa luz que já foi dele
Algum teso também agora sem classe
Mas que tinha sido figura como ele

Lauro cansado de viver sem planos
De tanto cismar na córnea da vida
Arranjou um corda já em pedaços partida
E enforcou-se de pernas no dia dos anos.

(Carlos De Castro, in Há Um Livro Por Escrever, em 17-04-2023)

Inserida por CarlosVieiraDeCastro

ROSA RECALCADA

⁠Rosa formosa dos seios grandes
Com cheiros de mar nas axilas
Trazias em ti almoços de sandes
E no coração memórias de pilas.

Nas tuas pernas feitas almofadas
De sal ao sol já tão crestadas
Alapavam outras de estofadas
Peles e espumas contaminadas.

Rosa enjeitada rameira sem nada
Objeto abjeto corpo de diversão
Em que tornaram o teu destino coitada
Mulher viva e tão morta de ilusão.

E um dia na campa ao lerem o teu jazer
Hão de estar sem arrependimento
Todos os que exploraram o sofrer
Do teu corpo de fora para o de dentro.

(Carlos De Castro, In Há Um Livro Por Escrever, em 18-04-2023)

Inserida por CarlosVieiraDeCastro

⁠POEMA LAMENTO

Um mau poema
Sem tema
Alcance ou lema,
É tudo o que te posso dar.

Não sei mais.

Ela não quer nada comigo
E como castigo...

Também não quero ir mais longe
Não quero levar vida de monge
Porque monge
Sem capuz,
Já o sou nesta minha cruz.

Não pretendo nome
Ou cognome,
Estejam descansados
Para vosso bem.

Se o quisesse, alcançaria
Mesmo da noite para o dia!

Um bom poema
Para minha pena
Mas sem vontade de chorar,
É coisa que não te posso dar.

Lamento!

(Carlos De Castro, in Há Um Livro Por Escrever, em 22-04-2023)

Inserida por CarlosVieiraDeCastro

⁠Anda por aí muita gente camuflada em trânsitos de santidade que julga que estou apanhado do clima.
Após breve leitura de algum escrevinhar que fazem, concluí:
Quem seria o iluminado que estabeleceu as primeiras regras de loucura, sabendo de antemão que já era louco por natureza?

Inserida por CarlosVieiraDeCastro

⁠LUZ

Que luz
Que tão tarde
Queres brilhar
Como fogueira que não arde
Na minha escura vida
Que até se me não engana
A amargura invertida,
Nunca soube que existias.

Falso reflexo
A querer alumiar
O meu espelho convexo
Em teus remorsos
Por expiar,
Nos meus derradeiros dias.

(Carlos De Castro, in Há Um Livro Por Escrever, em 29-04-2023)

Inserida por CarlosVieiraDeCastro

VINGANÇAS

⁠A vingança não dura um segundo
No coração dos simples e puros
Como a água cristalina e corrente
Que desliza frémita e tão contente
Passando apressada nas barreiras
Marcações de pedras fronteiras
E socalcos das terras do mundo.

Água vinha
Água vem
Água se foi
Água mansinha
Sem mais ninguém.

A vingança, por si se dói,
Nos corações benditos.
Nos corações empedernidos
Sem ponta de bons fluídos,
Ela corrói e destrói,
Vem, mas não vai.

É teimosa,
Birrenta
Como égua fanhosa
Peçonhenta
Que rebenta nos piores adjetivos.

Mas vai um dia na noite que cai
Com ventos de depuração.
Vingança que não vai
Não tem razão
De morar nos sem sentidos
Dos corações bandidos.

E eis que os corações tais
Desses empedernidos mortais
Não aguentaram o choque
E morreram sem esperança
Nem reboque
De aplicar a vingança.

(Carlos De Castro, in Há Um Livro Por Escrever, em 02-05-2023)

Inserida por CarlosVieiraDeCastro

⁠OS POETAS DE DOM NASCEM E
MORREM SOZINHOS

Ninguém sabe.
Ninguém quis saber.
E tão fácil era adivinhar.

Os poetas anacoretas
Ascetas
Merecedores do dom
De mostrar a alma em facetas
Já nasceram antes do nascer,
Já sofreram antes de sofrer,
Porque tiveram medo
De fazer padecer
Todos os que não são como eles.

Cada um nasce, se quiser,
Já depois de nascido,
E apresentado ao mundo.

E quando esses poetas decidirem morrer
Ninguém vai saber
Como eles conquistaram
Aquilo que sempre amaram...

Tanta paz
Capaz
De um sono profundo.

(Carlos De Castro, in Há Um Livro Por Escrever, em 03-05-2023)

Inserida por CarlosVieiraDeCastro

VIRGINDADES

⁠Foram e serão como árvores
Sem fruto
Em seu voto absoluto
De entregar-se,
Devotar-se,
A um só corpo impoluto.

Nunca gerado e resoluto
Por mais tentação que venha
Lá dos varões assinalados
E mestrados.

Confessam-se a padres enamorados:
"Antes morta, do que prenhe,
Não desdenhe, não desdenhe,
Que cá nesta minha ordenha,
Eu sou a santa e a senha
Pela qual me registo
E virgem serei e resisto!".

E num terminar de emoções
Deitam a mão a uns cordões
De recordações
Nefastas,
Mas para resistirem castas
Naquele gostoso furor,
Invocam o seu amor a Cristo!

(Carlos De Castro, in Há Um Livro Por Escrever, em 04-05-2023)

Inserida por CarlosVieiraDeCastro

A MENINA E A ÁRVORE

⁠Desprevenido, plantei-te!
Sem escavar sequer um palmo
De terra do fundo germinador.

Quando brotaste o tronco esguio
E os ramitos
Pequenitos
Numa manhã chuvosa,
Custosa e fanhosa
De um Março marçagão,
Colei a minha trémula mão
À tua tão pequenina,
Magrinha,
Comprida, de pianista.

Parece impossível!
Haverá alguém que resista...

Deste-me na minha um esticão,
Como a querer fugir de mim.

Tomei isso como premonição
Negra,
Amarga
E fúnebre.

Continuas com a tua mãozita pequena
Da tua árvore a envelhecer
De madura,
No tronco e nos ramos
Mas com as maçãs tão verdes,
Ácidas,
Intragáveis.

Tão inutilmente
No perto,
Longe
De mim.

(Carlos De Castro, in Há Um Livro Por Escrever, em 06-05-2023)

Inserida por CarlosVieiraDeCastro

NOVOS TEMPOS VIRÃO

⁠Há tempos atrás dos tempos,
O vento sussurrou-me ao ouvido:

" O sol vai deixar de brilhar!
A lua, viúva, de negro vai ficar!
A chuva, disse-me, vai mirrar!
Eu, por mim, estou a esvaziar!
O céu, vai cair a arder,
No leito seco do mar!
As montanhas irão desmoronar!
Os prados verdes vão crestar!
As árvores, de podres, irão chorar!
Ouvir-se-ão estrondos de terrificar!
Ficarão inertes as aves e os peixes
Sem ar, sem água, a agonizar! "

Carrancudo, perguntei ao vento:
" Ouve lá, ó vento, então eu quero saber:
Porque razão me estás a meter
Tanto medo de arrepelação !?...
Assim sendo, diz-me para onde vou,
Ou então!?...

Aí, o vento mudou de ouvido e segredou-me:

Alguns como tu, ficarão
Na nova terra que há de brotar
Das cinzas da ressurreição,
Onde não haverá castigo nem metas,
Apenas um tempo novo
Onde habitará um nóvel povo,
No promissor mundo dos poetas! "

(Carlos de Castro, In Há Um Livro Por Escrever em 08-05-2023)

Inserida por CarlosVieiraDeCastro