Poemas quando eu me Amei de Verdade

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O medo que carrego tem nome e endereço. Se eu chamasse, apareceria com mala pronta. Mas prefiro observar de longe, sem travar porta. Aprendi que é sábio não convidar certos inquilinos. Eles ficam, mas não precisam morar na sala principal.

As memórias afetivas se escondem em objetos sem nome. Um copo, uma folha, um bilhete rasgado. Eu os encontro e reconheço, aqui vivi. Eles não falam alto, apenas lembram com calma. E eu, como bom ouvinte, aprendo.

Eu tentei seguir, mas o vazio caminha comigo. Ele senta ao meu lado, dorme na minha cama, repete suas lembranças como uma oração torta. Seguir em frente, às vezes, é apenas aprender a carregar o peso sem deixar que ele nos destrua por completo.

O medo ensina geografia de meus limites. Se eu o enfrentar com cuidado, amplio fronteiras. Se cedê-lo sem luta, empobreço de coragem. Aprendo a lidar com ele como quem estuda mapa. E, aos poucos, bordo novas rotas em mim.

Sou um grito que aprendeu a cadência da respiração. A dor continua lá, mas eu aprendi a caminhar com ela.

Fiz da ausência um hábito, depois um vício e, por fim, meu próprio nome. Já não sei quem eu seria se o vazio me deixasse.

Meu maior receio é a domesticação da dor, o dia em que eu parar de estranhá-la e passar a chamá-la de rotina.

A escrita não é para o mundo, é para mim. Se eu não colocar no papel, o que sinto acaba por me implodir.

Não ostento força, ostento permanência. Com tudo o que já me convidou ao fim, o fato de eu ainda estar aqui é meu maior feito.

Carrego um luto sem rito de passagem, uma perda invisível que me transformou em alguém que eu ainda estou tentando conhecer.

Habito o hiato entre quem eu fui e quem eu nunca serei. É um espaço desconfortável, mas é o único lugar onde sou real.

Cansado de ser o pilar silencioso, mas consciente de que, se eu falar, o estrondo do meu desabafo assustaria a todos.

Sinto saudades de uma versão minha que talvez nem tenha existido, apenas a ideia de quem eu poderia ser antes de tudo.

Sou um caos que encontrou na poesia sua única forma de ordem. Sem os versos, eu seria apenas estilhaços.

Há dias em que o cansaço não é muscular, é um peso que vem de séculos passados, como se eu carregasse o luto de todas as versões de mim que morreram antes de florescer. A gente não envelhece apenas pelos anos, mas pelas despedidas que fazemos em silêncio diante do café frio.

Sou o resultado de todas as vezes que eu disse "está tudo bem" enquanto meu mundo interno estava sendo devastado por um tsunami de incertezas. A resiliência é uma forma de exaustão que aprendeu a usar maquiagem, uma força que nasce da total falta de opção.

A tristeza é uma cor que combina com tudo o que eu escrevo, um pigmento que extraio das sombras que o sol projeta quando decide se pôr cedo demais. Não busco o arco-íris, busco a gradação de cinzas que existe entre a dor absoluta e o alívio de um sono sem sonhos.

O mundo é um baile de máscaras onde eu cheguei com o rosto nu e agora todos se afastam, assustados com a honestidade da minha tristeza. Não nasci para o carnaval das aparências, prefiro a quarta-feira de cinzas, onde tudo é cinza, mas ao menos é real.

O amor é um exercício de vulnerabilidade que eu já não pratico com tanta frequência, por medo de que o que sobrou de mim não suporte mais uma decepção. Fechei as janelas do peito, não por ódio, mas para proteger as últimas velas que ainda insistem em não apagar.

A minha fé é uma chama trêmula que qualquer brisa de dúvida ameaça apagar, mas que eu protejo com as mãos em concha, mesmo que elas fiquem queimadas no processo. É melhor arder de dúvida do que congelar na certeza absoluta de que não há nada além do fim.