Poemas de Memória

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⁠O homem não será lembrado pelas leis que seguiu e sim pelas regras que quebrou em prol de suas virtudes.

⁠Só morre pela metade todo aquele que deixa uma imagem de si mesmo nos próprios filhos.

Carlo Goldoni
La Pamela (1750).

⁠Me apaixonei pelos cenários que criei com você. Pelas nossas memórias que só existiram na minha cabeça.

Os comportamentos adquiridos durante a infância nos acompanham sempre, e mesmo que tenhamos conseguido, à força de uma grande vontade, mantê-los cercados, encolhidos em um lugar tenebroso da memória, quando menos esperamos nos saltam na cara como gatos enfurecidos.

Guadalupe Nettel
O corpo em que nasci. Rio de Janeiro: Rocco, 2013.

⁠Na ausência, o silêncio tece as memórias que as palavras não podem pronunciar.

Não assuma a responsabilidade do erro do outro. No trajeto da vida, o custo pelo peso dessa bagagem, não é você quem tem que pagar.

Pronto, agora seguir o caminho ficou fácil.
Você? Ficou lá atrás, junto com toda sua pretenção infundada. Sabe aquele livro que você começa a ler, está tudo indo bem mas ele simplesmente fica desinteressante? Pois bem, te considero esse livro. Eu perdi a vontade de me esforçar e tentar decifrar suas entrelinhas, tanta coisa sem sentido. Agora comecei a me dedicar à outro livro, e a primeira página já trata de um assunto muito forte e totalmente necessário: amar a si próprio antes de qualquer coisa. E olha, essa primeira página já me convenceu a não voltar ao livro anterior. Agora peço-lhe licença pois o fato de retornar minha memória ao "livro passado" já me deixou com um mal estar danado. Vou ali, sem pressa, viver o que há de melhor.

⁠A lei do tempo é fixa. O tempo apenas avança, e você nunca pode voltar atrás. Mas há uma forma de voltar no tempo. É por meio da sua memória.

Quem foi que disse que a primeira impressão é a que fica? Conheço quem passou toda sua existência tentando aplicar o golpe perfeito, e na última oportunidade o consegue... E sai como mocinho desfrutando de todas as prerrogativas dos heróis, onde os golpes de uma vida inteira são zerados porque se mostrou bastante convincente no último.

⁠Fotos são como máquinas do tempo que nos transportam para momentos e sensações que pensávamos ter esquecido.

É engraçado como podemos lembrar de uma tristeza que achávamos, na época, capaz de matar alguém, e saber que ainda não conhecíamos nem a décima parte da verdadeira tristeza.

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Casa é gente. Não é um lugar. Se você voltar lá depois que as pessoas se forem, tudo que você pode ver é o que não existe mais.

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E os livros, livros por todos os lados. Cada superfície plana era ocupada por um livro. Tampo da mesa, armário, criado-mudo, mesinha de cabeceira. Nenhum bibelô, Nenhum suvenir. Nenhum porta-retratos. Só restaram os livros. Para que ele soubesse quem fora realmente a mãe, teria de abri-los e ler. Teria de ler cada página de milhares, milhões.

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A cada ano, minha mãe tirava um quadro do meu pai da parede para dar espaço a mais uma estante de livros.

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Eu sempre fui diferente, querendo dizer que eu gostava de ser eu mesmo. Até no jardim de infância, quando diziam para formarmos uma fila e ir ao parquinho, eu não gostava de participar. Eu não era bagunceira; eu não apreciava a fila. Algumas das minhas melhores lembranças de infância são de mim sozinha no meu quarto – escrevendo, lendo livros, ouvindo Beatles, vivendo na minha mente. É sempre agitado lá.

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Onde estão os olhos da minha infância, aqueles olhos medrosos que ela tinha há trinta anos, os olhos que me fizeram?

Annie Ernaux
I Remain in Darkness (2019).
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As lembranças ensolaradas e cheias de calor daquele verão me ajudarão a suportar o frio até a primavera.

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Minha ideia de cinema estava sempre ligada à brisa das noites de verão. Nós só víamos filmes no verão. Os filmes eram projetados em uma enorme parede branca. Eu me lembro especialmente dos filmes que tinham água. Cachoeiras, praias, fundo do mar, rios e nascentes.

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A infância deixou marcas com as quais eu não sei o que fazer. Nos dias tranquilos, digo a mim mesmo que é dela que eu tiro minha força e minha sensibilidade. Quando encaro o fundo da garrafa vazia, vejo nela a causa de minha incapacidade de me adaptar ao mundo.

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Sinto-me triste como um restaurante de estrada vazio no inverno. É sempre a mesma coisa no dia do meu aniversário: uma pesada melancolia abate-se sobre mim como uma chuva tropical cada vez que eu penso de novo em Papai, em Mamãe, nos colegas e naquela festa eterna ao redor de um crocodilo estripado no fundo do jardim...

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