Poemas de Amor que Chega Arrepia
ALÉM DA DOR
Por mais densas que sejam as névoas que se interpõem entre ti e a claridade dos dias, lembra-te de que, além delas, a harmonia divina sustenta o universo em silencioso equilíbrio. Nada é desordem na Criação — o que parece caos é apenas parte de uma sinfonia que ainda não compreendes por inteiro.
As cores vivas da esperança e da alegria não nascem fora de ti: germinam primeiro no campo interior da alma. Aprende, pois, a vê-las em ti mesmo, e o mundo refletirá o brilho do teu olhar pacificado.
Não te detenhas nas sombras dos que te julgam ou te ferem. Preocupa-te, antes, em conservar o coração livre de ressentimentos, porque o rancor é a febre da alma que adoece o corpo e entorpece o espírito. O perdão, ao contrário, é a higiene moral que restaura o equilíbrio e reconstrói a saúde interior.
Quem ama verdadeiramente ultrapassa as fronteiras do ego, e encontra, no gesto simples de compreender, o segredo da serenidade. Se alguém não te estima, não te amargures: cada um projeta no outro o que ainda traz em si. Tu, porém, nasceste para aprender a amar — e o amor é a mais alta escola da evolução.
Não te iludas: a tarefa é árdua, mas profundamente libertadora. Cada vez que renuncias ao revide, uma nova luz se acende em ti. As vozes que te acusam hoje, amanhã se calarão diante da força silenciosa do bem que praticas.
Segue, pois, fazendo o bem sem interrogações. A dor é uma névoa passageira, mas o amor é o sol eterno que jamais se apaga.
Muita paz e que tua luz brilhe sem pressa, mas com verdade.
“Quando o Mármore Respira”
- Camille Marie Monfort.
A noite se desdobrou sobre o cemitério como um véu de penumbra.
As árvores — velhas sentinelas balançavam suas copas como se quisessem abençoar ou advertir o homem que caminhava sem rumo.
Joseph trazia nas mãos um círio aceso. A chama, tímida, tremia — como se reconhecesse o frio que saía das tumbas.
Parou diante da lápide de Camille.
O nome dela — Camille Marie Monfort parecia gravado não em pedra, mas em sua própria consciência.
Sentou-se. O vento lhe tocou o rosto como um hálito que vem de dentro da terra.
— Camille… — murmurou — se foste tu quem morreu, por que sou eu quem não vive?
O círio oscilou.
Um perfume leve, impossível de identificar, espalhou-se no ar.
Não era de flor era de lembrança.
Então ele ouviu ou julgou ouvir uma voz.
Suave, distante, atravessando o tempo:
“Joseph… tu não me mataste. Apenas esqueceste que o amor, quando não cabe na terra, precisa aprender a ser silêncio.”
Joseph estremeceu. As lágrimas, frias, desciam como se fossem do túmulo para os seus olhos.
A voz continuou, agora mais perto:
“Foste tu quem me libertou do peso do corpo, mas foste também quem me prendeu ao eco do teu arrependimento. Não chores por mim — chora por ti, que ainda não sabes morrer o suficiente para me encontrar.”
Ele caiu de joelhos, com o círio apagando-se entre os dedos.
O vento cessou.
Por um instante, o cemitério inteiro pareceu respirar.
Camille estava ali não como lembrança, mas como presença.
O ar se tornou denso, quase luminoso.
E Joseph, tomado de uma febre serena, sentiu que a fronteira entre o delírio e o mediúnico se desfazia.
— Camille… és tu?
— Sou o que resta de ti, Joseph.
O homem sorriu, num gesto de quem reconhece a própria condenação.
E o silêncio os envolveu não como fim, mas como pacto.
“O Círio e o Espelho”
Será que fui eu, Camille, quem te matou?
Ou foste tu quem morreu de mim — exausta das sombras que te dei por abrigo?
O sangue que escorreu em meu pulso era o mesmo que um dia te alimentou no beijo.
E, quando o frio tocou a tua pele, foi a minha febre que te cobriu.
Sim, talvez eu tenha te assassinado,
não com ferro,
mas com a insistência de querer-te além da carne,
com o desejo que te prendeu ao silêncio do meu delírio.
No espelho do teu túmulo, vejo o reflexo que me acusa —
e é o meu próprio rosto.
O assassino e o morto dividem o mesmo corpo,
a mesma lembrança,
a mesma culpa.
Porque, no fim, amor e morte são irmãos e eu, Joseph, sou o órfão de ambos.
Você conhece a história do "Cisne Negro", Elizabeth Taylor Greenfield?
Nascida na escravidão em algum momento entre 1818-1826 em Natchez, Mississippi, Elizabeth Taylor Greenfield tinha poucos motivos para sonhar com a vida que eventualmente se tornaria sua. Por causa de uma série de circunstâncias improváveis e seus próprios esforços incansáveis, ela acabaria se tornando conhecida como a primeira cantora afro-americana a ganhar reconhecimento na Europa e nos Estados Unidos.
Elizabeth Taylor Greenfield foi chamada de "Cisne Negro" por causa da elegância de sua voz e da graça de sua presença. Nascida escrava em Natchez, MS, ela foi libertada quando sua amante se juntou à Sociedade dos Amigos, que era contra a escravidão.
Elizabeth começou a estudar música em 1846 e, em 1854, tornou-se a primeira cantora afro-americana a se apresentar para a família real britânica.
Ela faleceu em 1876.
Gandhi, ao contemplar a vitrine repleta de bens materiais e dizer: “Estou vendo justamente tudo o que eu não preciso”, revela o grau supremo de autossuficiência moral e espiritual a que o ser humano pode chegar.
Ele não via pobreza em si mesmo, mas riqueza na simplicidade. O olhar de Gandhi não era de desejo, mas de consciência consciência de que a verdadeira liberdade não está em possuir, mas em não ser possuído.
Mensagem final.
O amor, quando vivido em sua expressão mais pura, não é um sentimento é uma decisão de alma. Gandhi decidiu amar, e por isso continua vivo, não nas estátuas, mas na consciência de quem compreende que a única revolução capaz de salvar o mundo é aquela que começa no coração humano.
Entre a Solidão e a Incompreensão.
“Existem pessoas que não reclamam da solidão mais que aquelas que as criticam. Existem mais pessoas incompreendidas que solitárias.”
Há uma diferença sutil, porém decisiva, entre estar só e não ser compreendido.
A solidão pode ser um retiro voluntário da alma que busca silêncio para florescer. Já a incompreensão é um exílio imposto — um afastamento moral que nasce quando o coração fala uma linguagem que os outros não escutam.
Muitos temem a solidão porque confundem o recolhimento com abandono.
Entretanto, há espíritos que, mesmo isolados, irradiam presença e serenidade, enquanto outros, rodeados de vozes, sentem o peso do vazio interior.
A verdadeira solidão não está na ausência de corpos próximos, mas na ausência de almas que nos compreendam.
Psicologicamente, a incompreensão toca uma ferida ancestral: o desejo de sermos aceitos como somos.
Quando o ser percebe que sua maneira de sentir é distinta, que seus valores destoam da pressa e da superficialidade do mundo, ele se recolhe não por fuga, mas por proteção da própria sensibilidade.
É nesse silêncio que o autoconhecimento floresce, e a alma aprende a encontrar em Deus o eco que faltou nos homens.
A existência nos ensina que toda alma traz experiências múltiplas, provenientes de outras existências, o que explica a diferença de maturidade espiritual entre os seres.
Muitas vezes, quem hoje é incompreendido caminha alguns passos à frente, porque já compreendeu o que os outros ainda temem enxergar.
Por isso, a solidão, para o Espírito evoluído, deixa de ser dor e se transforma em laboratório de luz interior.
A EMPATIA ENFERMA.
Há quem diga que alguns seres se comprazem em cultivar a estima da pobreza, como se nela repousasse um símbolo de virtude ou redenção. Tais observações, lançadas com a frieza das conveniências humanas, soam muitas vezes como sentenças ditas sem alma e, quando atingem o ouvido de quem sente, doem profundamente.
A dor que nasce desse julgamento não é apenas pessoal: é o reflexo da incompreensão coletiva diante das almas que sofrem em silêncio. Enquanto uns observam de longe, outros carregam, nos ombros invisíveis, o peso de mundos interiores dores que não se exibem, mas que educam.
É então que se faz clara a urgência de criarmos núcleos de esclarecimento, não sobre a miséria material, mas sobre o amor ignorado. Esse amor que ainda não aprendeu a ver o outro sem medir-lhe o valor; que não sabe servir sem exigir aplausos; que ainda confunde compaixão com piedade.
Cultuar o amor ignorado é erguer templos de consciência onde antes havia indiferença. É ensinar o coração a compreender antes de julgar, a servir antes de censurar. É abrir, no deserto moral da humanidade, o oásis do entendimento.
Porque o verdadeiro amor aquele que transcende a forma e a posse não necessita de palmas, nem de discursos. Ele apenas é, e em sendo, ilumina.
E talvez seja essa a maior riqueza que possamos distribuir: a de transformar o sofrimento em escola, a crítica em semente, e o silêncio em voz do bem.
O Grupo de Estudos Espíritas Frederico Figner e Seus Trabalhadores
Agradecemos a Deus, fonte de toda sabedoria e luz, a Allan Kardec e aos Espíritos amigos que, com benevolência e zelo, se comprazem em nos assistir. Pelo amparo que nos oferecem, temos podido conduzir com serenidade, disciplina e sincero propósito de aprendizado as atividades do Departamento de Estudos do Livro dos Espíritos, realizadas todos os domingos, às 17h50.
Nessas reuniões, buscamos compreender, com respeito e dedicação, as propostas elevadas que o Espiritismo nos apresenta, enriquecidas pelas valiosas contribuições e reflexões dos participantes, em ambiente de paz e fraternidade.
Narrativa Inspirada no Conto Sufi.
Fragmentos do Infinito.
Conta um antigo conto da tradição sufi, atribuído a diversas escolas do Oriente Médio, que a Verdade em sua pureza integral desceu à Terra e os homens não puderam contemplá-la em sua totalidade. Para que não se perdesse por completo, Deus partiu a Verdade como se fosse um espelho, e lançou seus estilhaços ao mundo.
Desde então, cada ser humano carrega em si um pequeno fragmento desse espelho divino, refletindo uma porção da Verdade, mas jamais o seu todo. Aqueles que tentam impor seu pedaço como sendo a totalidade do espelho, sem reconhecer os fragmentos que os outros portam, caem na ilusão do orgulho e da cegueira espiritual.
"Eu perdoo porque há dores maiores em mim."
Há feridas que não se veem, mas que brilham como estrelas dentro do peito. São dores antigas, silenciosas, que aprenderam a se calar para não assustar os outros. No entanto, é delas que nasce o perdão não como renúncia, mas como uma forma delicada de libertar o próprio coração.
Perdoar não é esquecer. É olhar para o outro e compreender que ele também se perdeu no caminho, talvez ferido pelas mesmas sombras que um dia nos alcançaram. Há uma nobreza secreta em quem sofre e, ainda assim, escolhe oferecer ternura.
Quando a alma amadurece, descobre que o rancor pesa mais que uma cruz. E é então que o perdão floresce, suave, quase tímido como uma flor que desabrocha no deserto. Ele não apaga a dor, mas a transforma em luz.
Eu perdoo porque compreendo. Porque sei que, se não o fizesse, seria a minha dor que me prenderia ao que já passou. E a vida é tão breve, tão urgente em sua beleza ou mesmo em sua aparente tristeza, que não merece ser gasta guardando espinhos.
Por isso, perdoo.
Não por grandeza, mas por necessidade de respirar. Porque dentro de mim, entre as cicatrizes, ainda há espaço para a pureza.
NA INTIMIDADE DA SOMBRA QUE RESTA.
"A rejeição se tornou amiga da solidão."
E assim, sem anúncio, sem ruptura visível, duas presenças tornaram-se desiguais dentro do mesmo abismo. Um ama como quem se entrega à lâmina. O outro permanece como quem apenas toca a superfície da ferida sem jamais habitá-la.
"Arrasto da amada a sua veste que se despe em tom sem prisma e em mortalha, sepultando em cova rasa a razão que preste, mas num toque suave beija o pulso, e para dentro do abismo dá-se impulso, no mesmo lábio que dá seu ósculo ao fio da navalha."
Há, nesse gesto, uma contradição que dilacera. Amar mais é cair primeiro. É sentir antes. É permanecer depois. Enquanto o outro, talvez sem culpa consciente, apenas transita. Não se fixa. Não se perde. Não se entrega ao ponto de dissolver-se.
Na escuridão íntima, tudo conduz à mesma presença ausente. Cada memória não consola, apenas reafirma. Cada silêncio não apazigua, apenas amplia. Tudo traz. Tudo leva. Como se o próprio sentir fosse uma corrente invisível que ora devolve o rosto amado, ora o arranca com violência inaudita.
E aquele que ama mais não possui refúgio. Porque mesmo quando tenta afastar-se, leva consigo o que deseja esquecer. E mesmo quando deseja esquecer, recorda com uma precisão cruel.
A rejeição, então, não fere apenas pelo afastamento. Ela fere porque revela a medida desigual do sentir. Um abismo entre dois. Um que cai. Outro que observa.
E no fundo desse abismo, não há encontro. Apenas a permanência de quem caiu primeiro e nunca mais encontrou o chão.
FELICIDADE...
" Felicidade é dar liberdade ao pássaro e se sentir feliz com isso,
felicidade é sentir a brisa que balança as folhas do oumeiro e sorrir quando ela passa pelo corpo balsamizando das fibras corporais, até as mais simples feridas deste,
é olhar o céu em plena noite escura e ao invés de sentir medo,sente-se a vontade de contar as estrelas e começando a fazer isso, não se pára mais...
felicidade?Felicidade é não dizer adeus, mas um até breve mesmo sabendo que a pessoa não irá voltar mais.
É deitar-se sobre o amor e dele registrar o ser amado,
é estar fortemente imantado no mesmo sentimento,pousar a cabeça neste amor e um ouvir as batidas dos corações dos dois até a última...
Então a felicidade é sorrir, quando na verdade se tem a vontade de chorar, mas também é a mesma,quando chorando acaba-se sorrindo.
A felicidade é muito até quando é pouca,
mas esta é mesmo a portadora da alegria até quando à damos as costas.
Nos sentidos finais das últimas respirações que se evolam nos derradeiros
suspiros de um intenso desejo de amar cada vez mais...
felicidade?
Ah... felicidade...
Deve ser a coisa mais importante a ser conquistada!
Marcelo Caetano Monteiro.
A ROSA ESCURA DA DOR.
Do Livro: Não Há Arco-íris No Meu Porão. Ano, 2025.
Autor: Marcelo Caetano Monteiro.
Todos temos dores que não pedem cura, apenas permanência.
Elas florescem no interior como uma rosa que se alimenta do próprio sangue do sentir.
Não gritam. Não suplicam. Apenas se abrem, pétala por pétala, no silêncio mais denso da consciência.
A dor que aqui habita não deseja redenção.
Ela existe como rito, como escolha íntima de quem compreendeu que certos sofrimentos não são falhas, mas revelações.
Há uma voluptuosidade secreta no padecer que se reconhece, uma dignidade austera em suportar a própria sombra sem implorar por luz.
O espírito inclina-se diante de si mesmo, não em derrota, mas em reverência.
Cada pensamento torna-se um espinho necessário, cada memória um perfume escuro que embriaga e ensina.
A alma aprende que nem toda ferida quer ser fechada, algumas precisam permanecer abertas para que a verdade respire.
Há uma doçura austera no ato de suportar-se.
Uma forma de amor que não consola, mas sustenta.
A consciência, exausta de fugir, ajoelha-se diante da própria dor e a reconhece como mestra silenciosa.
Assim floresce a rosa escura.
Não para ser admirada, mas para ser compreendida.
Não para enfeitar a vida, mas para dar-lhe gravidade.
Pois somente quem aceita sangrar em silêncio conhece a profundidade do que é existir.
PENSAR ANTES DE AGIR.
Autor: Marcelo Caetano Monteiro.
“Pensar antes de agir é o primeiro ato da razão soberana. Reagir antes de pensar é a abdicação silenciosa da consciência.”
LEITURA DO CREPÚSCULO INTERIOR.
Nas horas em que o peito se torna caverna,
e a esperança aprende a falar baixo,
há um cântico antigo que retorna,
feito bruma sobre a memória.
Não chama pelo nome,
não exige resposta,
apenas envolve,
como quem conhece a fadiga de existir.
A dor, então, se refina,
abandona o grito e escolhe o sussurro,
e o sofrimento deixa de ser castigo
para tornar-se linguagem.
Quem suporta esse instante,
sem pressa de escapar,
descobre que o abismo
também é um lugar de revelação.
E compreende que resistir
é uma forma elevada de oração,
na qual o espírito se ergue silencioso
e permanece inteiro diante da noite.
CATEDRAL DA CISÃO INTERIOR.
Há dias em que sou lâmina
há noites em que sou abismo
Em mim a razão constrói altares
logo depois o delírio os incendeia
Penso com rigor antigo
sinto com fúria primitiva
sou ordem que se ajoelha
sou caos que aprende a rezar
A lucidez ergue-se como torre
a vertigem responde como mar
uma promete sentido
a outra exige verdade
Carrego duas coroas invisíveis
uma de espinhos silenciosos
outra de luz que cega
Quando amo sou excesso
quando penso sou ruína
e no centro desse império partido
governo-me sem trono
Ainda assim caminho
pois mesmo dilacerada
a consciência avança
como dor ferida que se recusa a cair.
Autor: Marcelo Caetano Monteiro.
CAPÍTULO XX
A NOITE NUPCIAL DA CONSCIÊNCIA.
Do Livro: Não Há Arco-íris No Meu Porão.
Autor: Marcelo Caetano Monteiro.
A noite não chegou como ameaça
veio como véu.
Camille não a esperou
apenas ficou
e o escuro reconheceu nela aquilo que sempre foi seu.
Não houve testemunhas
pois toda união verdadeira acontece fora do mundo
a consciência não pediu permissão à razão
nem explicou-se à memória
ela apenas desceu até onde não havia mais nome.
O porão tornou-se câmara nupcial
não de carne mas de sentido
ali a sombra não foi negada
foi acolhida
como quem recebe enfim o rosto que sustentou a vida inteira.
Camille não lutou contra si
pois já sabia
toda guerra interior é atraso
a maturidade começa quando o eu depõe as armas
e consente em ser inteiro”
“Nessa noite não houve promessa
porque prometer é ainda temer
houve entrega
e na entrega a consciência deixou de se fragmentar
o que era dor tornou-se forma
o que era medo tornou-se escuta.
A sombra não lhe pediu absolvição
pediu presença.
Camille respondeu ficando
e ao ficar selou a união
não com palavras
mas com silêncio suficiente para sustentar o real.
Desde então ela não busca luz
pois a luz que se busca cansa
ela carrega dentro de si o escuro reconciliado
e caminha
não para fora
mas a partir do centro.
E assim a noite nupcial não termina
pois tudo o que é verdadeiro continua
e aquele que ousa unir-se a si mesmo
ergue no íntimo um reino que não desmorona jamais.
O SONHO QUE NÃO SE ENCERRA.
“Sonho realizado é somente aquele que se continua sonhando”.
Há sonhos que se quebram ao tocar o chão da conquista.
Outros morrem no instante em que recebem nome e forma.
Mas há um terceiro tipo mais antigo mais raro mais verdadeiro.
Aquele que não se satisfaz com o cumprimento.
Aquele que continua.
O sonho autêntico não busca conclusão.
Ele aceita o cumprimento apenas como passagem.
Realizar não é fechar.
É aprofundar.
Não é possuir.
É permanecer fiel.
Quando o sonho continua sonhando ele se torna caminho.
Já não depende de aplauso nem de resultado.
Ele respira no espírito como vocação silenciosa.
E transforma o viver em obra em vez de troféu.
Psicologicamente esse sonho amadurecido recusa o vazio da chegada.
Ele compreende que o sentido não está no fim mas na constância.
E que só permanece vivo aquilo que se renova no desejo consciente.
Sonhar assim exige coragem antiga.
A coragem de não declarar vitória.
De não encerrar o mistério.
De seguir adiante mesmo depois da realização.
Porque somente quem continua sonhando honra o sonho.
E faz da própria existência um gesto contínuo de fidelidade ao que chama por dentro.
E jamais se cala.
AQUELE QUE CAMINHA NO INVISÍVEL.
Caminho como quem aprende a ver novamente.
Não procuro respostas. As respostas fazem barulho.
Prefiro o silêncio. É nele que a verdade repousa como uma criança adormecida.
É estranho.
Sem querer dizer sim sou levado para fora de mim.
Na memória que não me pertence reconheço teu rosto. Reconheço como se reconhece um deserto.
Não pela aridez. Mas pela fidelidade ao essencial.
Cada lembrança é uma lâmina delicada.
Ela não corta de uma vez.
Ela ensina.
Nota a nota o tempo escreve em mim sua música severa.
Gota a gota a ausência aprende a falar.
Lágrima a lágrima descubro que amar é aceitar ser atravessado.
O infinito não grita.
Ele observa.
Parece vazio apenas para quem olha com pressa.
É pleno para quem aceita perder-se.
E assim sigo.
Mais leve porque ferido.
Mais verdadeiro porque não fugi.
Somente aquele que consente em ser tocado pelo invisível torna-se digno de guardar o eterno no coração humano.
Autor: Marcelo Caetano Monteiro.
GANÂNCIA E APRENDIZADO.
"Perguntou o ganancioso ao senhor do mundo. Senhor, tu que tudo criastes, deixa-me tomar quanto eu puder deste mundo. E o senhor respondeu. Pois não, meu filho. Vai até onde teus pés e teu desejo te levarem. Moral da história. O doente ganancioso morreu exausto de tanto andar."
Autor. Um amigo.
Comentário moral. A narrativa, simples e antiga como as parábolas que atravessam os séculos, ensina que a ganância não impõe limites a si mesma. O desejo, quando não educado pela medida e pela consciência, transforma-se em força exaustiva que consome o corpo, obscurece o espírito e converte a liberdade em cativeiro interior. O mundo não nega nada ao homem. É o próprio homem que se perde ao confundir possibilidade com necessidade e caminho com posse.
Assim, aprende-se que a verdadeira sabedoria não está em ir até onde os pés alcançam, mas em saber quando deter-se, pois somente quem domina o próprio desejo consegue caminhar sem morrer de cansaço por dentro.
Escritor:Marcelo Caetano Monteiro.
