Poema Passei para Deixar um Beijo
Não tente impedir um romancista e poeta
de acreditar no amor. Será frustrante.
Pois ele acredita que o verdadeiro sentido da vida
é o amor.
Tentar destruir o que nele foi construído
e edificado como uma fortaleza
é uma luta perdida.
Um poeta romântico vê beleza em tudo,
até nas mínimas coisas
que para muitos nem existem.
Mas para ele, na sua profunda sensibilidade,
cada detalhe abre um universo de possibilidades.
É um olhar que nasce com o sol da manhã,
como um renovo cheio de esperança.
Ele sente a vida nos sons da natureza
e se enxerga nas outras espécies
como parte do todo,
onde nada está separado.
Assim é o olhar do romancista e do poeta:
ver além dos objetos
e encontrar o sentido do existir
em sua plena totalidade.
Um só
Marcio Melo
Um dos maiores males espalhados pelo mundo
é a ideia de que todo o mal
é causado por algum demônio em particular.
São tantos demônios que destroem e consomem o mundo
que perdemos nossa identidade humana.
E agora, quando olhamos para o outro,
só conseguimos enxergar um demônio.
Marcio Melo
"Quando eu partir"
Um poeta me ensinou
que nada vai parar quando eu partir desta jornada.
Que a vida continuará como se nunca me tivesse conhecido.
A primavera virá,
e trará suas flores sem pedir licença.
O sol nascerá,
e pintará o mundo com cores que não me pertencem.
As pessoas rirão, trabalharão, chorarão,
e seguirão vivendo
como se a ausência fosse apenas vento.
Minha ausência não mudará a rotina,
não quebrará o relógio,
não alterará o fluxo da vida.
As ruas continuarão cheias,
as mesas postas,
os dias contados sem o meu nome.
Ao deixar esta vida,
o único que deixará de existir aqui serei eu.
O mundo segue.
A terra gira.
O amor e a dor trocam de lugar em outros peitos.
Nada muda.
A vida continua.
Marcio Melo
Inspiração: “Quando vier a primavera”
de Fernando Pessoa
Lugar de Mato
Marcio Melo
Eu queria ir pra um lugar
onde o vento sopra paz,
onde revoada canta alto
e o mato tem cheiro de mais.
Cheio de pássaro e terra
nos pés sem pressa de andar.
Sentado na porta da casinha de sapê,
só vendo o tempo passar.
Longe da cidade imunda,
poluída de gente vazia,
que se consome e se acaba
morrendo sem alegria.
Quero uma vida que não seja
só passagem sem sabor.
Quero erguer lembranças minhas
como quem ergue um castelo.
Um lugar onde se sonha
e o sonho vira real.
E morrer abraçado ao mato,
com a paz no coração.
Versador
De Marcio Melo
09/2023
Um versador versava versos
pra cantar sobre o amor.
Às vezes vinham em rima,
outras vinham em prosa,
e ele lançava ao vento
sem saber pra onde vão.
Com o tempo, sem perceber,
foi ficando romântico.
De tanto falar de amor,
de tanto escrever o nome,
acabou se apaixonando
pelo que ele mesmo criou.
"Rotina de um Autista na Periferia"
Por Marcio Melo
Sou prisioneiro do desespero alheio.
Onde gritos, ruídos e barulhos se misturam ao caos inflamado de uma capital inquieta, sem paz.
Me sinto fechado numa sepultura.
A miséria e a pobreza sem espírito se manifestam na bagunça, no barulho que quase sempre vira violência.
Eu, trancado no meu quarto, não saio.
Estou isolado, cercado por violências externas de pessoas transtornadas que se consomem em álcool e outras substâncias.
Sons altíssimos, sem respeito nenhum.
Eu, encolhido, me sinto exposto.
Minha mente colapsa diante do terror que vira a noite.
Só acaba quando o dia nasce.
Desgastado, exausto, me recomponho pra rotina.
Uma rotina dividida entre o pânico da tormenta da noite, que vara a madrugada,
e a responsabilidade de sobreviver ao dia.
Por amor à beleza
se prende um passarinho e cortam as pontas de suas asas.
Se arrancam as flores que crescem livremente
para decorar o ambiente —
e assim que murcham, são dispensáveis.
Por amor à beleza
aprisionam a alma livre
que agora sofre por não ter mais a liberdade.
Por amor à beleza
encobrem o natural com camadas artificiais.
Destroem em dias
o que a natureza levou décadas para gerar.
Por amor à beleza
a gente se destrói,
dando origem ao que não existe.
Ao que não é real.
Por arrogância.
Por necessidade de nos enganar.
E assim aplaudimos
a ilusão que construímos
a partir da beleza que destruímos.
Deformação
Marcio Melo
Saudade
por Marcio Melo
Saudade são pessoas.
É um tempo onde momentos vividos marcaram profundamente a vida,
com gente importante que significava tudo.
Saudade de abraços, de sorrisos.
De casa, família e amigos.
De mesa farta, de festas repletas de felicidade.
Ah, que saudade...
Só de lembrar do tempo que abriu um espaço que nunca se fechou.
Eram momentos.
E a vida é feita de momentos que valem a pena lembrar.
Ruas de terra.
O cheiro de mato molhado.
O pé de manga que eu subia, lá de cima parecia que eu estava voando.
Os tios e tias.
As brincadeiras com amigos, primos, primas, irmãos correndo.
Era uma alegria que contagiava.
Cada brincadeira era uma conquista
que ficou registrada na memória
pra um dia lembrar suspirando e chamar de saudade.
Que saudade.
Os Sonhos
por Márcio Melo
Acho que eu já disse
que sou um sonhador.
Eu acredito.
Acredito na vida, na felicidade como uma busca interior.
Acredito no amor como sentido da vida,
que o amor cura qualquer ferida.
Eu sei que já disse isso muitas vezes:
sou um sonhador.
Os sonhos são possibilidades que projetamos na alma,
e acreditar é parte da realização.
Sou sim sonhador.
E sei que sonhar não é ilusão.
Sonhos que não motivam,
que não se tornam realidade,
são projeções desistidas
de alguém que se permitiu desacreditar
e perdeu o sentido da vida.
Mas pode sim voltar a sonhar,
recuperar o sonho perdido
e se realizar.
Por isso acredito:
vale a pena sonhar.
Um lenhador ergueu seu machado contra a árvore.
Ao se dar conta do que iria fazer,
soltou o machado no chão.
Diante de tantos anos e de tanta beleza,
o lenhador abraçou a árvore centenária.
E se desculpando, jurou:
Nunca mais destruir o planeta.
Mas daquele dia em diante,
iria apenas preservar a natureza...
Marcio melo
O Sucesso do Coelho de Chapéu Amarelo.
— Todos os dias um coelho de chapéu amarelo dizia: Amanhã irei na casa do meu amigo lenhador.
Gostaria de saber se ele cortou madeira suficiente para o próximo inverno.
— Certa manhã o coelho levantou e foi chegando lá viu seu amigo lenhador deitado na cama: logo perguntou o que aconteceu com você sempre trabalhador e prestativo.
— O lenhador com os olhos abertos e cheios de lágrimas respondeu.
Coelho do Chapéu Amarelo quando você veio aqui pela última vez o sol não apareceu mais. Sendo assim as árvores não cresceram o suficiente e hoje estou sem alimento.
O coelho com o coração partido ao ver o amigo. Respondeu o Sol é o meu Chapéu tome ele de presente e que nunca mais lhe falte nada.
Pisquei os olhos, anoiteceu
Bocejei, o cabelo alvejou
Deu um pulo, a minha filha cresceu
Gargalhei, a aposentadoria chegou
Âncora e Verso
Foste âncora para no porto ancorar
Na hombridade que sinto
Vejo um alívio
Para me poder desamarrar
Da correria do tempo
Oiço o vento soprar
Escuto gestos humildes e simples
Num puro amor
Quase ninguém escuta a minha dor
Ou vê as minhas vertentes
A plainar num sonho de ser um senhor
Sonho acordado para saborear o viver
Quero ter, quero crer e quero ser
Mesmo sendo um orador
Um poeta e pintor
Pinto com a minha alma a cor
Do pensamento de um escritor
Passo e faço um pacto com Orfeu
Fazendo a emoção
Sair com grande tensão
Razão de me ver na caverna de Platão
Numa ilusão desmedida que me dá vida.
Nela me deito e semeio
Para transformar a minha força
Em fruto.
Lisboa, 23 de julho de 2026
Emanuel Andrade
Cartas que Não Enviei
Se amar fosse um erro,
eu colecionaria pecados como estrelas,
cada batida do peito uma confissão
escrita em tinta invisível.
Cada carta guarda um segredo:
o tremor da mão ao traçar teu nome,
a saudade que se disfarça de ponto final,
o “eu te amo” escondido entre as linhas
como quem tem medo de ser lido inteiro.
E eu, a mais sortuda dos errantes,
continuo escrevendo sem selo,
sem endereço, sem coragem de enviar...
porque entregar-te o coração
é o único erro que eu faria
mil vezes, sem pedir perdão.
Existem áreas da nossa vida que podem ficar estagnadas, assim como um aluno que é reprovado por muitos anos e ficou no primário escolar. Talvez seja a área relacional, financeira, profissional, espiritual ou emocional. Os muitos anos sem a resolução deste problema indica que este ser humano ainda não obteve a capacidade de assumir a responsabilidade sobre esta área, pelo que vive preso por um trauma, dor ou ferida que fora encampada de forma ingênua pela mente, o dirigindo para uma generalização capaz de paralisar a sua evolução nesta área. Assumir isto é o primeiro passo para uma mudança, pelo que os sentimentos (culpa, vergonha, raiva, ódio e etc) que se formaram a partir disto devem ser também eliminados por meio de uma ressignificação. Neste novo tempo, esta área terá prioridade de resolução, toda a energia será canalizada para que haja novos aprendizados, outros pontos de vista, mudanças precisam ser engendradas para que novos resultados aconteçam. Quando isto ocorre, uma nova energia pulsa sobre o seu corpo, uma energia capaz de atrair aquilo que sempre fora impossível, mas que agora se tornará uma realidade, tirando todo o atraso e o colocando em sintonia com o universo.
JOSÉ LUIZ DE SOUSA NETO
PSICANALISTA
Às vezes imagino um relógio que anda para trás. Os ponteiros giram devagar, desfazendo os dias, trazendo de volta momentos que já se foram. As palavras duras que disse voltam para dentro da boca. As lágrimas que caíram secam e desaparecem. O tempo, que costuma correr sem piedade, de repente obedece ao meu desejo mais secreto: voltar.
Nesse relógio invertido, eu poderia consertar erros, abraçar quem perdi, dizer “eu te amo” antes que fosse tarde. Poderia viver de novo as risadas simples, os cafés tranquilos, os sonhos que deixei dormir. Mas será que eu realmente mudaria tudo? Ou será que, no fundo, esses erros e dores são o que me trouxeram até aqui?
O relógio que anda para trás nos faz sonhar com uma segunda chance. Ele revela o quanto carregamos arrependimento no peito. No entanto, talvez a verdadeira sabedoria esteja em aceitar que o tempo só anda para frente. Os ponteiros não voltam. O que podemos fazer é olhar para trás com carinho, aprender com o que ficou e viver o agora com mais presença e menos pressa.
A droga ainda gritava como um motor enferrujado. Cada esquina trazia convite e memória. O corpo implorava. A mente sabotava.
“Só mais uma vez.”
Vocês já notaram que, no inverno, a grama é modestamente verde?
Deve ser um aviso aos poetas:
Um olhar minucioso basta.
No limite da chama esquecida,
um ponto atravessa o que restou.
Pequeno demais para a queda da vida,
longe demais de tudo que queimou.
Vilma Martins
De vez em quando…
No cair do dia, entre realidade e fantasia,
volto no tempo em um tique-taque,
com a impressão de que é mais real
a fantasia do imaginado agora
ao infinito…
De vez em quando…
Suspensa, perdida no tempo,
com o pensamento obstinado até a loucura,
no silêncio prendo a respiração.
Momento mágico!
Aprisionado em minha mente,
espaço de segundos que se perdem
na esquina da estrada do tempo…
Vilma Martins
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