Paródias de Amor
Mesmo assim... eu continuo chamando.
Meu amor não cansa, minha voz não some.
Sou o Deus que acolhe os rejeitados,
sou o Pai que conhece o teu nome.
Quantas vezes te chamei com doçura,
com voz de amor e ternura sem fim...
Como galinha que chama os pintinhos,
quis esconder-te do dia ruim.
Ele é o Juiz, o Santo Salvador,
Nós somos servos, vasos do Amor.
Não ouse sentar no trono da justiça,
Enquanto o Mestre lava pés com doçura e carícia.
Não foram os pregos que O seguraram,
Nem a força dos homens ou da dor.
Foi o amor eterno, imensurável,
Que O manteve ali, meu Salvador.
Pregos não têm esse poder,
Mas o amor tem, e Ele ficou.
Não por fraqueza, mas por promessa,
Por cada alma que Ele resgatou.
Lealdade de uma decisão
Parece que o amor traz consigo muitas alegrias, e somos nós quem nos encarregamos do sofrimento. Toda condição para amar é uma estrada para sofrer. Se rejeita, machuca e maltrata o amor, até mesmo pelo desafio de conhecer o limite do outro, entretanto, poucos aceitam o desafio de amar com o equilíbrio de quem deseja o bem, estando ou não em uma relação. Há quem entre na nossa vida sem trazer nada, mas ao sair acaba levando muito; e há quem venha para nos devolver aquilo que não tirou, sem esperar recompensa ou gratidão. Eu acredito, há muito tempo, que o amor não é um sentimento, mas uma prática que, como tal, necessita de encorajamento e disciplina, em síntese; da lealdade de uma decisão.
O amor liberta cada um de si mesmo, para ligá-lo ao outro, constitutivamente,
e possível respirar sozinho, comer à parte, dormir sem ninguém
mas não amar
é sempre em si e fora de si, o outro primeiro
O amor é esse enigma que inverte tudo
TEU AMOR
Amar você é como cear à mesa com os deuses, é provar sabores que jamais sonhei em conhecer.
Teu amor carrega a doçura angelical ao mesmo tempo a malícia ardente que caracteriza o homem.
Teu amor colore e perfuma meus dias, tempera e aquece minhas noites.
Te amar me mantém viva.
Você merece todo amor que tenta dar aos outros, mesmo quando minha voz falha ao declarar gratidão, percebo que meu desejo de cuidar excede minha capacidade de me receber amor. Reconhecer meu valor não como alguém que “uma hora vai desistir,” mas como
sujeito digno de afeto, tem sido batalha diária que contradiz a voz interna que insiste em me desmerecer.
Já entreguei meu afeto, já me doei… Hoje, sou frio, um escudo erguido para sobreviver. Doar amor a quem não valoriza é soprar feridas abertas, não deixá-las cicatrizar. Esse gelo me protege, mas deixa uma saudade aguda
do calor humano que um dia foi natural… e hoje me trai em julgamentos e abandono.
O amor em excesso não escorre, não transborda, ele pesa como um lençol molhado sobre o peito. Afeto demais vira névoa densa, cobrindo meus passos, roubando o ar onde eu queria aprender a respirar sozinho. O que era abraço vira amarra. O que era cuidado vira cárcere disfarçado de zelo.
Como posso amar alguém verdadeiramente, sendo que nem amor próprio eu tenho?
Talvez o amor ao outro comece quando eu aprender a olhar para dentro, com a mesma paciência e cuidado.
O amor-próprio não é um ponto de partida, mas uma construção que cresce, a cada gesto de cuidado e compaixão comigo mesmo.
O amor é um cavalo xucro, selvagem, ferido, em fuga. Não teme o outro, teme ser preso. Mas o amor verdadeiro chega sem rédeas, espera em silêncio, acolhe sem moldar. E o cavalo, enfim, permanece. Não porque foi domado, mas porque, livre, escolheu confiar, escolheu ficar.
O amor, em sua natureza mais crua, é um paradoxo temporal e emocional, sua verdadeira dimensão só se revela na experiência da perda. Enquanto presente, é banalizado pela rotina, negligenciado pela falsa segurança da permanência. Somente na ausência é que suas camadas mais profundas se tornam perceptíveis, como uma arquitetura invisível que só se desenha no vazio.
ENCONTROS
O amor, reflito,
apesar dos conflitos,
conduz-nos como os raios
de infinitos versos.
Fazer amor, repenso,
apesar do repouso
merecido entre espaços
de finitos verbos,
desnuda a fonte
primitiva de cada ser.
Abrem-se botões... de flores.
Desnudam-se ... corpos e estrelas
como entre versos representados por poemas.
É a poesia que se esvai em cada gesto,
rito do animal frente sua alma.
Comovem-se corpos e muitos astros
desta Via-Láctea representante de infinitos mares.
Os olhos, bem atentos, espreitam outros olhos
buscando a poesia contida em cada ato.
Jan/1993
PARTES ARRANCADAS DE MIM
(amor integrativo)
Parte complementar arrancada de mim...
Vivi como mutilada
Hora sem mãos, pés ou cabeça
Faltando-me de mim
Ah, essa parte arrancada do outro em mim...
Levada embora
Jamais retornada
Faltou-me a boca perfumada
Nunca mais beijada, nem outras encontradas
Inigualável em intimidade e emoção
Ah, essas partes arrancadas,
Multiplicadas,
Nunca preenchidas
Busca que vem de longe, de mares não navegáveis
Percebidas cedo
Encontradas
Depois perdidas em múltiplas etapas
As, essas partes do outro arrancadas de mim...
Faltas multiplicadas ao infinito
Nunca mais apartadas, nem retornadas
Ah, que falta sinto delas em mim!
2024
ELEGIA AO PRIMEIRO AMOR
(Apaixonado, arrebatadoramente apaixonado. Amante confesso e condenado)
Chuva.
Tarde.
Pôr do sol.
E versos morenos sobre a areia.
Calor.
Noite.
Lua cheia.
E um banco de jardim com dois amores.
Adolescência.
Descoberta do outro.
Beijo das mãos.
Toques de lábios carnudos.
Desnudos, os corações se apaixonam.
Como é possível?
primeira tarde
primeira noite
alma ansiosa
amor platônico
tomar conta de tudo?
Instalar-se para sempre
“feito um posseiro”
dentro do meu mundo!
(jan./1992)
