Palavras

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O universo não fala em palavras, mas em silêncios que nos convidam a escutar o infinito dentro de nós.

⁠"Uma eterna apaixonada por palavras, músicas e pessoas inteiras."

Falo com a minha sombra como se fosse confissão. Ela não responde com palavras, mas conhece meus segredos. Permanece quando todos os outros vão, como testemunha muda. Às vezes a abraço e sinto que as coisas podem voltar a ser. Outras, a empurro e desejo que se torne apenas um traço.

Há palavras que têm o peso de pedras e outras, a leveza do lenço. Escolho as que abraço como lenços, para limpar, não para ferir. Dizer pode ser armas ou remédio, prefiro a medicina. Meu vocabulário tem dias de luta e dias de trégua. Aprendo a calibrar a voz como quem regula uma balança.

O silêncio bem usado é ferramenta precisa: afina o pensamento e sutura palavras que feriram.

Minhas palavras de alerta caíram como gotas de chuva silenciosas, incapazes de alcançar aqueles que eu tentava ensinar.

O aviso final foi transmitido pelo sussurro do letreiro, piscando as palavras que estavam se formando na noite.

As palavras dos profetas estão escritas e gravadas nos muros e nos saguões, mas permanecem escondidas e sussurradas dentro dos sons do silêncio.

Acordo com a sombra de um ontem na garganta, onde palavras não ditas fermentam como feridas abertas. Seguro o silêncio entre os dentes, conto as batidas do escuro, e aprendo que a esperança às vezes nasce de uma cicatriz que respira.

Há palavras que surgem como fósforos acesos em mãos trêmulas. Acendem-se, queimam rápido, deixam cheiro de algo que foi e não volta. Guardo-as em potes de vidro para que não se apaguem por completo, e quando preciso, abro um pote e relembro o calor que um dia tive.

Há palavras que se escondem no bolso justo da memória. Aparecem só quando o corpo precisa de consolo. Algumas são duras, outras acariciam a garganta. Se pudesse, as colocaria em moldura e as olharia todas as manhãs. Seria um museu íntimo de pequenas verdades.

Quando a noite se senta ao meu lado, não falo. Ouço-a dizer o que minhas palavras não alcançam. Ela traz histórias de quem caminhou antes de mim. E entre as histórias, encontro uma trilha de volta. Sigo os passos, mesmo sem saber o destino.

As palavras que me consolam são simples e ásperas. Elas não prometem curas rápidas nem supostas verdades. Apenas nomeiam o que dói e pedem companhia. Quando as ouço, algo dentro acalma. E aprendo que companhia é forma de oração prática.

Há noites em que o céu me pede silêncio. Ele me julga sem palavras, apenas com vastidão.
Sinto minha pequena história diante do infinito. E a sensação é de humildade e alívio. Aceito o lugar que me deram no cosmos.

Se minhas palavras tocaram sua ferida, saiba que agora nossas cicatrizes conversam. Você não está só.

Escrevo porque a fala me trai. No papel, as palavras não tropeçam, elas me organizam, me protegem e me mantêm lúcido.

Minhas palavras são pedaços de um naufrágio que tento organizar na areia para que o próximo marinheiro saiba que aqui houve vida, luta e tempestade. Não são conselhos de autoajuda, são apenas as coordenadas de onde eu caí para que ninguém tropece no mesmo buraco.

Deus é um paradoxo silencioso, que insisto em crer, mesmo sem compreender, mesmo sem ter palavras para explicar.

A experiência é meu patrimônio líquido, não se perde no mercado das palavras, rende decisões melhores a cada dia.

Há orações que não tem palavras, apenas lágrimas, que Deus traduz.