Olhar
"...Então, assim ficamos, em nós apreendendo tochas,
fisgando lumiares, falando com os olhares.
E quando tudo escurecia se acendendo de um no outro..."
In Fragmento Poema do Lirismo
Carlos Daniel Dojja
EMPATIA
Preciso de outras vozes, para ressoar.
Do olhar de outros, para compartir.
E se desvelo, reconheço todo ser.
E sou mais que um eu,
Coabitado do existir.
Carlos Daniel Dojja
QUANDO TE OLHO
Ao te olhar com desflorado desejar,
Como quem amanhece tua procura,
Envaideço-me em tuas palavras vertidas,
Que se refazem teias para me cobrir,
Como se de teus laços em mim tecidos,
Eu só posso olhar-me,
Como quem em ti se clarifica.
MEU OLHAR DE TERNURA
O meu olhar revela teus pés curtos,
Tuas mãos estendidas latentes,
Por entre teus passos alargados.
O meu olhar te avista,
Fulgurante escarlate,
Vestida de rosa tule carícia.
O meu olhar te reclama,
Quando a lua se ascende no sol,
Para te clarificar instante.
O meu olhar furta ausentar-se,
Ao te mostrar repleta procura,
Na pálpebra da manhã que te advinha.
Porque o meu olhar,
Tão cheio de ti,
Na singeleza quer desvelar, tão só tua ternura.
Garimpar o Olhar da Alma
O garimpeiro ora a jazida.
O jardineiro colhe a flor da terra.
O pescador se faz rede de enlaces.
O que você faz?
- Eu avisto tempos com a sagração das palavras.
E o que lhe dizem as mesmas?
- Me ensinam a pensar silêncios e a descosturar ausências.
Então te sente bem eu nada ver de concreto?
- Tudo o que eu pressinto me será nascido ou repartido.
Mas como é nascer após já ter vindo ao mundo?
- É colher-se revelação e não ter-se assombro da existência.
Pois bem, nada temes, presumo?
- Ao contrário, receio os seres que não vêem com a alma.
Mas para que servem os olhos?
- Para elaborar estéticas.
É na alma que o olhar depura as essências.
TUA LUZ AUSÊNCIA
Quando tua luz,
sobre meu peito,
for ausência.
Eu semearei teu olhar,
em minhas mãos:
Assim ficarás em mim,
como o princípio,
do que só sei,
quando em mim, te revelo.
"... Precisei tear em tua face, meu olhar.
Costurar entre meus pés, tua andança.
Para não furtar-me de deixar em mim,
O dia em que te arquitetei na espera..."
In Fragmento Poema Quando Tateei Tua Face
"... Continuo experimentando-me,
desassossegado de vivência.
Em cada ventar, meu olhar mareado,
se traduz desague..."
Então tu sorri automaticamente ao olhar nos olhos dela e você sabe que não importa o quanto o tempo passe, ela sempre vai estar ali de alguma forma...
IMPIEDOSO:
A serenidade no olhar profundo ao horizonte
Diz-se da certeza ao incerto...
Que nos rouba à calma
A fé e o afeto
Num futuro sem nexo
Que macula a alma
Tudo que tínhamos que éramos
E nos fazia bem viver
Impiedosamente se vão
Sem deixar razão
Sem nos oferecer defesa
Por quê?
Será felicidade?
Viver infeliz num mundo “Feliz”
Ou seria mais prudente, coerente
Vencer e fazer crescer
O sonho de viver
Pra nunca, nunca mais esse monstro nefasto
Nos fazer sofrer.
A CRIANÇA QUE DORME EM MIM:
A criança que dorme em meus braços
Num ímpeto de razão fixa seu olhar ao meu
E num gesto de profunda sabedoria
Numa interrogativa surpreende-me
Eu não vou crescer?!
Ora, meu bem! Claro que sim!
E em uma rogativa - Disse-me
Em soluços...
Não deixe! Eu não quero crescer!
Tá! Mas por que meu amor?
Com feições enrijecidas, exclamou
Não quero ver você a mim morrer!
Voltou a dormir...
E sonhou eternamente criança.
FELICIDADE
Acordar cedinho e tomar o café na trempe da vovó.
Olhar para o terreiro e ver o netinho rolando no relvado.
Encontrar aquele velho livro perdido.
Um banho quentinho de gamela.
O rádio tocando a música de sua adolescência.
Calçar um sapato leve e macio.
O cão brincando com o bichano.
Quebrar o balanço no flamboyant
E o joelho ralado.
Viajar, versejar
Ser gentil.
ONTEM
Eu não tinha o palor no sorriso.
Esse rosto tísico e olhar opaco.
Às oiças tímidas.
Nem o amargor dos lábios.
