O Homem se Apaixona uma Só vez
Só se ganha uma guerra sem precisar lutar quando consegue perdoar alguém que nem sequer te pediu desculpas.
Os que só se preocupam com quem dormir, se privam da graça de descobrirem com quem valha a pena acordar.
Nunca se viu tanto maluco metido a multifacetado, cutucando o cão com vara curta, só para arregimentar confusos — à custa de uma bravura que nunca tiveram.
É tanta gente vestindo personagens como quem troca de roupa, chamando isso de “multifacetado”, quando, na verdade, é só falta de norte.
Provocam, cutucam o cão com vara curta, não por coragem, mas por necessidade de palco.
O barulho que fazem não nasce da convicção, e sim da carência de aplauso.
Alimentam-se da confusão alheia, arregimentam os perdidos, os cansados, os que já não sabem distinguir firmeza de fanfarronice.
E chamam de bravura aquilo que sempre foi medo disfarçado.
A verdadeira coragem nunca precisou de espetáculo.
Ela é silenciosa, coerente e costuma incomodar sem precisar latir nem mugir.
Já a falsa ousadia vive de risco calculado, de provocação segura, de ataques feitos sempre à sombra de alguma plateia.
No fim, não constroem nada — apenas espalham ruído.
E ruído, por mais alto que seja, nunca foi prova de força ou poder.
Só tropecei no infortúnio de tentar ser normal — e tropecei feio — até descobrir que o novo normal é se esvaziar de si mesmo.
Passei anos aparando arestas, baixando o tom das minhas convicções, suavizando minhas inquietações, rindo do que não tinha graça e silenciando o que ainda queimava por dentro.
Tudo para caber…
Caber nas expectativas.
Caber nas rodas.
Caber nos moldes invisíveis que alguém decidiu chamar de “normalidade”.
Mas há um preço alto demais em caber.
Descobri, tarde o bastante para doer e cedo o bastante para salvar, que o tal “novo normal” não é sobre equilíbrio, nem sobre convivência, nem sobre maturidade.
É sobre esvaziamento.
Esvaziar a autenticidade para evitar conflito.
Esvaziar a coragem para não incomodar.
Esvaziar a própria essência para não parecer excessivo.
E quando a gente se esvazia de si, sobra o quê?
Um corpo funcional.
Um discurso ensaiado.
Uma presença aceitável.
Mas não sobra alma.
Ser normal, nesse tempo apressado e ruidoso, parece significar ser diluído — sem arestas, sem profundidade, sem identidade que incomode.
Só que viver diluído é viver pela metade.
E ninguém nasceu para ser metade de si mesmo.
Talvez o verdadeiro infortúnio não tenha sido tropeçar.
Talvez tenha sido acreditar que a queda era culpa da minha diferença — quando, na verdade, era o chão que estava torto.
Hoje sei: não há nada de anormal em preservar quem se é.
Anormal é abdicar da própria essência para ser aplaudido por quem jamais suportaria a sua verdade inteiramente nua e crua.
Se for para tropeçar de novo, que seja tentando ser inteiro.
Porque o mundo já tem gente demais vazias de si — e cada vez menos pessoas dispostas a sustentar a própria alma.
Para ajudar a manter o aluguel das nossas cabeças em dia, só consumimos conteúdos sugeridos pelos inquilinos.
E para arrotar seletividade, demonizamos todas as mídias e tudo que eles demonizam.
Porque, para receber o aluguel da própria cabeça rigorosamente em dia, é preciso aceitarmos, sem constrangimento algum, a curadoria alheia do que vemos, lemos e ouvimos.
Consumir apenas o que nos é sugerido — não por confiança, mas por conveniência.
Assim, o pensamento não precisa se arriscar, a dúvida não incomoda e o esforço de confrontar ideias é cuidadosamente evitado.
Nesse arranjo confortável, o viés de confirmação vira feno diário: tudo que chega afirma e reafirma, e nada nos desafia.
A consciência, então, deixa de ser morada e passa a ser imóvel alugado, decorado conforme o gosto do inquilino.
O silêncio ensurdecedor da criticidade é celebrado como paz, e a repetição das mesmas narrativas é confundida com coerência.
O preço desse contrato raramente aparece na fatura mensal.
Ele se revela, pouco a pouco, na incapacidade de pensar fora do script, no medo do contraditório e na estranha aversão a qualquer verdade que exija revisão de crenças.
Afinal, quem terceiriza o que consome, cedo ou tarde, terceiriza também o que pensa — e ainda chama isso, ingênua ou descaradamente, de opinião própria.
Mas a pergunta que ainda não aprendeu a se calar é: o que será de nós quando o contrato de aluguel das nossas cabeças acabar e o inquilino levar toda a mobília embora?
Flor Maldita
Embora tivesses tu,
Pisado em solo profano
Sentia-se a alegria virginal
Que só existe em ti.
Doce pecado maléfico,
Que andas perambulando
Pelas covas do cemitério maldito
Com o mel sujo de sangue.
Ah! Carnes amáveis,
Fujam de minha presença;
Pois odeio amá-las.
Flor maldita e abstrata,
Por que corrói meus ossos e
Carnes com teus amáveis beijos?
Quem me lidera sou eu, o sentimento; só faço o que sinto vontade, só vivo o que sinto vontade, e minha razão não pode me atrapalhar nisso.
Só vai conseguir perdoar alguém se aprender a perdoar a si mesmo, perdoar o próprio ódio, a própria tristeza, o próprio orgulho.
A sociedade em que você vive só vai mudar quando você mudar, pois enquanto você não muda, nada muda. Sua mudança será uma referência para a mudança ao seu redor, e, através dela, você servirá como incentivo inconsciente para a mudança dos outros. A mudança dos outros, por sua vez, será referência para mais pessoas, e assim por diante.
Somos multiplicações da vida, e a vida se multiplica em nós; nós somos todos um só, a própria vida, ou seja, o próprio Deus, multiplicado em várias existências, que faz parte da própria existência, tudo, o Deus, a vida.
