Ninguem Mude por você
Ninguém se perde de verdade, apenas se encontra em um novo lugar e esse lugar, muitas vezes, é mais fiel à sua essência.
Sofrer não me fez forte, me fez consciente. A força veio depois, quando percebi que ninguém viria me resgatar. Foi ali que descobri que Deus não tira a dor, mas sustenta quem a carrega. E sustentar-se já é um milagre diário.
O amor de Deus é o único que não se intimida com a minha escuridão. Ele entra onde ninguém mais ousa tocar, ilumina onde nem eu quero olhar. Seu silêncio não é ausência, é cuidado que respira devagar. E nesse respiro encontro a força que não sabia possuir.
Meu coração carrega cicatrizes que não conto
a ninguém. Não por vergonha, mas porque algumas dores não cabem em palavras. Elas apenas me lembram do caminho que trilhei.
E por mais tortuoso que tenha sido,
ainda estou aqui.
Quando me olho no espelho, o reflexo traz um mapa antigo. Marcas de batalhas que ninguém viu, trilhas sem sinal. Ainda assim, há um brilho tímido como vela em igreja pequena. A esperança é um resto de luz que insiste em ser farol. Sento-me e soube que, ao menos, sei esperar.
Às vezes o perdão é uma mesa posta para ninguém. A comida está lá, mas faltam mãos para compartilhar. Fico olhando o prato vazio e aprendo sobre abandono. Algumas refeições só alimentam a memória. E ainda assim a mesa insiste em ser hospital de esperanças.
A saudade canta com uma voz que ninguém ensina, vem das feridas do tempo, e transforma ausência em uma música que dói.
Há uma guerra silenciosa em meu peito, sem plateia, sem trégua e sem ninguém para recolher os escombros das minhas derrotas diárias.
Meu silêncio não é deserto, é multidão, está lotado de tudo o que ninguém teve coragem de perguntar ou paciência de ouvir.
A vida é um mestre severo: ensinou-me que amar não retém ninguém e que promessas são apenas palavras ao vento.
Guardo um grito educado que pede licença para ecoar. Como ninguém responde, ele fez do meu peito sua morada definitiva.
Escrever é o gesto de quem já compreendeu que o grito não alcança ninguém, resta, então, converter o pavor em grafia. É usar o próprio sangue como tinta para riscar uma saída numa parede de concreto que jamais cederá aos ombros cansados. Cada frase estanca, por instantes, uma hemorragia interna que o mundo ignora enquanto exige sorrisos e produtividade. Sou o náufrago que, em vez de pedir socorro, consome os últimos fôlegos descrevendo a beleza aterradora do oceano que o afoga.
Do fundo do poço ninguém passa, mas o declínio da queda livre sirva para aprender não despencar outras vezes.
De mim...
Pra mim
Eu te vi cair, juntar teus cacos sem ferir ninguém.
Se levantar com dignidade e recomeçar.
E diante do espelho,te aplaudo.
