Nao Magoe um Alguem

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Tenho um bolso cheio de noites que não cabem no sono. Cada uma delas traz a voz de um passado que insiste em ensinar. Guardo perguntas que não ouso responder em voz alta. O corpo se cansa mas o pensamento não dorme. Há uma leve certeza de que seremos menos estranhos à vida quando aprendermos a perdoar o silêncio.

Há noites em que a cidade me parece um sopro cansado. Luzes que piscam como olhos que fingem não ver. Caminho entre rostos apressados e penso no que perdi. Perder também é aprender a medir o valor do que resta. E quando volto, minha casa me recebe com ternura de objeto amado.

A noite cultiva jardins de pequenos remorsos. Cada um deles é uma flor que não se abre. Eu passo os dedos e sinto pó de saudade. Há um perfume que lembra promessas quebradas. E continuo a regar o que não floresce apenas por costume.

Um menino de costas carrega nas mãos vazias
tudo o que não pôde salvar. O piano calado chora por dentro, o violão perdeu as cordas como quem perdeu a fé. Anjos sujos ajoelham na lama, pedindo perdão por não terem chegado a tempo. As máquinas, cansadas de pensar, aprenderam o silêncio. E mesmo assim, ao longe, a água insiste em cair, porque o mundo acaba muitas vezes, mas a vida sempre encontra um jeito de continuar descendo.

Minha voz, às vezes, é um barco que não encontra cais. Bate nas pedras do entendimento e volta vazia. Se pudesse, mudaria de mar e deixaria a costa para trás. Mas aprendi que certas correntes só ensinam a nadar melhor. E então permaneço, remando com paciência terna.

A esperança não é sempre grande, às vezes é só um suspiro. Um suspiro que segura o corpo em pé. Quando tudo parece ruir, esse sopro faz ponte. Construo com ele um caminho minúsculo, porém firme. E sigo, sabendo que minúsculo pode ser vasto.

Há um lugar onde guardo meus silêncios mais puros. É como um armário de madeira que não range. Quando tenho medo, entro ali e fecho a porta. O barulho do mundo fica distante como um inverno. E eu, reclinado, ouço uma paz que não pede provas.

As promessas antigas voltam como roupas apertadas. Tentam servir um corpo que não é mais o mesmo. Algumas chegam a machucar, outras, aquecem ainda. Aprendi a escolher quais vestir e quando renunciar. Despir-se também é forma de honestidade.

A esperança às vezes é um rascunho reaproveitado. Não tem a pompa do novo, mas carrega história. Reutilizo, retoque, e faço dela peça que serve. Nada de desperdício quando o que se tem é pouco. E o pouco, bem cuidado, chega longe.

Há um livro dentro de mim que não cabe em prateleiras. Ele tem páginas em branco e algumas escritas em lágrima. Às vezes releio a parte que traz consolo. Outras, treino as palavras que ainda não sei dizer. Escrever é aprender a traduzir a própria pele.

Quando tudo parece ruir, existe um fio invisível. Ele amarra as coisas que não queremos perder. Não se vê, mas se sente firme como corda de navio. Segurar esse fio é ato de fé pequeno e contínuo. E por ele chegamos a novas margens.

Há um tipo de alegria que não faz barulho. Ela surge como luz que atravessa fresta de cortina. Não precisa ser anunciada nem fotografada. Sente-se no corpo e age como remédio discreto. E durará além do instante.

A poesia de um gesto simples salva reputações partidas. Um olhar demorado, um silêncio que não acusa. Pequenas misericórdias costuram roupas rasgadas. A bondade costuma ser costureira de almas. E eu aprendo a valorizar cada ponto bem dado.

Sustento um pedido de socorro mudo e polido. Ele não grita para não incomodar a vizinhança, mas sua existência é um ruído ensurdecedor.

Fiz da ausência um hábito, depois um vício e, por fim, meu próprio nome. Já não sei quem eu seria se o vazio me deixasse.

Há manhãs em que não desejo o fim, apenas uma pausa na consciência, um repouso de mim mesmo e do barulho da minha mente.

Meu maior pavor não é a morte biológica, mas a morte sensorial: tornar-me um autômato que executa rotinas sem habitar a própria alma.

A vida é um mestre severo: ensinou-me que amar não retém ninguém e que promessas são apenas palavras ao vento.

Não sou um objeto quebrado, sou uma obra em reforma perpétua, tentando alinhar as peças enquanto o chão ainda treme.

Sou um pedido de socorro que se transmutou em literatura para não ser um fardo e, assim, garantir sua própria sobrevivência.