Nao Existe mal que Dure pra Sempre
Amor
Há quanto tempo me desejo, mas tinha medo do desejo porque não me reconhecia. A solidão é quando estamos perdidos de nós mesmos. Compreendo o mundo, é como uma garrafa que jogamos no oceano, é a esperança de encontrar maior riqueza além de nós, naquilo que não viveríamos se não soubéssemos usar o desejo.
Essência
Não é maravilhoso termos chulé? A natureza nos deu essa dádiva ao criar os tênis apertados, os sapatos herméticos, o futebol e as longas caminhadas. É algo para nós, já que ninguém ousou cheirar as patas de um rinoceronte, de um leão ou de um elefante. Mais que o mau hálito ou o cheiro das axilas, o chulé é um odor que se destaca. Se estamos com os pés no chão não o notamos, mas quando chega a hora de repousarmos, naquela hora que nos livramos dos sapatos, que são os nossos algozes, surge aquele aroma queijoso, lembrando o mofo, e nos sentimos em comunhão com a nossa essência. Somos animais e as nossas vidas não poderiam ser melhores. Mesmo a nudez dos pés, tão feia, não interfere nesse banquete olfativo. Fingimos nos desagradar, lavamos os pés, mas esse cheiro é ancestral. O homem pode tentar renegar a sua natureza, mas isso não é possível. O aroma do chulé veio para ficar.
Da sabedoria
Não terá o sábio consciência da sua irresponsabilidade e da sua atitude temerária ao construir uma doutrina, verdadeira receita de vida, para cristalizar o que passou por um momento na sua mente?
Poderá ele criar fórmulas e receitas para influenciar os outros quando isso só se refere a si próprio e não tem valor quando aplicado a outras pessoas?
Correrá o risco de ser chamado de ser iluminado quando não tem certeza de que a sua comida é um veneno ou um alimento?
Acreditará ser a justa medida do mundo, sendo apenas mais um bobo e frágil ser humano?
O não pensar, a tranquilidade, está atrás do pensamento. O não pensar não se sobrepõe ao pensamento, ele o acolhe.
A ponte do arco-íris
Visitamos em sonho o mundo das formigas, onde não há o sexo. As formigas se recolheram, mas daqui a dois anos vão voltar e, através da ponte do arco-íris, Bifrost, vão chegar à Terra e instalar um reinado de trilhões de seres, aniquilando toda outra forma de vida. Não há escapatória, mas os homens tentarão de tudo para descobrir um modo de sobreviver. As espaçonaves ainda não estão prontas, e a única maneira é lacrar a ponte com aço e lutar.
Pobre figura
Deus era um guri que vivia aqui em Porto Alegre. Era franzino e bobo e não imaginava o que era. Criar o universo era a sua diversão, mas não tinha ideia da profundidade e das consequências do seu ato. À medida em que o tempo passava, as coisas que criou foram se voltando contra ele mesmo. A inércia fazia com que os pensamentos malignos se acumulassem, e o mundo virou um inferno, graças à sua tendência negativa. Assim, sofreu por incontáveis eras, prisioneiro da realidade que criara. Quando ele percebeu que o mundo era apenas um reflexo dele mesmo, se viu na maior solidão que poderia haver. No entanto, como tinha criado o mundo por diversão, ele viu que era bom. Foi um empreendimento e tanto, as ideias presentes nas mais variadas formas, a repetição para que não se esquecesse da sua condição, impedindo que mergulhasse na ignorância do esquecimento, o passado construindo o presente, sempre atrasado, mas antevendo o futuro. Pobre Deus, uma criatura insignificante e perdida que já se achou o todo-poderoso.
Enxergamos o que está dentro de nós. Assim pensam os loucos, não diferenciando o interior do exterior. Eu sou um deles.
O humor é um desvio lógico. Ser engraçado é um dom divino, é a suprema inteligência. Não há fórmula para o humor. Ele acontece neste instante.
A arte é fazer uma simulação. É fingir que se sabe o que não podemos saber. Assim, se cria. Compartilhar é o segredo, é dar muito mais do que recebemos, é se doar por sermos senhores de si.
Sem história
Nada acontecia.
A noite não chegava, o dia não ia.
O sonho não sonhava, a guia não guiava.
O preto era um branco, o frio não esquentava.
A vida não vibrava, morrer era viver no tranco.
E eu aqui, sentado na eternidade,
sem as mãos, sem os pés.
Vivendo da saudade
das guirlandas e dos jacarés.
Os seres humanos não têm existência própria. Isso é fácil de perceber quando estão imóveis ou distantes, mas quando começam a falar, a sorrir, a flexionar as pernas e a tossir, somos iludidos com esse simulacro de vida.
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