Motivos de Amar uma Mulher

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Tem uma coisa estranha acontecendo dentro da minha própria casa e eu ainda não decidi se isso é amadurecimento ou algum tipo sofisticado de bug emocional. Meu marido anda em silêncio, mas não é aquele silêncio confortável de quem já dividiu tantas palavras que agora pode descansar nelas. É um silêncio que observa. Ele fala pouco, mas quando fala, solta frases que parecem ter vindo de uma reunião secreta com a própria consciência. Diz que agora percebe coisas que antes não percebia. E eu fico olhando pra ele com a sensação de que perdi o acesso à versão anterior do homem com quem eu me casei.


E aí teve o beijo.


Eu estava ali, entregue, porque quando eu amo eu não sei amar pela metade. Eu beijo como quem assina contrato sem ler as cláusulas, confiante, intensa, emocionalmente parcelada em doze vezes sem juros. Só que no meio daquele momento que, teoricamente, era pra ser nosso, eu senti. Não foi falta de toque, não foi ausência física. Foi pior. Foi ausência de presença. É como se ele estivesse ali… mas não estivesse. Como se o corpo dele tivesse comparecido, mas a mente tivesse mandado um representante.


Quando eu abri os olhos, ele estava me olhando. Não era um olhar apaixonado, nem distraído, nem sequer culpado. Era um olhar… analítico. Como se eu fosse um documentário interessante passando na televisão e ele estivesse tentando entender a narrativa. E naquele exato segundo, alguma coisa dentro de mim fez um barulho baixo, tipo vidro trincando devagar.


Eu me senti descartável.


Não descartável no sentido dramático de novela das nove, mas naquele jeito silencioso, sofisticado, quase elegante de perceber que talvez eu não esteja mais sendo vivida, só observada. E isso, pra quem sempre foi intensidade pura, é um tipo de solidão muito específica. Porque não falta alguém ali. Falta ser sentida.


E desde então eu fico tentando decifrar esse novo idioma dele. Será que ele evoluiu e eu fiquei parada? Será que ele está enxergando coisas que eu nunca quis ver? Ou será que ele simplesmente se afastou emocionalmente e agora chama isso de consciência?


O mais curioso é que ele não parece distante no sentido clássico. Ele não brigou, não sumiu, não virou outra pessoa completamente. Ele só… mudou o jeito de estar. E isso é muito mais difícil de confrontar, porque não tem um problema claro pra resolver. Tem uma sensação. E sensação não se debate, se vive.


E eu continuo aqui, meio entre o amor que eu construí e a dúvida que começou a sussurrar. Porque amar alguém que está presente é fácil. Difícil é amar alguém que começa a se retirar sem sair do lugar.


No fim das contas, talvez o maior medo não seja perdê-lo. Seja perceber que, de alguma forma, eu já comecei a perder… e ainda estou aqui, beijando alguém que me olha como se estivesse tentando entender quem eu sou.


Agora me conta, você já se sentiu assim também?

Eu confesso que achei que o destino tinha uma criatividade meio limitada. Tipo aquelas novelas que só trocam o cenário, mas o roteiro continua o mesmo drama reciclado. Porque veja só, eu ali, carregando um primeiro amor como quem carrega um troféu meio quebrado, meio sagrado, meio inútil… e de repente, sem aviso prévio, virei o primeiro amor de alguém. Assim, do nada. Como quem tropeça numa pedra e descobre que era ouro.


E olha… tem um ego ali que dá uma esticadinha gostosa. Não vou fingir humildade espiritual, não. Existe um certo charme em ser o marco zero emocional de alguém. É tipo inaugurar um coração, cortar a fita vermelha de um território desconhecido, com direito a banda tocando e tudo, ainda que a banda seja só a ansiedade tocando desafinada dentro do peito.


Mas junto com esse charme vem aquele medo inconveniente, aquele que não pede licença, só chega, senta no sofá e começa a opinar. Medo de dar errado, medo de ser só mais um capítulo repetido com personagens diferentes, medo de investir sentimentos como quem aplica dinheiro num banco que já faliu antes. Porque a gente aprende, né. Pode até demorar, pode até doer, mas aprende. Nem que seja na base do “nunca mais eu faço isso”… pra depois fazer de novo, só que com mais cautela e um pouco menos de ingenuidade.


Só que dessa vez eu fui diferente. Não fui aquela versão minha que mergulha sem saber se tem água. Eu fui com calma, quase desconfiada, quase científica, analisando cada gesto, cada silêncio, cada palavra não dita. Parecia que eu estava montando um quebra-cabeça sem saber qual imagem deveria aparecer no final. E, curiosamente, foi exatamente isso que tornou tudo mais verdadeiro. Porque não tinha fantasia suficiente pra me enganar.


E aí, quando eu menos percebi, fez sentido. Não aquele sentido cinematográfico, cheio de música alta e beijo na chuva, mas aquele sentido quieto, que se instala devagar, que não precisa provar nada pra ninguém. O amor deixou de ser incêndio e virou casa. E casa não precisa pegar fogo pra ser quente.


Hoje, olhando pra tudo isso, eu entendo que amar não é mais sobre intensidade descontrolada. Não é sobre se perder. É sobre permanecer. É sobre escolher, todos os dias, ficar. Mesmo quando é mais fácil sair, mesmo quando dá preguiça emocional, mesmo quando o outro não tá na sua melhor versão. É uma teimosia bonita, quase um pacto silencioso entre dois seres imperfeitos que decidiram não desistir tão fácil.


Não é perfeito. E ainda bem que não é. Porque perfeição não sustenta ninguém. O que sustenta é o real. E o real, minha querida, tem rachaduras, tem dias ruins, tem dúvidas… mas também tem presença. E no fim das contas, talvez seja isso que mais importa. Não ser o primeiro amor de alguém, nem o mais intenso, nem o mais inesquecível. Mas ser aquele que ficou quando tudo já não era mais novidade.

Tem gente que diz que o caráter de uma pessoa se revela nas grandes decisões da vida. Eu, particularmente, acho que se revela mesmo é no beijo. Porque ali não tem discurso bonito, não tem filtro do Instagram, não tem tempo de ensaiar frase inteligente. É só você, o outro e aquele momento meio ridículo, meio mágico, onde dois seres humanos resolvem encostar boca com boca como se isso fosse a coisa mais natural do mundo. E é. Ou deveria ser.

Agora me explica, com toda a calma do universo, como é que alguém consegue beijar de olho aberto. Não é nem uma questão de julgamento, é quase um fenômeno científico que eu gostaria de estudar. Porque pra mim, beijo de olho aberto tem uma energia de auditor fiscal emocional. A pessoa não está ali vivendo, ela está conferindo. Tipo assim, deixa eu ver se tá bom mesmo, deixa eu analisar o desempenho, deixa eu checar se isso aqui vale o investimento. E pronto, o romance virou planilha.

Eu imagino a cena e já me dá um leve desconforto. Você ali, entregue, achando que está vivendo um momento digno de trilha sonora, e do outro lado a criatura te encarando como se estivesse avaliando um produto na prateleira. Falta só puxar o celular e dar uma nota. Três estrelas, poderia ser mais envolvente, textura interessante, retorno duvidoso. Obrigada, próximo.

E não me venha com esse papo de que é curiosidade. Curiosidade a gente mata vendo série, stalkeando ex, abrindo geladeira de madrugada sem fome. No beijo, curiosidade demais vira suspeita. Porque quem está presente de verdade fecha os olhos não por obrigação, mas porque o mundo ali fora simplesmente perde a graça. É quase um desligar automático. Tipo quando você encontra um lugar confortável e nem percebe que relaxou.

Beijar de olho fechado é um voto silencioso de confiança. É tipo dizer, por alguns segundos eu não preciso ver nada, porque sentir já é suficiente. Agora, beijar de olho aberto... não sei, tem um quê de gente que não larga o controle remoto nem quando o filme já acabou. Sempre esperando algo melhor, sempre pronto pra trocar de canal.

Mas também, sendo bem honesta comigo mesma, talvez eu esteja exagerando. Talvez não seja falsidade, talvez seja só gente que ainda não aprendeu a se perder. Porque se tem uma coisa que assusta hoje em dia é justamente isso, se permitir viver algo sem supervisão, sem análise, sem garantia. Fechar os olhos virou quase um ato de coragem. E tem gente que ainda não chegou lá.

Só que eu, do alto da minha teimosia emocional e um leve drama que me acompanha desde sempre, continuo achando que quem beija de olho aberto não está completamente ali. E se não está ali, já começou errado. Porque beijo bom não é o que você vê, é o que você sente quando esquece até de existir por alguns segundos.

E se for pra viver algo pela metade, eu prefiro nem começar. Agora me diz, você também desconfia ou eu já tô criando teoria demais por causa de um beijo?

Tem uma liberdade quase escandalosa em perceber que eu não preciso ter mais nada pra finalmente ser alguma coisa. É estranho no começo, confesso. Porque a gente cresce acreditando que a vida é uma espécie de checklist infinito: quando eu tiver isso, eu viro aquilo. Quando eu conquistar aquilo outro, aí sim eu me torno alguém. E assim a gente vai adiando a própria existência, como se fosse uma estreia que nunca chega.

Eu já vivi muito tempo assim. Era sempre o próximo passo, o próximo objetivo, o próximo reconhecimento. Como se eu fosse uma obra eternamente em reforma, cercada de tapumes emocionais, esperando o dia em que alguém finalmente diria: pronto, agora sim, você está pronta pra ser você. Spoiler da vida real: ninguém vem com esse carimbo.

E um belo dia, sem fogos de artifício, sem trilha sonora épica, eu percebi uma coisa quase desconcertante: eu já sou. Do jeito que está. Com as minhas contradições, com as minhas partes meio bagunçadas, com as minhas versões que nem sempre conversam entre si. Eu já sou suficiente pra mim.

Isso não significa que eu parei de querer crescer. Eu ainda quero. Ainda tenho sonhos, metas, vontades que me puxam pra frente. Mas agora é diferente. Eu não quero ter para ser. Eu quero ter porque já sou. E isso muda tudo. Porque deixa de ser uma corrida desesperada por validação e vira um movimento mais leve, mais consciente, quase um gesto de expansão, não de compensação.

Antes, cada conquista vinha com um peso estranho, como se eu estivesse tentando provar alguma coisa pra alguém, ou pior, pra mim mesma. Agora não. Agora, se vem, é bem-vindo. Se não vem, eu continuo inteira. Olha que conceito revolucionário: eu não me desfaço na ausência.

E tem algo profundamente elegante nisso. Porque quando eu paro de me medir pelo que eu tenho, eu começo a me reconhecer pelo que eu sou. E isso ninguém tira, ninguém compra, ninguém invalida. Não depende de aplauso, de número, de status, de comparação silenciosa com a vida dos outros. É um tipo de riqueza que não aparece, mas sustenta.

O mundo vai continuar tentando vender a ideia de que falta alguma coisa. Sempre falta, segundo ele. Sempre tem um degrau a mais, uma versão melhor, uma meta mais alta. Mas eu aprendi a desconfiar dessa urgência toda. Porque, no fundo, muita gente está correndo não porque quer chegar, mas porque tem medo de parar e se encarar.

E eu parei. E me encarei. E, surpreendentemente, eu gostei do que vi.

Hoje, eu não quero acumular pra preencher. Eu não quero conquistar pra existir. Eu não quero provar pra validar. Eu só quero ser… e a partir daí, viver tudo que vier como um extra, não como uma necessidade.

Eu descobri que cultivar plantas no quintal é uma forma sofisticada de enlouquecer com elegância. Porque veja bem, enquanto tem gente colecionando problemas, eu coleciono folhas, raízes, frutos e uma esperança diária de que a vida, pelo menos ali, obedeça algum tipo de lógica. E obedece. Planta não mente. Ou ela cresce, ou ela morre. Simples, direto, quase ofensivo de tão honesto.


No meu quintal tem de quase tudo, e eu falo isso com o peito estufado de quem virou praticamente uma fazendeira de um metro quadrado. Tem fruta que eu mesma já nem lembro quem plantou, se fui eu num surto de motivação ou se foi o vento sendo mais competente que muita gente. Tem erva pra chá, e a minha querida cidreira que, diferente de certas pessoas, me acalma de verdade. Basta eu chegar perto, amassar uma folhinha e pronto, já sinto como se o mundo tivesse pedido desculpa por existir.


E o mais curioso é que cuidar dessas plantas me ensinou mais sobre a vida do que muita conversa profunda por aí. Planta não cresce no grito, não responde à pressa, não floresce porque você está ansiosa. Ela cresce no tempo dela, no silêncio dela, na teimosia dela. E eu ali, regando, observando, aprendendo a esperar, coisa que a gente detesta, mas precisa.


Tem dias que eu converso com elas, confesso. Não por achar que vão responder, mas porque, de certa forma, já respondem. Quando brota uma folha nova, quando dá fruto, quando resiste a um sol de rachar ou a uma chuva sem aviso, é como se elas dissessem bem baixinho: continua. E eu continuo.


No meio desse mundo barulhento, onde todo mundo quer tudo pra ontem e ninguém sabe direito o que está fazendo, eu vou lá pro meu quintal, sujo a mão de terra e lembro que a vida de verdade não acontece na pressa. Ela acontece ali, quietinha, crescendo sem alarde.


E no fim das contas, talvez eu nem esteja cultivando só plantas. Talvez eu esteja cultivando paciência, presença, e um tipo de felicidade que não faz barulho, mas preenche tudo.

Eu lembro de mim como quem lembra de uma versão antiga de um aplicativo que travava toda hora, mas eu insistia em usar porque tinha apego à interface bonita. Eu ali, regando lembrança morta como se fosse samambaia de vó, achando que bastava um pouquinho mais de atenção, um pouquinho mais de pensamento antes de dormir, que aquilo ia brotar de novo. E olha que interessante, eu sabia. Lá no fundo, naquele cantinho que a gente evita acender a luz, eu sabia que já não tinha vida. Mas mesmo assim, eu insistia. Porque aceitar o fim exige uma coragem que, às vezes, a gente só descobre depois de se cansar muito.


E eu me cansava. Me cansava de revisitar os mesmos diálogos como quem reassiste um filme esperando um final alternativo que nunca vem. Cada palavra dita virava material de estudo, quase uma tese emocional. Eu ampliava segundos como se fossem capítulos, transformava encontros curtos em histórias épicas, dignas de um diário que, coitado, carregava mais ficção do que realidade. E sim, as conversas existiram, os momentos aconteceram. Mas o que eu fiz com eles… ah, isso já era outra coisa. Eu peguei migalhas e montei um banquete imaginário.


E teve o dia do incêndio. Porque toda mulher intensa já teve um momento meio dramático de querer apagar a própria história como se fosse possível dar “delete” no que já foi sentido. Eu queimei aquele diário como quem faz um ritual de libertação, esperando que a fumaça levasse junto o que ainda pesava em mim. Não levou. Porque o problema nunca foi o papel, era o apego. Era a necessidade de continuar alimentando algo que já tinha acabado, mas que dentro de mim ainda encontrava espaço, palco, roteiro.


A dor, no fundo, era repetição. Não era nem sobre ele mais. Era sobre mim insistindo, revisitando, reabrindo uma porta que já estava fechada há muito tempo. Eu sofria não pela despedida em si, mas por não aceitar que ela já tinha acontecido. E é curioso como a mente é criativa quando o coração está resistente. Eu criava futuros inteiros com base em lembranças mínimas, como quem vê um trailer e já escreve o filme inteiro. Só que o filme nunca foi produzido.


Até que veio o ponto de ruptura. Não aquele bonito, cinematográfico, com trilha sonora e vento no cabelo. Foi um cansaço seco. Um basta silencioso. Eu escrevi. Mas dessa vez não foi para mim, não foi para o diário, não foi para alimentar a história. Foi para entregar. Para colocar um ponto final fora da minha cabeça. E quando eu fiz isso, algo mudou de lugar. Não foi imediato, não foi mágico, mas foi verdadeiro. Pela primeira vez, eu não estava mais segurando nada.


E aí veio a paz. Não aquela eufórica, não aquela de propaganda de margarina. Uma paz simples, quase tímida. De quem acorda e percebe que já não revisita mais o passado antes de escovar os dentes. De quem lembra sem doer. De quem entende que sentir não foi erro, mas permanecer presa naquilo teria sido.


Hoje eu olho para tudo isso com um respeito enorme por mim mesma. Porque não foi fácil sair desse ciclo quase poético e extremamente cruel. Mas eu saí. E sair não significou esquecer, significou parar de alimentar. Porque lembrança, quando não é regada, vira só memória. E memória não machuca, ela só existe.


E no fim, escrever foi a minha libertação. Não como fuga, mas como conclusão. Eu não escrevi para reviver, eu escrevi para encerrar. E quando eu finalmente parei de contar a mesma história, eu percebi que tinha espaço para viver outras.


Se você ainda está aí, regando o que já não cresce, talvez não seja falta de amor. Talvez seja só falta de coragem de aceitar o fim. Mas quando essa coragem chega, mesmo que cansada, ela muda tudo.

Eu tenho uma espécie de vício silencioso que ninguém diagnostica, mas eu sinto todos os dias: olhar pro céu. Não é nem olhar, é encarar mesmo, como quem procura resposta num lugar que nunca prometeu nada. E ainda assim, entrega tudo. É curioso isso… o céu não cobra, não julga, não pede senha, não trava acesso. Ele só está ali, aberto, escancarado, como se dissesse: “se vira aí com o que você sente”.


E eu me viro.


Tem dia que eu olho e penso que a vida podia ser mais simples, tipo o vento passando entre as árvores, sem reunião, sem boleto, sem gente complicada. O ar entra no pulmão como se fosse um abraço invisível, desses que ninguém vê, mas muda tudo por dentro. E eu fico ali, respirando como se estivesse reaprendendo a existir. Porque no fundo, viver mesmo é isso: perceber que você está viva enquanto o mundo continua sem precisar de você.


A natureza tem esse talento meio debochado de continuar linda mesmo quando a gente tá um caos. A árvore não entra em crise existencial porque perdeu uma folha. O rio não faz drama porque tem pedra no caminho. E eu? Eu já quis surtar porque o Wi-Fi caiu. É humilhante.


Mas aí eu sento, olho pro céu de novo, e lembro que tem coisas que simplesmente seguem. O vento não pede licença pra tocar meu rosto, o sol não pergunta se pode nascer, e os pássaros… ah, os pássaros não fazem planejamento estratégico pra voar. Eles só vão.


E talvez seja isso que me prende tanto nesse ritual de observar tudo: a natureza não tenta ser nada além do que é. E eu, no meio disso tudo, tentando entender quem eu sou, acabo encontrando pequenos pedaços de resposta no barulho das folhas, no cheiro da terra, no silêncio entre um pensamento e outro.


No final das contas, eu acho que não é só sobre gostar do céu. É sobre precisar dele. Como quem precisa lembrar que existe algo maior, mais leve, mais livre… e que talvez eu também possa ser assim, pelo menos um pouquinho.


Agora me conta… você também para pra sentir isso tudo ou tá só sobrevivendo no automático?

Escrever, para mim, deixou de ser um capricho bonito de quem gosta de palavras e virou uma necessidade quase fisiológica, tipo respirar depois de subir uma ladeira enorme no sol do meio-dia. Eu estava há tanto tempo inspirando o mesmo ar pesado, reciclado pelas minhas próprias memórias, que quando finalmente escrevi, foi como escancarar uma janela e descobrir que o mundo ainda tinha vento. E não aquele vento dramático de novela, não. Um vento simples, honesto, que não promete nada além de movimento. E, naquele momento, movimento já era tudo que eu precisava.


O curioso é que eu não escrevi esperando resposta. Nem dele, nem da vida, nem do universo conspirador que a gente gosta de culpar quando está carente. Eu escrevi para me ouvir. Porque até então, eu estava cheia de vozes dentro de mim, menos a minha. Era lembrança falando alto, era saudade fazendo discurso, era ilusão pedindo mais um capítulo. E eu, coitada, só anotando, achando que aquilo era verdade absoluta. Quando eu finalmente me escutei de verdade, sem maquiagem emocional, sem aquele filtro poético que transforma sofrimento em obra-prima… foi desconfortável. Mas também foi libertador. Porque ali não tinha mais para onde fugir. Era só eu comigo mesma, sem plateia, sem roteiro, sem desculpa.


E a tal da lucidez… ah, essa não bate na porta, não pede licença, não manda mensagem antes. Ela entra como quem já mora ali há anos e só estava esperando eu parar de fazer barulho para se manifestar. E quando ela chega, desmonta tudo. Derruba cenários, apaga luzes, desmonta personagens. Aquilo que antes parecia gigante, intenso, insubstituível… vira só o que sempre foi: um capítulo. Importante, sim. Mas não eterno.


E é aí que entra a parte que mais assusta e mais alivia ao mesmo tempo: esquecer não é apagar. Eu não virei uma versão fria, sem memória, sem história. Eu virei alguém que olha para trás sem sentir aquele aperto no peito que parecia um lembrete constante de que algo estava inacabado. Não estava. Nunca esteve. Eu só demorei para aceitar que já tinha acabado há muito tempo. A gente sofre mais tentando reescrever o passado do que vivendo o presente. Porque o passado, minha querida, não aceita edição. No máximo, interpretação.


E essa lembrança… a ceia na casa da avó. Olha que cena sutilmente dolorosa. Um convite que parecia simples, mas que carregava um mundo inteiro de significado. E eu recusando. Não por falta de vontade, mas por excesso de consciência. Eu sabia que não cabia ali. E olha a maturidade disfarçada de tristeza. Às vezes, crescer é exatamente isso: reconhecer onde a gente não pertence, mesmo quando o coração quer dar um jeitinho de se encaixar.


Aquele abraço final, as lágrimas sendo enxugadas com uma delicadeza quase contraditória… como se o gesto dissesse “eu me importo”, enquanto a realidade gritava “mas não o suficiente para ficar”. E tudo bem. Porque naquele momento, sem perceber totalmente, eu já estava me despedindo de verdade. Não só dele, mas da versão de mim que ainda insistia.


E a vida, com seu humor meio irônico, meio genial, seguiu. Quase dois anos depois, eu casei. Escrevi uma nova história. Mas dessa vez, não foi sozinha. Não foi baseada em suposições, nem alimentada por silêncios interpretados. Foi construída. Tijolo por tijolo, dia após dia, com alguém que estava ali de verdade, não só na minha imaginação.


E isso muda tudo.


Porque no fim, não foi sobre esquecer alguém. Foi sobre parar de sofrer por algo que já não existia e abrir espaço para o que podia existir. Eu não apaguei o passado. Eu só parei de morar nele.


E hoje, quando eu lembro, não dói. Não pesa. Não chama. Só existe. Como uma página virada de um livro que eu não preciso reler para saber que já entendi a história.


Se você ainda está respirando esse ar pesado, talvez esteja na hora de abrir sua própria janela.

Eu descobri uma coisa simples que parece pequena, mas muda o rumo do meu dia inteiro, como quem muda a direção de um barco só girando levemente o leme. Eu acordo, ainda meio sonolenta, com aquele pensamento automático de já pegar o celular, ver o mundo, ver a vida dos outros, ver o que nem é meu… mas aí eu me lembro de mim. E paro. Só paro.

Fecho os olhos. E pronto, o espetáculo começa sem precisar de tela.

Tem o passarinho que canta como se estivesse anunciando alguma novidade urgente, que na verdade nunca chega, mas ele insiste. Tem o vento que bate nas folhas como se estivesse fofocando segredos antigos da terra. Tem um cachorro lá longe que resolve participar da orquestra sem ser convidado. Tem até o silêncio, que não é ausência de som, é um som mais profundo, mais honesto, quase tímido.

E eu fico ali, quieta, como se estivesse assistindo a vida sem interferir nela. Sem pressa, sem cobrança, sem aquela lista mental que vive me perseguindo. Só ouvindo. Só existindo. Só sendo.

É engraçado como a gente passa tanto tempo procurando paz em coisas grandes, caras, distantes… quando ela mora ali, encostada na manhã, esperando só que alguém feche os olhos e escute. Não é sobre ter tempo, é sobre escolher parar. Nem que seja um pouquinho. Nem que seja um minuto roubado da correria.

E quando eu abro os olhos de novo, o mundo continua o mesmo. Mas eu não. Eu volto mais leve, mais inteira, como se tivesse lembrado quem eu sou antes de virar obrigação.

Se eu pudesse dar um conselho, daqueles simples e teimosos, eu diria: faz isso também. Fecha os olhos de manhã e escuta. A vida fala baixo, mas fala o tempo todo. E quem aprende a ouvir… nunca mais se sente tão perdido.

LIBERTEM-SE DA ILUSÃO EMOCIONAL, PORQUE ELA É UMA PRISÃO...

Cada um de vocês pode se libertar disso. Isso não é amor; vocês amam a versão que inventaram da pessoa. Mas, se hoje fossem viver um romance, acabariam do mesmo jeito. Idealizamos aquilo que não existe mais ou aquilo que a gente acabou inventando.

Pensamos, choramos, a ponto de sentir tanta dor emocional que achamos que vamos enlouquecer. Eu passei muito tempo sofrendo assim; sonhava, mesmo sem querer pensava. É como se os ventos trouxessem memórias de nós e soprassem nos meus ouvidos, alcançando o subconsciente.

Poxa, foi aos 16 anos, e isso ainda perdurou por muito tempo.

Um dia, tive a coragem de escrever e contar tudo o que sentia, tudo o que me lastimava. Eu precisava me libertar! Nunca mais seríamos nada um para o outro, além de memória. Ele confessou também que, se fosse em outra época, talvez mais adiante, e se não tivéssemos ninguém, talvez seríamos perfeitos um para o outro e daríamos o amor que tanto não entendemos. Mas hoje nós dois seguimos nossas vidas, respeitamos nossos parceiros, e ambos resolvemos nunca mais entrar em contato.

Eu disse isso; já ele falou no silêncio. Nas desculpas por não ter percebido o quanto eu o amava, pediu perdão. Eu disse que não havia nada para perdoar e que desejava que ele fosse muito feliz em sua vida, porque ambos estamos sendo cuidados, e que assim permaneça.

Nunca mais chorei, nunca mais sofri, nunca mais pensei no que poderia ter sido. Escrever diretamente ao destinatário e abrir a alma me libertou. Nunca mais escrevi melancolias; hoje sou motivação. E, sim, ninguém esquece, a menos que soframos um colapso mental e percamos a memória. Mas a gente consegue, a partir disso, seguir a vida como se nunca tivesse se decepcionado durante todo esse tempo.

Espero que façam o mesmo e se libertem, deixando bem claro que já é passado e que tudo o que queriam era colocar para fora o que faz doer.

Eu descobri sem querer que sou uma espécie de fazendeira clandestina de mamão. Não dessas de chapéu de palha e cerca branca, mas daquelas que um dia simplesmente olham pro quintal e pensam “e se eu só… jogar isso aqui e ver no que dá?”. Foi assim, sem planejamento estratégico, sem planilha, sem tutorial de internet. Só eu, um mamão comprado no mercado e uma teimosia silenciosa que mora dentro de mim.


Joguei as sementes como quem joga um segredo no vento. Sem cerimônia. Sem promessa. E fui viver a vida, como se nada tivesse acontecido. Seis meses depois, o quintal virou uma espécie de floresta tropical em miniatura, um congresso internacional de mamoeiros, cada um erguido com aquela dignidade de quem nasceu pra dar fruto. E deram. E continuam dando. Como se tivessem combinado entre si: “vamos alimentar essa mulher até ela não aguentar mais olhar pra mamão”.


E eu colho. E cada mamão colhido não é só um fruto, é um ciclo completo, é quase uma filosofia embalada numa casca amarela. Porque dentro dele vêm novas sementes, novas possibilidades, novos começos. Eu abro o mamão e é como abrir um cofre cheio de futuros quintais. E lá vou eu de novo, jogando sementes, espalhando vida, como se fosse a coisa mais natural do mundo. E talvez seja.


Hoje eu tenho mamões infinitos. E não é exagero de quem gosta de dramatizar a própria rotina. É infinito mesmo, no sentido mais simples e mais bonito da palavra. Sempre tem mais vindo. Sempre tem mais crescendo. Sempre tem mais surgindo onde antes era só chão.


E aí eu fico pensando nesse hábito estranho que a gente tem de jogar sementes fora, como se fossem lixo, como se não carregassem dentro delas um potencial absurdo de alimentar alguém, de virar sombra, de virar sustento. É quase uma ingratidão silenciosa, um desperdício disfarçado de normalidade.


Se não tiver quintal, tudo bem. O mundo não acaba no muro de casa. Tem canteiro na rua, tem beira de rio, tem terreno esquecido que só precisa de uma chance. A cidade inteira pode ser um grande quintal disfarçado, esperando alguém com coragem suficiente pra sair plantando sem pedir permissão pra ninguém.


No fim das contas, plantar virou mais do que um hábito. Virou uma resposta. Uma resposta simples pra um mundo complicado demais. Enquanto tem gente discutindo o futuro, eu tô ali, jogando sementes no chão e confiando que alguma coisa vai nascer. E nasce. Sempre nasce.


Agora me diz, quantas florestas você já jogou no lixo hoje sem perceber?

Eu pego uma colher e misturo o céu com café morno, bolhas de sabão sobem pinheiros invertidos, bicicleta pedala para trás no espelho do banheiro. O gato mia em código Morse para o micro-ondas, que responde com pipocos de milho voando como pássaros de papel. Nuvens chovem para cima, gravidade vira piada, e o relógio derrete em forma de bolo quente. Por que o elefante usa óculos de sol no escuro? Sombras dançam tango com luzes de neon, enquanto números contam histórias de peixes voadores. A geladeira sussurra segredos de meias perdidas, o chão ondula como mar de concreto, e eu como nuvem com garfo de plástico. Fluxos de pensamentos giram em espiral, cores cantam óperas mudas, tempo estica como chiclete mastigado. Nada cola, tudo flutua em bolhas de confusão.


Mas olha só. Essa bagunça é a mente acordada: colher mexe ideias soltas, bolhas são pensamentos leves que estouram, pinheiros raízes profundas em solo instável, bicicleta impulsiona o irreal. Gato e micro-ondas, intuições aleatórias conectando mundos. Elefante no escuro, ver o invisível. Sombras e luz, dualidades dançando. Tudo faz sentido: o absurdo é o mapa da criatividade humana, onde a bobagem vira descoberta, a bagunça, clareza.

⁠Se um dia a senhora ler esta mensagem, quero que saiba o quanto a senhora foi uma inspiração em minha vida. Este pequeno texto é uma singela homenagem cheia de gratidão e alegria por tudo o que aprendi com a senhora. Muito obrigado por cada lição, professora Tânia P.

Com muito carinho e admiração, seu ex-aluno, Vitor Ferreira de Paula. 2024.

Fortaleza
Eu gosto de pensar que a verdadeira amizade é como uma criança, pura, sem preconceitos, que vê o outro como igual, brinca, abraça, cresce, se fortalece, perdura dias, meses, anos, se eterniza...
Desejo que nossa amizade cresça, não apenas com votos, que ela se fortaleça com os laços que nos aproximam, nos unem, e nos permita que nos chamemos de verdadeiros cúmplices.
Desejo que ao abrir os olhos, sempre perceba que as coisas boas estão dentro de nós, onde os desejos não precisam de razão, nem sentimentos, nem motivos, pois o importante é viver cada momento e aprender com a mínima duração de cada segundo recorrido...
Pois a vida está nos olhos de quem sabe ver, apenas sejamos cautelosos, porque muitos de nós conseva um lindo coração para um mundo não tão merecedor dele...

⁠Mosaico de uma vida

Espelho quebrado, estátua de si mesmo,
Em cada pedaço, uma imagem, uma faceta da vida,
Em cada olhar fixo, uma exposição da gema, uma visão íntima,
Ver o que não era visto, perceber o que não percebia, saber o que era sabido,
Sombras do passado, marcas do presente, mosaico de uma vida.

⁠Equilíbrio incomum...


A minha vida tem sido uma roda gigante, sempre com altos e baixos,
nesse meio termo sem base sólida existe de certa forma um equilíbrio incomum, ele vai além dos meus domínios e quando eu penso que não tenho soluções ai as coisas se assentam naturalmente e eu consigo continuar a caminhar com a mesma brisa do mar saudável que me acompanha nas minhas doces lembranças e emoções.

⁠Uma noite, um dia...

Já fui tratado como um fantasma,
me tornaram invisível por algum tempo,
o frio e as madrugadas zombavam do meu anonimato,
curiosamente a minha sombra reagiu a tudo em silêncio até que,
uma chegada repentina me trouxe uma mudança generosa e assim do dia pra noite comecei a ser acompanhado pelos olhares atentos da lua bem como fui recebido pelo sol com seus aplausos e abraços quentes,
hoje ao lado dela caminho vendo o mais belo horizonte.

Antes e depois





Antes de você o meu coração era uma densa neblina e olhando mais a fundo era escuridão,

tudo era difícil de lidar, as tentativas e erros eram medidas baseadas em manipulação, falsos julgamentos e culpa,

com você o meu coração achou o pote de ouro, a pintura da tela ficou vibrante, ficou colorida,

da tua água eu bebi, a tua compreensão eu senti, dos teus afagos me enchi, e agora, como bom "João de barro construtor" faço do meu coração uma lar para você morar.

Reconstruir

As vezes me sinto como se estivesse sozinho no pico de uma montanha coberta de neve,
Ando pelas ruas da cidade grande a noite e esbarro em algumas pessoas, mas parece que sou invisível,
Minha sombra tem sido a minha unica companheira nestes últimos tempos, os sons dos animais urbanos e os ruídos dos carros são o meu consolo, a noite apenas a Lua me escuta e me entende,
Cuidadosamente, o travesseiro tenta contar histórias boas para eu dormir, me livrando momentaneamente da insonia,
Nada melhor que um dia após o outro, diriam os antigos sábios,
Aconteceu comigo, estes dias chegaram. Recuperei o meu impeto, a minha sede de vitória e o algo mais que estava faltando, sinto a brisa do mar me alcançando, agora além da Lua, conquistei a amizade do Sol, percebo a energia positiva cobrindo o meu corpo e a minha mente, estou ressurgindo das cinzas para um novo momento, para reconstruir a minha história.

Sou eu quem te ama

Uma gota atrás da outra, foi ouvida em meio a escuridão,
Os teus passos foram se afastando, o calor dos teus dedos antes colados nos meus foram se esfriando,
A nossa história é um romance real, vou até o fim na busca de escrever um final feliz,
As duas alianças estão penduradas no meu pescoço, prometo te devolver, eu juro!
Como vou deixar você, se sou eu quem te ama?