Minha Vó
Eu sou uma acumuladora de relacionamentos que começam e terminam e não significam nada.
Eu não acredito em relacionamento. Eu acho lindo: pros meus amigos, sabe?
Se alguém lê os poemas preferidos pra mim no primeiro encontro, eu mudo de país pra nunca mais ter que encontrar essa pessoa.
Eu acho lindo que você fique feliz com pouco, mas outras pessoas às vezes precisam de mais.
Ele diz que prefere Malbec a Cabernet Sauvignon and eu finjo que entendi. Ele dorme do lado direito da cama e faz conchinha por cinco minutos pra embalar meu sono. Depois se vira com cuidado para eu não acordar. Ele me apresenta Paulo Mendes Campos e eu tento convencer ele de que a Taylor Swift é a maior compositora viva.
Não existe sequência de quatro palavras mais ridícula do que “amor da minha vida”.
Eu não me sinto mais como se eu estivesse quebrada. Eu me sinto amada. E inteira.
Essa sou eu agora. Me achando interessante de verdade pela primeira vez na vida.
Aí eu tomo um banho bem quente, pra te espantar da minha pele. E canto bem alto, pra te espantar da minha alma. E escovo minha língua bem forte, pra separar seu gosto do meu. E quase vomito, pra parir você do meu fígado. E tento ser prática e parar de suspirar. E tento abrir a geladeira sem me perguntar o que eu poderia comprar pra te agradar. E tento me vestir sem carregar a esperança de esbarrar com você por aí. E tento ouvir uma música sem lembrar que você gosta de se esfregar de lado em mim. E tento colocar uma simples calcinha e não uma bala perdida pronta pra acertar você. E tento ser só eu, simplesmente eu, novamente, sem esse morador pentelho que resolveu acampar em mim. E nada disso adianta. E o esforço pra não fazer nada disso já é fazer tudo isso.
