Minha Alma tem o Peso
Minha pele é minha dona
E eu sou presa dela.
Minha pele é mais velha do que eu
Mas eu sou mais antiga que ela.
- Não! Estou triste
Muito triste
E me permito ficar assim
Até a alegria voltar
A invadir minh'alma.
Um êxtase comedido
Move-me insolente
Espreita os meus pecados
Conduz minha mão dormente
Enterra as paredes mudas
Sabe quando a alma mente
Mas não deixo o seu domínio
Exilar-me de mim mesma
Seus olhos não me fascinam
E rio da sua destreza
Ele se vê adestrado
Disfarça-se de cúmplice meu
Olvida que ao seu lado
Eu mato quem já morreu
Reconheço minha ignorância
Mas não me conformarei enquanto não puder ajudá-la!
Ajudar a quem?
A mim ou a minha ignorância, talvez...
Ajudá-la a olhar outros olhos
Verdadeiros reflexos de quem sou
Ajudá-la a enxergar outras faces
Herdeiros do mal e do bem, do não e do sim...
Ajudá-la a desterrar as máscaras
A soberba
A preguiça
A vaidade
Ah, como a ignorância é vaidosa!
Ela se esconde em si mesma.
Sou o revés de mim mesma
Sou a mão que açoita minha solidão
Sou o pesar do desespero
Sou a vida da morte em vão.
Eu sou o inverso do início
Sou o fim do começo do precipício
Sou a incerteza da minha razão
Sou o céu azul da escuridão.
Tão belo
Que minha vontade
É prendê-lo
E sorvê-lo
Só para mim!
Mas que egoísta sou!
Tanta beleza
Não deve ficar escondida
Não deve ser retida
Não deve ser sorvida
Nem ser de um dono só!
É por mero capricho
Que não entrego-me aos teus braços
Efervescentes e ânsios da minha paixão
É por mero capricho
Que não escondo o deleite
Da janela vazia embrulhada em pedaços
Entorpecentes enganos em vão
É por mero capricho
Que esgueiro-me inteira na senda intocável
Da tua falange
Prementes encantos do não
É por mero capricho
Que espero-te às noites ensolaradas
De gasta poeira no teto, arruinada
Inclementes das cinzas do chão.
No chão
Paixão
Em vão
Não...
Se o dia não estiver bonito
Que eu o embeleze
Se a mente esquecer a oração
Que minha boca reze
Se a fagulha não insistir
Que meu fogo eleve
Se o tempo acordar ruim
Que meu corpo, greve!
(criação)
até o que eu sentia
fui eu mesma que criei
é minha própria invenção
essa dor que sinto
no fundo da alma
do meu coração
Rendo-me à minha ignorância
E à sobrepujança dos meus defeitos
Faço delas a alavanca
D’alguma esperança que vibra em meu peito.
Sonho-me como quem é criança
E troca a fiança dos próprios feitos
Ensino-me a andança
D’estranha confiança que trago no jeito.
escrevo para nada
e para o nada silencioso
e prefiro esta inutilidade da minha escrita
a ardência do fogo que queima
de dentro para fora
e precisa sair
precisa existir
precisa ganhar forma
e virar faíscas
queimadoras não de dedos
nem de olhos
mas de sentimentos pétreos
ainda cegos para a essência
ainda néscios para a diversidade
ainda impuros e contaminados
– que esta fagulha acenda
as chamas internas de todos quanto
almejam exorcizar seus próprios demônios
e ainda desconhecem meios para tal façanha!
hoje não aceitarei barganhas
e farei de mim
meu mais precioso patrimônio…
Sou mulher e minha casa quem pinta
sou eu!
Sou mulher e minha canção quem entoa
sou eu!
Sou mulher e minha estrada quem percorre
sou eu!
Sou mulher e minha sorte quem decide
sou eu!
Sou mulher e minha pele quem veste
sou eu!
Sou mulher e minha dança quem faz
sou eu!
Sou mulher e minha letra quem escreve
sou eu!
Sou mulher e minha vida quem comanda
sou eu!
perpétuos acordos insanos
entre os meus e os seus planos
sempre a zombar da minha ingratidão:
eles não conhecem os pesadelos que
cavalgam à noite
nas entranhas da última gota de suor
…
quando se conhece os olhos dela
muito cedo
quando se entende a finitude
sem rodeio
quando as suas melhores partes
são roubadas no início da estrada
quando o amálgama da dor
enlaça seu corpo numa encruzilhada
…
apontem os dedos para mim
também carrego a culpa em meus passos
três menos dois dá um
mas este um vive algemado
aos seus próprios pedaços
…
[não peço perdão
não quero ser perdoado
se eu pudesse virar o tempo
não o teria desperdiçado.
apenas me entenda!
estou implorando outra vez…]
há um poema em meu armário
vou catá-lo
e vestir seu tecido sobre minha pele
[há instantes de inexistência]
apesar das aparências
ainda estou transvestida
pelo seu olhar.
o que percebo é muito pouco. minha visão de mundo é limitada. a sua também, não se preocupe. e não tem como ser diferente, porque não temos o superpoder de estarmos em vários locais ao mesmo tempo (a internet até nos dá a ilusão de que podemos, mas a qual profundidade?).
tem gente que acha que sabe mais da minha vida do que eu. ledo engano! não há como... é realmente uma conta impossível.
só eu posso ver do meu ponto de vista a partir das minhas inúmeras experiências até aqui.
e só você pode ver do seu ponto de vista a partir das suas próprias experiências até aqui.
nisso enxergo a preciosidade dos encontros e dos diálogos, a oportunidade de conhecer universos tão diferentes e complexos (e de se deixar conhecer).
provavelmente eu morrerei sem me conhecer por inteira (e olha que sou a pessoa que mais me conhece), então, qual sentido há em alguém inferir algo a meu respeito por pouco mais de meia dúzia de palavras ditas (ou escritas)?
... o que eu queria dizer hoje é apenas uma reflexão que me cutucou mais cedo: não permita que o outro rotule você ou diga o que e quem você é.
muito fácil querer dominar o espaço e a vida alheia e fugir de si mesmo, enquanto pensa que o outro deve ser subordinado aos caprichos do seu próprio ego...
mais uma vez, repito: bom seria se houvesse respeito à beleza da diversidade!
quem sabe um dia esta utopia já não precise ser sonhada.
