Meu Amor Viajou
Carrego dentro de mim batalhas que ninguém viu, mas cada uma delas moldou meu peito como ferro aquecido, não pedi para ser forte, fui obrigado pela vida, e mesmo assim aprendi a amar no intervalo das dores, sou testemunha da minha própria ressurreição diária.
Embora estivesse imerso na minha própria dor, a verdade eu já conhecia no íntimo do meu ser, uma luz que teimava em brilhar através das nuvens da minha tristeza, o conhecimento salvífico de que Jesus morreu por mim um dia no madeiro, essa certeza da Sua entrega, do quanto sofrimento Ele suportou, era o único farol capaz de orientar meu barco em meio à tempestade, mostrando a magnitude de um amor incondicional.
Queima, Jesus. Que Teu fogo atravesse cada sombra do meu ser e transforme em cinza as raízes do ódio e da mágoa. Que o Teu sacrifício caia sobre mim como neve, imaculada, lavando tudo o que me prende. Toca-me com Tua unção mais profunda, que minhas feridas se tornem portas e minhas memórias, cânticos. No Teu amor, faz-me renascer.
As perdas ensinam a geometria do meu próprio espaço. Depois de cada saída, sobra um contorno novo do que sou. Desenho com cuidado as margens que restaram do mapa. E percebo que a estrada que me falta é também caminho. Perder é reformar a casa onde ainda cabe silêncio e canto.
A vida me endureceu, mas não permiti que me amargasse, há aço no meu peito, mas ainda há flor nas minhas mãos, eu equilibro forças.
Meu corpo já desistiu muitas vezes, mas minha alma nunca. Ela conhece caminhos que a dor não alcança. E quando tudo parece perdido, é ela que me puxa de volta ao fôlego. Esse fôlego é Deus, o resto é sobrevivência.
Alguns chamam de trauma, eu chamo de origem. É do caos que brotou meu senso de direção. Do sofrimento veio a lucidez, da rejeição veio a fome de existir. E da dor, uma estranha forma de fé.
Meu coração carrega cicatrizes que não conto
a ninguém. Não por vergonha, mas porque algumas dores não cabem em palavras. Elas apenas me lembram do caminho que trilhei.
E por mais tortuoso que tenha sido,
ainda estou aqui.
A criança que fui sussurra por debaixo do meu terno gasto, mendiga atenção entre o ruído das rotinas. Ela tem dedos que contam as horas em marcas na pele, e olhos que sabem o preço secreto de cada dia cinzento.
Meu corpo guarda mapas que o coração não entende. Há estradas marcadas a ferro por decisões alheias. Caminho por elas com cuidado para não me perder. Algumas curvas trouxeram paisagens inesperadas. E agradeço por cada uma, por mais áspera que seja.
Quando a noite se senta ao meu lado, não falo. Ouço-a dizer o que minhas palavras não alcançam. Ela traz histórias de quem caminhou antes de mim. E entre as histórias, encontro uma trilha de volta. Sigo os passos, mesmo sem saber o destino.
Eu tentei seguir, mas o vazio caminha comigo. Ele senta ao meu lado, dorme na minha cama, repete suas lembranças como uma oração torta. Seguir em frente, às vezes, é apenas aprender a carregar o peso sem deixar que ele nos destrua por completo.
Hoje, meu espírito é a Sonata nº 14 de Beethoven, primeiro movimento, não como música, mas como um luto que respira, um luto que anda comigo pelos corredores escuros da alma, onde sombras sem rosto vagam em silêncio, arrastando correntes invisíveis feitas de memórias que doem, de nomes que já não ouso pronunciar, de sonhos que apodreceram antes mesmo de aprender a nascer, e cada nota que ecoa dentro de mim não consola, apenas confirma que ainda estou aqui, inteiro por fora, em ruínas por dentro, como uma catedral abandonada onde o vento reza no lugar de Deus, e essas sombras passam por mim como se me reconhecessem, como se soubessem que pertenço ao mesmo lugar que elas, um território onde a esperança é uma palavra estrangeira e a saudade é idioma oficial, e eu caminho nesse adágio eterno com os pés feridos, carregando um coração pesado demais para ser chamado de vivo, leve demais para ser chamado de morto, apenas existindo, apenas suportando, enquanto o mundo lá fora insiste em girar como se nada estivesse quebrado, e aqui dentro tudo é escombro, tudo é noite, tudo é um piano tocado por mãos que sangram.
Graduei-me em simular estabilidade, mas meu corpo é um delator que desmente cada vírgula que minha boca ensaia.
Há uma guerra silenciosa em meu peito, sem plateia, sem trégua e sem ninguém para recolher os escombros das minhas derrotas diárias.
Meu respeito a todos os corações que, mesmo feridos, recusam-se a endurecer. Vocês são a luz do mundo.
Fiz da ausência um hábito, depois um vício e, por fim, meu próprio nome. Já não sei quem eu seria se o vazio me deixasse.
