Mentiras
A verdade se apresenta como um modelo retratado por diferentes artistas: por mais que as obras mostrem a mesma pessoa, cada pintor dará ao quadro seu toque pessoal e lhe emprestará estilo próprio, ao final do que se terá sempre múltiplas versões para uma mesma realidade; e mesmo que o tenham feito em um mesmo momento o que chega ao público nunca será igual, já que visto por diferentes ângulos conforme a posição dos retratistas. E ainda a quem depois aprecia a obra cabe interpretá-la à luz do seu próprio entendimento, abrindo um leque infinito de visões em que nenhuma expresse necessariamente a realidade do modelo. Apesar disso muita gente confunde com ela a sua versão pessoal, colocando-se pronto a destruir quem não concorde.
Por recusar-se a negar o que sabia ser verdade, Giordano Bruno morreu pela fogueira. Já Galileu Galilei, 16 anos mais tarde e pelo mesmo motivo, optou por retratar-se para não ter o mesmo destino. Ainda que minha rebeldia me aproxime mais da postura de Bruno que de Galileu, a inteligência me alerta que nenhum mártir até hoje pôde constatar por si mesmo que o idiota não era ele.
Usar de adjetivos como “verdadeiro” ou “autêntico” para se referir a um naturista não é apenas desnecessário, mas também redundante. Sua natureza, por si mesma, já o torna assim, pois todo aquele que não esconde o corpo mas não vive o naturismo não vai além de nudista.
O pior em sociedade é o doutrinamento, já que confundido com “chamada à verdade”. Mas no ensino real se entrega a chave para que o aprendiz busque a resposta por si mesmo, pois se o desejar ele o fará. Já no doutrinamento se busca transferir a crença do “correto presumido”, ilegítimo pela pretensão de que se detém a verdade, da suposta prevalência de uma crença sobre outra, e de uma imposição onde só a nossa versão é válida. Em suma, revela a arrogância de quem vê em si algo superior ao existente em todos os outros, e é isso que faz do doutrinamento um ato tão torpe.
A verdade real só é alcançada pela busca voluntária e consciente. Toda tentativa de transferi-la por osmose expõe o benefício trazido somente ao agente, e não ao seu alegado beneficiário.
A recusa em conhecer a verdade por medo das mudanças que irá impor é a mais desprezível dentre todas as covardias!
Calcula-se que menos de 10% das pessoas enfrentam a verdade tal como é, por mais assustadora ou dolorosa que se mostre. Dentre as demais, outro décimo é das que a negarão até o último de seus dias, mas nada a lamentar neste caso, já que escolheram o próprio destino. O mais triste são os 8/10 restantes de pessoas boas que se descobrirão equivocadas até aquele exato momento, mas nunca terão coragem o bastante para confessá-lo sequer a si mesmas.
A coisa mais importante que aprendi sobre a “verdade” é que sua comprovação depende muito mais do talento do argumentador de defender sua tese do que da consistência das informações que usa para tal fim. Seja pelo viés científico ou pelo das crenças, qualquer alegação pode emprestar “legitimidade” a uma tese bastando que seu defensor seja habilidoso o bastante para reunir os elementos que a sustentem, assim como encaixamos uma peça no quebra-cabeças não pelo seu formato – igual ao de outras – mas pela imagem que queremos exibir no final.
O mestre que coloca a verdade acima do que sabe não se propõe a ensinar, mas a compartilhar suas ideias e instigar o aprendiz a refletir sobre elas.
Acreditar em toda narrativa que lhe trazem pode não revelar nada sobre a verdade de alguém, mas apenas que você não é tão esperto quanto imagina!
Muitas pessoas à minha volta tomaram como verdade a existência de um deus; outras, ao contrário, assumiram sua inexistência como a lógica mais plausível. Minha pequenez, diante de algo tão grande, reagiu à posse arrogante da verdade e me sugeriu estar aberto a qualquer delas.
Não conheci nenhum “dono da Verdade” que não tratasse sua acanhada visão de mundo como realidade absoluta e incontestável.
Desejar expor a verdade a qualquer pessoa contaminada pelo radicalismo ideológico é equivalente a lecionar trigonometria a pacientes lobotomizados.
No que toca às pessoas que tenho em alta conta como honestas e verdadeiras, nada me deixa mais feliz atualmente do que ouvir delas que discordam de mim. Isso me revela que escaparam ao “triturador de cérebros”, e por enquanto ainda conseguem pensar com a própria cabeça.
Algumas pessoas que nos amam de verdade tendem a demonstrar seu amor pelo visão de suas crenças, esquecendo que o melhor presente será sempre o que o outro gostaria de ganhar, e não o que queremos oferecer. A consequência é que suas perspectivas internas acabem criando a falsa percepção de que alguns são responsáveis pela salvação de outros, quando a mais profunda expressão de amor é a do respeito a opção por diferentes caminhos, mesmo na ocorrência de um objetivo comum.
Insistimos em crenças sobre o que existe ou não existe, na vã tentativa de chancelar verdades inacessíveis a nós. Para piorar, esse homem que se acredita sábio avalia probabilidades com base no universo conhecido, desprezando o desafio que o desconhecido lhe impõe. Faz da prepotência, portanto, a sua grande barreira para romper com a própria ignorância.
Parafraseando Giordano Bruno, a verdade não muda apenas por que se acredita ou não se acredita nela. O importante é que todos têm direito à própria versão, independente de qual seja a verdadeira, e quando defendendo as nossas nos mostremos honestos em relação aos outros, e coerentes em relação a nós mesmos.
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