Me Perdoa mas eu Tentei

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Eu olho para o espelho e o que eu vejo é só uma imagem. Eu olho para as minhas pernas, mais uma imagem projetada. Os objetos são a projeção dos meus olhos.

Livre
Quando eu estou desgostoso do mundo dos mortais, me refugio no meu mundo de abstrações e formas puras. Aí fico flutuando entre as nuvens e os outros anjos, esquentando as asas na luz azul, voando com os pássaros. Eu, tão lacônico e sintético, também posso alongar o verbo e falar, falar. Posso satisfazer o desejo insaciável de novidade, de vida, daqueles que não a conhecem. A tentação é ter piedade pela ignorância do mundo, quando só cabe a compaixão de reconhecer que eu dou valor aos que não se valorizam. Assim, amargo, só posso rir das trapalhadas, do mau hálito, a barba por fazer. Sinto simpatia pelos bajuladores e os violentos. Vejo a graciosidade dos mentirosos e sem educação. Os meus irmãos são os fracos, como eu, os que a hipocrisia impede que falem, aqueles que adoram o dinheiro. Só não tenho piedade pelos loucos, porque eles estão além de todos nós, viventes de um lugar em que existe a liberdade.

O que eu tenho a dizer todos sabem, é apenas o meu jeito de me expressar.

Eu queria saber antes do começo, que é o fim. As tuas mãos são gélidas, a face horrenda. Despertas a minha compaixão.

A música das esferas


Eu vejo os músicos tocando, acariciando pequenos animais para que cantem o que está no seu íntimo. Sons prateados, resmungos acastanhados, gritos de grifos. Quem poderia se lembrar do que foi esquecido, mas, realmente, nunca olvidado?

Eu escolhi a Verdade do amor, não verdade da dor.

Eu erro muito, e muito errarei. E assim vou seguindo, com os erros que acertarei.

Caos
Tempos atrás eu tinha medo da paranoia, da sensação de que faziam coisas para me afetar e impressionar, até que descobri que era assim mesmo, tudo só existe para que eu o perceba. O que é realmente o conjunto? Percebemos que são movimentos sincronizados, como a imagem dos objetos, seus sons, o seu calor, a sua vibração. Quando percebemos esses movimentos nos iludimos ao achar que estão em sincronia e que formam um conjunto coeso, quando são apenas agrupados por um esforço da nossa imaginação. O mundo é composto por fragmentos que tentamos soldar para servir à nossa necessidade de sobrevivência. O pensamento procura criar uma história onde tudo começa e termina segundo uma ordem. Nada mais distante disso que o caos e a variedade ilimitada do Universo.

Sempre me encontro comigo mesmo nas coisas que eu já escrevi. Como pude ser tão velho e sábio anteriormente e, agora, tão jovem e curioso? Todos esses eus não dependem do tempo, estamos todos aqui.

Droga
A minha casa eu conheço há tempos. E ela sempre fica maior. Já sonhei sonhos de álcool, mas ao primeiro gole eu vi que não era nada disso, era algo deprimente até na alegria forçada. Como se eu fosse uma múmia química ganhando a consciência da minha pequenez e do enjoo misturado com a tontura. Parei por aí e deixei as drogas antes de começar a usá-las. A minha droga é a imaginação e a sensibilidade. Os sonhos que me vêm da massa de árvores verdes acinzentadas. Das manchas do teto e daquele facho de luz quando estou na cama e olho para cima e vejo que é Deus.
Sim, Deus vem toda a noite por sobre a minha cama e toma a forma de um triângulo de luz amarela, silencioso e imutável. É um raio de luz, e eu sei que é Deus. Poderia ser qualquer outra coisa, mas quando eu levanto os olhos ele se revela e fico a pensar e admirar a sua imperfeição. As noites de insônia são muito estimulantes. Eu viajo e mantenho contato telepático com a pessoa ao lado. Uma vez eu pensei que dormia ao lado de um demônio, e eu tinha razão. Que saudades do súcubo!

Eu aproveito o pouco que sei.

Agora


As pessoas vivem muito, embora só existam por um dia. Assim pensava eu, na poltrona, tentando descrever as sensações da tarde. Os ruídos da rebelião e do caos soavam lá fora e eu percebi que o ódio e a visão pessimista, que eram minhas, haviam se espalhado pelo mundo. Eu tinha medo pelo meu temperamento e aonde ele iria me levar, certamente longe daqui.
Temos apego à inércia e tememos o desconhecido. Quando a chuva fria chegou para acalmar os ânimos, parecia que Deus tinha se arrependido e procurava reverter a situação em que todos tinham perdido as estribeiras. Gritos, urros dos policiais contra a falta de dinheiro, o mundo havia deixado de ser familiar. Sentado aqui, eu examinava o funcionamento da vida. Parece que, a cada dia nascemos ao despertar e, no final, com o sono, morremos, para renascer no outro dia. Só que, ao nascer já éramos outros, melhorados. É uma bela ideia, mas, se formos humildes temos consciência da nossa ignorância. O que sabemos é que pela manhã acordamos com impressões vagas, fragmentos de sonhos, com um humor inexplicável que se manteve até agora. Temos muitos preconceitos para entender isso, e o preconceito errado: o de que eu posso antecipar e prever o que acontecerá até o fim do dia. Se nos basearmos em tudo o que sabemos, o que é muito, mas inútil, a vida começa pela manhã, transcorre pelo dia e termina quando dormimos. Isso é tudo. Mas, o que podemos saber, ao admitirmos a nossa completa ignorância? O que haverá daqui a um instante se a vida cabe num suspiro, como a gota que desgasta o rochedo?

O eu é contraditório, isso se chama de dor.

Embora eu seja senhor da minha vida, há alguém que está mais longe, que já chegou aonde eu só desconfio. Seguindo por esse caminho do desconhecimento, nem sei se chegarei há algum lugar, só vendo.

Eu vi uma nuvem branca e uma nuvem negra no céu. Ambas eram belas e mereciam a minha atenção. Quando eu as enxerguei com cuidado, a nuvem branca escureceu-se e a nuvem negra clareou-se.

A inércia é o tempo: eu levei cinquenta anos para aprender a fritar um ovo.

A melhor parte de mim nasceu do que eu observei quando era criança, depois me encheram de palavras e eu me transformei num robô.

Quando eu era criança, eu degustava a água, agora vou engolindo para matar a sede. Comer sem prestar a atenção no alimento é não se alimentar. Viver sem sentir o gosto da vida, não é viver.

Eu sou assim


Quando achamos que os pensamentos nos atrapalham, que tropeçamos no raciocínio e nas palavras, estamos enganados. Nós estamos muito além do pensamento. Nós somos o pulsar das galáxias, somos o fluxo interminável dos átomos, o choque das forças em movimento. E também a comunicação de mentes sem fim. A sombra dos astros no encontro entre a realidade e o nada.

Todos são eu. Eu os ouço vendo as nuvens que se estendem pelo céu. Eles sabem, eu sei. Posso compreendê-los enquanto adoram o infinito, posso sentir a sua música que é o saber da música que constrói a realidade. Não mais aqui o eu que não está, ele sempre estará. As fagulhas azuladas da extensão celeste se tingem de chumbo, eu vejo a hora do ocaso, ela fará tudo voltar ao começo. Lá onde está a fonte.