Me Perdoa mas eu Tentei
Tapam os ouvidos, porque o que eu digo tiram eles de um conforto velado, conseguido em detrimento do povo
Eu nem vim de mim mesmo, se querem assim saber.
Vim da sensação causada pelo ensejo. Da generosa alvorada que eriçou meus pêlos.
Tornei-me quando uma visão ampliada de mundo escancarou-se bem aqui no profundo e verteu-me em vários.
Descobri criança, de forma chocante, que eu não era eterno e que ia parar num buraco um dia. Foi quando entrei num cemitério no dia do enterro do meu tio
Escrever pra mim é uma questão de saúde -
eu confesso. Não consigo conter-me internamente de tantas reflexões que me ocorrem diariamente. E minha oralidade limitada não suporta a grande quantidade de ideias que me abarrotam a ponto de sufocar-me - assim a única maneira de limpar-me com eficácia, evitando um acúmulo depressivo, é externando tudo através da escrita.
Não tive discernimento antes quando era o que eu mais precisava pra não sofrer os atuais problemas que me atormentam
Há outros que tiveram a ideia de usar a palavra alba e a palavra atroz, mas somente eu tenho a cicatriz, como Ulisses tinha e que, por causa dela, foi reconhecido pela velha ama Euricléia. Eu tenho o acento na vogal "o" (atróz). Ainda que exista outro híbrido Alba Atroz, somente eu tenho a cicatriz, o espinho na carne, e me chamo Alba Atróz.
"Eu nasci em 1978, entre a pobreza gritante de Guaianases, extremo leste da capital. Cresci em estado de vulnerabilidade, estereotipado, pisando descalço em ruas de terra e esgoto a céu aberto, juntamente com meus seis irmãos, a sofrer, sobretudo, o abandono paterno, lutando com a mãe contra a fome, em busca das necessidades básicas, numa casa humilde, de apenas três cômodos, construída em terra de parentes que, muitas vezes, nos desconsideraram..."
A reflexiva teoria dramática que teóricos escrevem ou escreveram, muitas vezes é o que eu e meu povo vivemos diariamente...
Eu caí no mesmo, não mais distinguiram-me; deixei de ser interessante, daí virei só mais um sem traços de genialidade...
Eu fiquei defendendo o amor de forma exaustiva pra depois, já doente, perceber que meu interlocutor, com ódio, a dormir sobre a espinhosa e cruel cama do fascismo, nunca aceitará minha leve e sentida defesa...
De onde eu venho o "NÃO" é uma palavra bem conhecida, faz parte da realidade do meu povo. Gratuitamente já se nasce e se convive com ele normalmente no dia-dia - já o "SIM" sempre foi um sonho distante, quase inalcançável; algo que se precisa vencer cruéis barreiras físicas, emocionais, socioeconômicas para obtê-lo...
Às vezes me pego pensando em nós... os nós que nos unia...
Um nós que tinha planos - um nós que eu queria - um nós de uma hipótese - mas fico agora com a concretude do dia que te senti por um instante mágico e depois se desatou... se foi...
E tem ido a cada segundo pelo orifício de uma ampulheta que nos afasta a cada grão de segundo...
Alba Atróz
Previ os efeitos posteriores à minha fala - ao dizer o que eu penso consegui adeptos e opostos. Não há um agrado pleno.
