Me Perco dentro da Saudade
O mundo carece da fluência do silêncio,
essa língua antiga que não grita,
mas ensina.
Falta-lhe a pausa da fala
onde o sentido aprende a existir.
O mundo é deficiente da fluência do silêncio
porque fala demais para sentir.
Grita certezas ocas, tropeça em ruídos,
e esquece que é no silêncio
que a verdade afia as cordas vocais
e harmoniza os fonemas.
O mundo é carente da fluência do silêncio,
esse oásis onde as palavras descansam
e a alma, enfim, consegue se ouvir.
Dizer:
“Falta-lhe a fluência do silêncio.”
é uma excelente alternativa,
educada e sutil,
para o brutal:
“Cale a boca!”
✍©️@MiriamDaCosta
“Quando uma pessoa é desonesta, não importa se ganha o melhor salário do mundo ou ocupa o melhor emprego que exista: ela sempre irá roubar.”
— Anderson Silva
Ela Corria
De longe meu pai dizia: corre, corre Catarina. Ele tinha uma égua bonita e forte. Não daria tempo dele chegar até ela para me salvar. Então eu corri, eu corria, corria, corria que parecia que voava. Aquela égua vai me matar. Se ela me pega, iria me pisar todinha. Tinha uma porteira que estava fechada e uma poça de lama na frente. Não daria tempo pra abrir, mas tinha um espaço por baixo que dava para passar. Pensei: Vou entrar por baixo, assim ela não me pega. E ela vinha brava, ia me matar.
Meu pai não tinha como correr até ela. De longe, quando ele me viu chegar com um uniforme novo da escola, ele me mandou correr. Papai tinha mandado fazer para a escolinha que eu estudava. Talvez a égua estranhou aquela roupa diferente. Ele olhou para mim e disse corre. Eu corria, corria “mas” eu corria, corria que parecia que voava. Então eu entrei por baixo, por um espaço onde eu fiquei ali quietinha.
Aquela égua era muito forte, bonita, as patas enormes. Se ela me pega, ela iria me pisar todinha. Então eu entrei por baixo e fiquei ali quietinha, até meu pai chegar. Eu ouvi essa história dezenas de vezes. Em certas ocasiões ela fazia recontar de propósito. Eu gostava de ouvir as histórias dela. É apenas uma parte, tenho certeza que outros lembram melhor que eu e, para começar, correr foi umas das ações que seus filhos e filhas, noras e netos mais fizeram nos últimos anos.
Corriam de uma cidade para outra, de um plantão para o outro. Corriam por telefonemas, corriam por mensagens, da cozinha para o quarto, da sala para vê-la na rede. Outros nunca dormiam, esperando de prontidão. Corriam quando a saturação baixava, quando a pressão aumentava, corremos muito, cada um na sua velocidade, no seu tempo, mas corriam e tudo ajudou bastante.
Alguns corriam com os pés sangrando, outros o coração mesmo, mas nunca deixaram de correr. Foram 95, quase 96 anos correndo pelos seus filhos, pela vocação ministerial do seu esposo, correndo para o jantar sair na hora certa, correndo para cuidar da casa e da família.
Tudo certo, tudo feito, “que horas são agora” era a pergunta constante por causa da visão que piorava. Correu, correu e resolveu tudo na nossa vida. Podíamos descansar porque ela corria por nós. Assim eu defini minha Avó, uma corredora. Correu pela fé que tinha, pelos seus filhos, netos e tataranetos. Deixou seu legado. Obediência. Deixou saudades.
Prosseguiu para o alvo, para o prêmio da soberana vocação de Deus em Cristo Jesus. Ela nunca deixou de ouvir seu pai em vida, por isso, seus dias foram prolongados na terra. E agora, depois de anos, o Pai das luzes lhe chama para mais uma corrida.
A corrida para aqueles que venceram e tiveram suas vestiduras lavadas no sangue do cordeiro. Enfim, eu ainda ouço aqui dentro, aquela voz que assim repetia: mas eu corria, corria, corria que parecia que voava. E enfim, você voou. Saudade não espera e não passa!
Nós não o perdemos
Nós não o perdemos, ninguém o perdeu.
Nós ganhamos o privilégio de viver 31 anos com uma pessoa maravilhosa. Ganhamos da vida a oportunidade de conhecer uma pessoa especial, e dizer que fomos felizes é pouco para descrever.
Se eu pudesse voltar no tempo para tê-lo de volta, voltaria.
Se fosse preciso renunciar a todos os títulos acadêmicos para tê-lo de volta, sem dúvida eu faria. Qualquer um de nós faria.
E, se tivesse essa alternativa, eu escolheria viver mais 31 anos de novo com ele, sem mudar nada do que foi. Tudo do mesmo jeito: os mesmos momentos bons e ruins, todos os momentos e a vida exatamente como foi. Perfeito como foi, porque não teria sido perfeito de nenhuma outra forma, se não fosse ele exatamente do jeito que é.
Hoje, esse ciclo não se encerra. Continuaremos vivendo, não apenas com tristeza, mas com o orgulho de quem o teve.
Cada lembrança, cada sorriso, cada risada, cada instante. Seu jeito, seus trejeitos, sua luta e suas vitórias não esqueceremos.
Procuro sempre olhar o lado bom das coisas e, após essa constatação do quão dolorida é a sua ausência, fica claro que viver com ele foi viver um paraíso na terra.
E o melhor de tudo é que um dia o encontraremos de novo. Ele estará feliz e ansioso para nos ver. Mas, enquanto esse dia não chega, tenho certeza de que o seu desejo é que vivêssemos bem, com a alegria que ele nos mostrou.
Espero que essas palavras encontrem paridade com o sorriso dele, mas sei que as palavras nunca serão suficientes para substituí-lo. Por isso, a melhor forma de viver neste momento é entender que a sua vida foi uma dádiva e que as nossas, por causa dele, foram privilegiadas.
Sobre este texto: não é o melhor que já escrevi, até porque nunca pensei em escrever sobre a sua despedida. Nunca pensei, porque só o amor nos faz acreditar que certas pessoas são imortais.
Meu olhar se embriaga
na poesia do pôr do sol,
que irrompe da janela
da minha cozinha
como um poema em chamas.
O céu escreve, em tons alaranjados,
os seus silêncios,
enquanto o dia se retira devagar,
com a serenidade
de quem conhece o próprio tempo.
Sobre a pia,
a louça reflete o esplendor
desse arco-íris poético.
E a minh’alma,
pincelada por essa paleta de cores,
deleita-se
num estado puro de êxtase.
E eu, inspirada,
derramo estes versos
de gratidão à Natureza,
por conceder-me
tamanha bênção.
✍©️ @MiriamDaCosta
A mesmice é cansativa,
entorpece os sentidos,
embota o olhar
e adestra a alma a repetir
gestos adormecidos
e artes anestesiadas.
É necessária a ousadia
daquela criatividade que nasce bruta,
indomada, com o sopro instintivo
da originalidade que não pede licença
nem aceita moldes.
Dizer que nada se cria, tudo se copia,
é um álibi débil,
um conforto covarde
para quem carece das prerrogativas
e da coragem da criação original.
Criar exige risco.
Exige atravessar o vazio
sem mapas, sem garantias,
com a própria voz e talento
como bússola.
✍©️@MiriamDaCosta
📸 #Pinterest
Na hora de minha dor me sinto presente em trazer alegria. Arrancar sorrisos de pessoas tristes é o que me faz contente.
estar sozinho não quer dizer, que você não tenha a capacidade de encontrar alguém, existem vários fatores. Talvez você só esteja dando um tempo, ou, assim, sozinho te faz feliz. Talvez você esteja procurando uma pessoa melhor, que tenha tudo comum com você.
"Talvez o limite esteja naquele ponto onde o cuidado com a sobrevivência deixa de ser uma ferramenta e passa a ser o senhor da nossa existência, gerando o aprisionamento"
https://www.jornadadaescrita.com.br/2026/01/quando-nada-importa-tanto-os-limites-da.html
As reações e as respostas
revelam a força
ou a fragilidade
de um caráter.
Ou a indiferença
de quem não é forte
nem frágil,
apenas
não é.
✍©️@MiriamDaCosta
Comecei a ler poesia
antes mesmo de aprender
a escrever e juntar letras.
Antes das palavras,
meu sentir já soletrava
afetos e ausências,
chegadas breves,
partidas longas,
silêncios que diziam tudo.
Antes das sílabas,
meu coração já sabia
o que doía,
o que machucava,
o que era justo,
e o que nunca foi.
Aprendi, ainda pequena,
que a poesia
não reside nos livros.
Os livros é que tentam
acolher, tardiamente,
o que a vida sussurra
no avesso dos dias.
Quando me ensinaram
a ler palavras,
eu já lia o mundo
com a alma poética
e os sentidos alfabetizados.
✍©️@MiriamDaCosta
A gentileza, o respeito e as boas maneiras
nascem onde a alma aprendeu
a ser elegante.
Não se impõem, revelam-se.
O mundo, exausto de ruídos e atropelos,
carece dessa elegância silenciosa
que não humilha, não grita, não fere.
Essas prerrogativas
são luxos raros
de almas que recusaram
a brutalidade cotidiana.
O mundo, rude e vaidoso,
confunde grosseria com força,
arrogância com poder,
e dessangra-se lentamente
por absoluta falta de elegância.
✍©️@MiriamDaCosta
