Mais que uma Mao Estendida

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Minha epifania não veio como luz.
Veio como uma porta que se abriu apenas para revelar outra fechada atrás dela.
Por alguns instantes, acreditei que a vida finalmente havia decidido me surpreender com gentileza. A notícia chegou como quem devolve o ar aos pulmões de alguém que estava se afogando. Sorri. Acreditei. Permiti-me imaginar possibilidades que eu havia enterrado há muito tempo.
Mas algumas esperanças são frágeis demais para sobreviver à verdade.
Então veio a segunda notícia.
E com ela, a compreensão cruel de que aquilo que parecia uma bênção era apenas um erro. Um equívoco. Uma felicidade enviada ao destinatário errado.
Minha epifania foi perceber que, às vezes, a pior notícia não é aquela que chega trazendo dor. É aquela que primeiro chega trazendo esperança.
Porque a dor machuca.
Mas a esperança, quando é arrancada das mãos, leva junto pedaços de nós que nem sabíamos que ainda estavam vivos.


- Tiago Scheimann

Descobri tarde demais que a liberdade não era um presente.


Era uma sentença.


Ninguém me empurrou para os erros que carrego.
Ninguém escolheu por mim os caminhos que me quebraram.


A vida apenas colocou as portas diante de mim e observou, em silêncio, enquanto eu escolhia qual delas me destruiria.


- Tiago Scheimann

Existe uma tristeza que nem as lágrimas conseguem alcançar.


Ela não grita.
Não quebra nada.
Não pede ajuda.


Apenas se senta em silêncio ao seu lado e passa a morar ali, como se sempre tivesse pertencido àquele lugar.


- Tiago Scheimann

O coração é um lugar estranho: transforma lembranças em eternidades e faz uma única ausência pesar mais do que a presença de mil pessoas.

Há orações que não saem da boca; nascem no peito como lampejos de água para uma sede antiga.

Há uma parte de mim que só se organiza quando dobra os joelhos por dentro.

Há uma estranha paz em não amar profundamente. Nada falta, porque nada realmente importa. Mas basta um único amor verdadeiro para que a existência deixe de ser tranquila e passe a ser infinita, entre o medo da perda e a certeza de que jamais se volta a ser o mesmo."

A existência é um paradoxo que ri silenciosamente da consciência humana: passamos uma vida inteira buscando respostas para perguntas que acreditávamos essenciais, apenas para descobrir que elas só encontram significado quando já não possuem a capacidade de alterar o caminho que nos trouxe até elas. Talvez a maior tragédia da lucidez seja compreender que o conhecimento nunca chegou para impedir o inevitável, mas apenas para iluminar, com dolorosa clareza, aquilo que o tempo já tornou irreversível.


- Tiago Scheimann

Há pessoas que morrem apenas uma vez. Outras precisam sobreviver ao próprio funeral todos os dias, sem que ninguém perceba.

O vazio não é o nada, é a arquitetura invisível de tudo o que nos falta. Uma presença que nos habita pelo avesso, ocupando espaço justamente por sua recusa em terminar de partir.

O tempo possui uma crueldade silenciosa: transforma as maiores tempestades em lembranças, mas nunca devolve aquilo que elas levaram.

Atravesso um campo de lama sob uma neblina espessa e uma chuva fina, fria e incessante. Pelo caminho, criaturas de asas, escamas e dentes enormes observam minha passagem. No entanto, nenhuma delas me causa medo. O verdadeiro horror não habita nesses monstros, mas na certeza de que, ao alcançar o fim do lamaçal, descubro que ele era apenas o início. E, condenado ao mesmo percurso, recomeço infinitamente uma jornada da qual jamais consigo partir.


- Tiago Scheimann

As cicatrizes são o preço de uma lucidez que ninguém desejaria comprar. Elas ensinam que viver não é permanecer intacto, mas sobreviver àquilo que tinha o poder de nos destruir.

No fim, quem atravessou a própria dor deixa de procurar o sentido da vida. Descobre, com uma melancolia irreversível, que o sentido nunca esteve na ausência do sofrimento, mas na estranha capacidade de continuar respirando depois que uma parte da alma já morreu.

Nem todo fim é uma tragédia, alguns são apenas o espaço necessário para a vida renascer.

O tempo apenas consome o ego que fazia daquela pergunta uma questão de vida ou morte. O silêncio do tempo não é esquecimento, é desapego forçado.

Há dias em que a dor não se manifesta como um grito estridente, mas como uma infiltração lenta e constante na alma. Ela vai corroendo as certezas que levamos anos para erguer, deixando no lugar apenas a poeira de um tempo que não volta mais. Ainda assim, é na solidez dessa poeira que reaprendemos a pisar para tentar nos manter de pé.


- Tiago Scheimann

​O sofrimento ensina com uma violência silenciosa que nenhuma palavra de conforto é capaz de traduzir perfeitamente. Ele arranca as nossas máscaras, desfaz nossos orgulhos e nos coloca de joelhos diante da nossa própria pequenez. É um processo devastador, mas é também a única escola onde a alma aprende a ver o essencial.


- Tiago Scheimann

Há um ponto da consciência em que a solidão deixa de ser uma emoção e se revela como a única realidade que jamais nos mentiu. Todo o resto, amor, pertencimento, esperança, identidade, talvez não passe de uma arquitetura frágil erguida pelo medo para impedir que enxerguemos o vazio em sua forma mais pura.


A multidão não nos salva. Apenas multiplica a evidência de que cada ser humano está condenado à prisão de uma consciência inacessível. Ninguém atravessa a fronteira do outro. Compartilhamos palavras, gestos, corpos e lembranças, mas nunca o peso exato daquilo que somos. Existimos lado a lado, separados por um abismo que nenhuma linguagem consegue preencher.


Olhar para dentro é cometer um crime contra todas as ilusões que tornavam a vida suportável. Quanto mais profundamente descemos, menos encontramos uma essência. Há apenas camadas de medo, de memória e de desejo, até que, por fim, resta um silêncio antigo, indiferente, onde até mesmo o "eu" começa a se dissolver. Talvez nunca tenha existido alguém ali. Apenas uma sucessão de pensamentos tentando convencer o vazio de que possuía um nome.


O sofrimento não nos purifica. Não nos torna melhores. Apenas retira, um a um, os véus que protegiam nossos olhos. E quando o último deles cai, compreendemos que o universo jamais precisou de nós para continuar existindo. A nossa ausência teria o mesmo peso da nossa presença: nenhum.


É nesse instante que a solidão alcança sua forma definitiva. Já não esperamos ser compreendidos, porque percebemos que compreender completamente outra consciência é impossível. Já não esperamos sentido, porque todo sentido nasce da necessidade humana de suportar o insuportável. Já não esperamos consolo, porque até o consolo é apenas uma pausa antes do mesmo silêncio.


Talvez a lucidez seja isso: a lenta destruição de todas as mentiras que chamávamos de vida, até restar apenas uma consciência desperta diante da imensidão indiferente do universo. E então compreendemos a verdade mais cruel: não é o vazio que habita dentro de nós. Somos nós que, por um breve e inexplicável instante, habitamos o vazio.


- Tiago Scheimann

A existência possui uma ironia silenciosa: concede-nos consciência suficiente para compreender a fragilidade de tudo, mas nunca poder suficiente para impedir que tudo se desfaça.