Lamento pela Morte de um Ente Querido

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Toque de Abrigo


Foi um gesto pequeno,
quase nada pra quem olha de fora.
Uma mão que encosta,
sem pressa,
sem pedido.
O corpo estranhou primeiro.
Como quem abre uma janela
depois de muito tempo fechada
e esqueceu como o ar entra.
Ela quase dormiu.
Eu quase lembrei
que o toque também pode ser descanso,
não só alerta,
não só defesa.
Não houve promessa,
nem história,
nem nome pra dar ao momento.
Só presença.
E nesse silêncio compartilhado,
meu corpo entendeu antes de mim:
nem todo contato fere,
nem todo afeto cobra.
Às vezes,
tocar alguém
é só isso.
Um intervalo de paz
no meio da resistência.

Um olhar pode dizer tudo
sem levantar a voz.
Pode ser abrigo
ou aviso.
Pode ficar
quando o corpo vai embora.
Carrega promessas que nunca foram ditas
e verdades que a boca não sustenta.
Um olhar confessa medo, desejo, despedida.
Entrega amor sem pedir resposta.
Às vezes, é só isso que sobra.
E às vezes, é tudo.

Novo Começo


Não vem pronto.
Se constrói em gesto pequeno, repetido, teimoso.
Um passo hoje. Outro amanhã.
E quando vê, já não é mais o mesmo chão.
Novo começo é isso.
Não mudar o mundo.
É mudar de direção.

Existe um tipo de descanso que não vem do sono,
vem de permitir pensamentos inúteis,
daqueles que não rendem conclusão,
não viram lição,
não servem pra nada além de existir por alguns segundos.
Lembrar de uma música antiga sem saber por quê.
Reparar no jeito que a luz bate na parede.
Pensar numa cena que nunca aconteceu.
É aí que o corpo afrouxa e a cabeça desarma.
Porque nem tudo precisa de sentido imediato.
Algumas coisas só precisam passar.
Pensar também é brincar.
E quem não brinca com a própria mente
acaba sendo dominado por ela.
Às vezes, clareza não vem do esforço.
Vem do intervalo.

Um homem que grita como se fosse dono do mundo,
mas é só eco vazio em peito profundo.
Grande no corpo, pequeno na alma,
carrega a força, mas não carrega calma.
Veste palavras de Deus como armadura,
mas nunca deixou que elas curassem sua própria fissura.
Usa o sagrado como palco e disfarce,
mas no silêncio é o ódio que ele abraça e reparte.
A verdade dele não é verdade...
é crença inflada pela própria vaidade.
Ele acredita, então impõe.
Ele impõe, então destrói.
Bruto no gesto,
agressivo no tom,
ignorante no modo de existir ...

acha que mandar é construir.
Quem não o conhece pode até acreditar,
mas quem já viu de perto sabe:
por trás da soberba existe medo,
e por trás do medo, um homem pequeno demais para amar.
E no fim, o que se diz não é ameaça, é fato:
sozinho ele volta...
porque ninguém suporta por muito tempo
o peso de um coração fechado e exato.
Ele traz o amargo no nome,
como se já tivesse nascido marcado,
como se o destino tivesse sussurrado:
“serás peso, não abrigo”.
Há homens que aprendem a amar.
Ele aprendeu a dominar.
Confunde respeito com medo,
confunde fé com discurso,
confunde força com excesso.
Ele não conversa... Ele impõe.
Não escuta... Interrompe.
Não sente... Reage.
O amargo não está só no nome,
está na forma de olhar,
no jeito de tocar que não acolhe,
no silêncio que antecede o ataque.
Há algo nele que sempre ameaça voltar...
Não por amor,
não por saudade,
mas por necessidade de controle.
E o mais duro de admitir?
Ele acredita na própria versão.
Se convenceu de que é justo,
de que é certo,
de que o mundo é que o provoca.
Mas quem carrega ódio como combustível
não constrói... Consome.
E no fim…
o amargo que ele espalha
é o mesmo que o corrói por dentro.
Porque ninguém vive em guerra constante
sem se tornar o próprio campo de batalha.

O Dia em Que Escolhi ir


Capítulo: Eu Disse Sim


Eu disse sim.
Não foi um sim gritado.
Não teve fogos, nem testemunhas.
Foi um sim quase sussurrado, desses que mudam o eixo da vida sem fazer barulho.
Eu disse sim
quando meu instinto dizia cuidado.
Disse sim
mesmo sabendo que intensidade cobra juros.


Não foi ingenuidade.
Foi escolha.
Eu vi o risco.
Vi o abismo.
E ainda assim, avancei.


Porque havia algo no olhar dela..
não promessa,
não segurança,
mas verdade crua.
E eu prefiro a verdade que arde
à mentira que acalma.
Eu disse sim
para o desejo,
para a confusão,
para a possibilidade.


Disse sim
para aquilo que não tinha manual.
Não foi submissão.
Foi entrega consciente.
Eu sabia que podia doer.
Sabia que podia quebrar.
Mas também sabia que viver pela metade
é morrer aos poucos.
Então eu disse sim.
E naquele instante
eu não estava escolhendo só uma pessoa.
Eu estava escolhendo ser inteira.
Sem garantias.
Sem contrato.
Sem anestesia.
Só eu,
o risco,
e a coragem de não fugir.
Esse foi o meu sim.
E ele mudou tudo.

A vida não avisa.
Ela arranca.


Me tirou de um lugar às pressas, sem tempo de pensar, sem tempo de sentir.
Quando vi, já tava com o coração na mão e o corpo em outro canto..
outro teto, outra rua…
o mesmo peso.
E como se não bastasse, o destino foi irônico.
Me deixou exatamente onde eu não pisaria de novo.


Não por saudade.
Não por escolha.
Mas por necessidade.


A rua é a mesma,
o silêncio é diferente.
Eu passo sem olhar.
Não por fraqueza...
Mas porque dessa vez eu aprendi.
Tem portas que não se batem mais.
Tem nomes que não se chamam mais.
Tem histórias que não se reescrevem.. se enterram.
Eu já me dei demais.
Já fiquei demais.
Já insisti onde só eu existia.
Agora não.
Agora eu passo.
Fria por fora, inteira por dentro.
Porque ir embora, às vezes, não é sair do lugar.
É sair de quem a gente era quando aceitava tão pouco.

Na rede ninguém é um só.
Somos versões. Fragmentos. Edições constantes do que a gente acha que o mundo tolera ver.

Decepção


É quando a realidade te dá um tapa com a mão aberta depois de você jurar que era carinho.
É perceber que você não se enganou por ser burra… se enganou porque quis acreditar. E acreditar, às vezes, é o erro mais caro.
É quando alguém te prova, com ações bem claras, que você era opção… enquanto você tratava como prioridade.
E dói mais não pelo que a pessoa fez — mas pelo que você imaginou que ela nunca faria.
Decepção não quebra só o coração, não. Ela corrói a confiança, desmonta tua intuição e ainda deixa aquele gosto ridículo de “eu devia ter visto isso antes”.
E o pior?
Quase sempre você viu.
Só escolheu ignorar porque sentir era mais confortável do que encarar a verdade.
Tem um momento específico que é o mais sujo: quando você entende tudo.
Quando as peças se encaixam e você percebe que não foi azar… foi escolha mal feita.
A sua.
A da outra pessoa.
Um caos compartilhado.
Mas aqui vai a parte que ninguém gosta de engolir:
decepção é um tipo de lucidez. Violenta, sim. Mas limpa.
Ela arranca a fantasia, rasga expectativa, joga luz onde você queria manter sombra.
E por mais que doa, ela te devolve uma coisa que você tinha largado pelo caminho: critério.
Você fica mais fria? Fica.
Mais seletiva? Ainda bem.
Mais difícil de acessar? Óbvio. E talvez seja exatamente isso que te salva da próxima.
Porque no fim das contas, a decepção não te destrói.
Ela só destrói a versão de você que aceitava menos do que merecia.
E essa… sinceramente… já tava pedindo pra morrer faz tempo.






Livro: Textos que Doem e Acordam por Lucci Santz

“Respirar pesa,
como se o ar tivesse memória.
E ainda assim eu fico,
carregando um silêncio
que só quer… paz.”

"Frio que Sente"


Tem um frio
que não vem do mundo,
vem de dentro.
É quando você ainda sente tudo,
mas já não consegue demonstrar nada.
O coração não para de bater…
só aprende a se proteger.
E, às vezes,
se proteger
é esfriar.

Não é só no peito, é em mim inteira,
um peso que chega e nunca beira.

Feito de tudo que eu não soltei,
de tudo que senti e nunca falei.

Dias parados, querendo voltar,
coisas em mim sem saber onde ficar.

Eu sigo firme, mesmo cansada,
carrego o mundo sem dizer nada.

E no silêncio onde ninguém vê,
eu luto comigo pra não me perder.

Talvez hoje eu não tenha “um mundo” pra entregar. Mas talvez o problema nunca tenha sido faltar mundo. Talvez tenha sido carregar o universo inteiro nas costas tentando ser indispensável pra alguém.

Um dia, quando eu voltar...

Um dia, quando eu voltar, talvez nada esteja no mesmo lugar.

As ruas terão seguido seus caminhos, as pessoas terão contado novas histórias, e o tempo terá feito aquilo que sabe fazer melhor: continuar.

Mas algumas coisas permanecem.

Permanecem os abraços que não demos. As palavras que ficaram guardadas. Os sorrisos que a distância não conseguiu apagar.

Um dia, quando eu voltar, não quero encontrar o que ficou parado me esperando. Quero encontrar o que cresceu, o que floresceu, o que teve coragem de viver.

Porque quem ama de verdade não guarda a vida numa gaveta. Cuida dela até o reencontro.

E, se esse dia chegar, que a gente se reconheça não pelo que perdeu, mas por tudo aquilo que teve força para continuar sendo.

Um dia, quando eu voltar, que o tempo não seja uma desculpa. Que seja apenas a ponte entre duas saudades que sobreviveram.

Lucci Santz ✍️

O mundo dá voltas na longa caminhada,
e a verdade mais simples continua gravada:
cada um colhe, um dia, aquilo que semeou na estrada.

O estrangeiro, o diferente, o deslocado, carrega dentro de si um idioma secreto feito de ausências. E enquanto o mundo enxerga apenas alguém tentando seguir em frente, existe uma batalha silenciosa acontecendo entre quem ele era e quem precisa se tornar.
E o que ele repete para si mesmo todos os dias:
"Um dia isso não vai doer mais."
E, curiosamente, é essa mentira que muitas vezes o mantém vivo até que ela finalmente se transforme em verdade.
Porque nos seres humanos somos estranhos assim. Construimos pontes com ilusões temporárias para atravessar abismos reais. E, contra toda lógica, às vezes funciona.

A lua em minuto,
tão breve quanto um suspiro,
mudou o curso da noite.

No céu, nada parecia diferente,
mas dentro das pessoas
havia um estado alterado de convivência.

Palavras ficaram mais pesadas,
silêncios mais longos,
olhares mais distantes.

Talvez a lua não mova apenas marés.
Talvez ela toque
as correntes invisíveis da alma.

E por um minuto apenas,
o mundo inteiro esqueceu
como era conviver consigo mesmo.

Às vezes um colo resolve mais que palavras. Porque algumas dores não precisam ser entendidas. Precisam apenas ser acolhidas.

Somos feitos dos hábitos que alimentamos

Não é um único dia que define quem você é.

É aquilo que você repete quando ninguém está olhando.

Um hábito é uma escolha que deixou de pedir permissão. Depois de repetida muitas vezes, ela passa a conduzir seus passos sem fazer barulho.

Da mesma forma que um pequeno descuido diário pode destruir uma vida aos poucos, um pequeno gesto de cuidado pode reconstruí-la sem pressa.

Ler algumas páginas.
Beber mais água.
Ouvir antes de responder.
Agradecer.
Descansar.
Escrever.
Perdoar.
Recomeçar.

Nada disso parece grandioso em um único dia.

Mas o tempo tem uma estranha habilidade: ele multiplica tudo aquilo que repetimos.

No fim, nosso destino raramente é construído por grandes acontecimentos.

Na maioria das vezes, ele nasce dos hábitos silenciosos que escolhemos cultivar todos os dias.

Quando o amor pede um lugar


Há quem entregue o melhor de si sem medir esforços, sem economizar carinho, sem calcular a intensidade.
Ama com presença, com cuidado, com vontade de construir.
E, ainda assim, guarda no peito um desejo simples:
não ser um segredo.
Não por vaidade, nem por aplausos, mas porque todo amor merece um lugar ao sol.
Há uma paz diferente em saber que alguém não tem medo de caminhar ao seu lado.
No fim, não é sobre aparecer.
É sobre pertencer.
Sobre sentir que o amor, quando é verdadeiro, não precisa se esconder para existir.