Jogral de Natal: textos para celebrar em comunidade
Quando passamos pelos altos e baixos que a vida nos dá, percebemos quem está conosco e continua, e quem nos abandona...
Ao chegar os 50 anos, espero poder continuar com a cautela dos 40, vitalidade dos 30, entusiasmo dos 20 e a inocência dos 10...
A beleza estética nunca vai sobrepor a inteligência, ser culto, falar bem é algo que não troco por nenhuma bela carcaça.
Tenha fé em tudo que acredita poder alcançar, ignore os pessimistas de pouca fé e siga em frente sempre com o pensamento positivo.
UMA VOZ QUE SE CALA
Mais uma voz emudece — se cala
Dorme sereno — entre uma e outra prece
Houve-se choro de alguém que padece
Naquela sentenciosa e gélida sala
Em breve parte... sequer leva mala
Tudo o que criou se deixa — esquece
Até o corpo belo — viril apodrece
Numa assombrosa e profunda vala
Descanse na sombra desse arbusto
Frondoso tanto quanto odoroso ipe rosa
Que logo ali ao lado talharei seu busto
E o farei com precisão honrosa
Penso, se ao lado um banco ajusto
Para contigo ter meus momentos de prosa
Natalicio Cardoso da Silva
A VIAJANTE
Se acaso adiante volveres este caminho
E não embateres este olhar jucundo
Que azo deleita vosso coração abundo,
Saiba que de tristeza pereci sozinho.
— E, à sombra deste robusto azinho
Este vosso enternecido vagabundo,
Estará soterrado em solo profundo
Confiando a ti um credo baixinho!
— Já não me rondas tempestiva amante
No peito aquele estreito vigor atlante
E na alma alguma sorte já me velas.
— Se por ventura regressares, sepulto
Eu estiver por piedade um breve culto
Me preste com ladainhas singelas
Natalicio Cardoso da Silva
NETOS
Netos? Tê-los? Não pretendo jamais
A vida,me sugere andar sozinho
Sentar na varanda ler uns jornais
Ouvir um, ou outro passarinho
Gorjeando suave, baixinho
Nos intermináveis matinais.
— Gosto dos pássaros, dos pardais
Que cantam no mesmo cantinho
Onde o velho hidrata as fadigas
Causadas quando era rapaz
— Que não falte na vida as cantigas
Etão pouco me torne incapaz
De espreitar o vai e vem das formigas
Nesse âmago que tão bem me faz
NatalicioCardoso da Silva
BELEZA NO INFINITO DISTANTE
Certa vez, numa noite de brandura.
— Uma estrela de fulgir deslumbrante.
— Fitou-me como enternecido amante!
— Em contemplação à formosura
Creio jamais ter visto tão pura
Beleza no infinito distante.
— Deus, disse eu translumbrante
E com olhar comovido de ternura.
— Que estrela é esta a pulsar como artéria?
— É uma estrela de especial fulgência
Reflete no hemisfério, chamam-na Valéria!
— Ao anoitecer, ela exibe sua opulência,
Tão meiga, pura e bela quanto Egéria
Ninfa de Numa, que chorou por dolência!
Natalicio Cardoso da Silva
IMAGINANDO A MORTE
Eu, imperturbável, e sereno de mãos arrumadas.
— Os amigos vindos de distantes léguas.
— Abraços tristonhos, choros sem tréguas.
— As senhoras de negros fatos bem trajadas,
Trarão na memória, recordações vivenciadas.
— Virão, eu creio, em carruagens puxadas por éguas
Negras, visto que negro serão as regras.
— Com meu terço enrolado nas mãos geladas.
Rogarei a minh'alma, gratidão aos benfeitores:
Pelas exéquias melodias entoadas com lisura.
— Retirar-me-ei, pois dos anjos já ouço louvores.
— A vida se foi a visão tornou-se escura
O último suspiro coube a meus amores!
A Alma à Deus, e o corpo à terra dura.
Natalicio Cardoso da Silva
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