Isso Ja Nao me Pertence mais
“OI”
Estive, já há algum tempo pensando, o que o neon tem a ver com fantasia? As luzes brincam nos nossos corpos desviam nossas atenções de mãos estendidas, de ambiguidades que de uma forma ou de outra ainda ainda chocam, porque não estão intrínsecas em tudo o que recebemos de berço. O neon brilha e tem seu fascínio, encanta a multidão e a subjetividade de cada um; e de cada solidão, engana; é o centro da cidade. A catedral imponente com suas torres, seu estilo gótico, as praças com seus artistas anônimos, as galerias com suas joias e suas lentes e cada um de nós como uma partícula única de um conjunto indecifrável de um jogo e cada gesto, cada olhar cada caminhar, cada vestir é uma linguagem, e nessa discussão do “oi, eu estou aqui” ninguém se fere ou será assassinado por absurdo que possa parecer cada presença. Até que mãos frageis de um olhar pálido de uma inanição eloquente grite por tua atenção, então a catedral badala seus sinos e o neon é como o clarão de uma bomba H arremessando seu cogumelo e estilhaçando vidraças de edifícios luxuosos, mas já nos acostumamos com esse tipo de explosões; nada que um suco e um salgado não resolva e voltamos ao fascínio do neon e ao flerte do “oi, eu estou aqui...” e mergulhamos de cabeça no consumismo que nos consome.
E.Ts
Já te falei sobre os discos voadores
No meu firmamento pessoal,
Sobre os aliens e meteoros,
Já te falei sobre a minha gravidade,
Sobre os dragões que povoam as minhas cidades,
Já te falei sobre são Jorge guerreiro,
Jorge Ben ou Jorge Ben Jor, Seu Jorge,
Acho que tivemos sorte,
Mas sob os astros, quando a vaca caminha
Numa total penumbra quem aposta
Que um rastro de bosta...
Quem caminha seguro com uma vaca em sua frente?
Quem caminha seguro com uma vaca no escuro?
Teremos sempre ameaças de chifres
Jamais teremos férias em Chipre
Teremos sempre ETs a povoar nossas inseguranças
Teremos sempre monstros
Nos olhos mais ternos de nossas crianças
Quase sempre não somos os únicos culpados pelos nossos pecados
Faço malabares com as estrelas
tenho meia dúzia de planetas na gaveta
já viajei na calda do cometa
e lapido diamantes que já foram meteoros...
BABY
Guarde seu olhar de compaixão,
Cale suas palavras doces,
Já me acostumei com o silencio
E a escuridão...
A solidão me chama de baby...
Baby, baby baby baby...
A lua nos espera na varanda
Onde os fantasmas do passado
Dançam seus boleros,
Onde eu espero o momento que não veio,
Onde eu degolo aquele ser austero
Que da noite só esperava a lua...
Baby... baby..baby...
A solidão me chama de “meu bem,”
As taças tilintam irritantes,
Ao som de ébrias gargalhadas,
Daqueles que profanam a noite...
A lua se insinua na varanda,
Anda pros meus braços,
Pra insanidade inocente dos santos,
Pra ternura piegas e débil dos loucos...
Quem disse que eu não sou Deus?
Se a névoa púrpura e plasmática
Bafeja este deserto de assombrações...
Quem disse que eu não sou Deus?
Se tenho um punhado de estrelas na minha destra
E na minha esquerda
Um coração que pulsa
Ao ritmo de tuas lágrimas e sorrisos...
Quem disse que eu não sou Deus?
Se a emoção que enrubesce sua face
Agita o sangue em suas veias
me faz manter suspensos e brilhantes os astros...
Quem disse que eu não sou Deus???
Quando eu pensei que eu já era eu mesmo
Havia ainda muita coisa a descobrir
Quando eu pensei que já tinha me descoberto
Havia ainda muitas caixas pra abrir
Quando eu pensei que eu era eu mesmo,
Eu ainda era uma caixinha
Dentro de outra dez caixas maiores
Quando eu pensei que te conhecia
Havia ainda muitas coisas a se encaixar
A vida é assim mesmo
Há sempre algum invólucro a se desempacotar
São caixinhas de surpresa
Que a gente vive encaixando e desencaixando
Até descobrir que nenhuma surpresa há...
. Quando a saudade perguntar por mim
Diga que a solidão que já me esqueceu
Solidão sempre pergunta por saudade
Saudade pra mim já morreu
Mal o meu olhar perdera a pureza
Tereza já se despia
a noite mal anoitecera
ainda ingênua,
uma lua tímida no céu de chumbo
parecia o fim do mundo
o que cairia,
a chuva alagaria a rua,
a tribo dos vagabundos
de todos os mendigos
de pontes e de marquises
o que seria da chusma,
minha madre Teresa de Calcutá,
calcula a minha agonia,
Tereza presa nos meus braços
o paço guardado por vigias
o chumbo alagando o Ganges
a rua parecia o rio...
Quando os olhos lacrimejam
a solidão já se perdeu nos pântanos
e a alma já foi devorada pela alcateia...
O PÂNTANO
Quando os olhos lacrimejam
A solidão já se perdeu nos pântanos
E a alma já foi devorada pela alcateia...
Então a neblina cai fria,
Perolada por um ou outro
Raio furtivo de luar
Que escapam por entre as nuvens,
As manhãs são raríssimas,
Uma ou outra lembrança
De um passado longínquo,
A essência humana é esse pântano;
Uma criança frágil caminhando
Num terreno íngreme e pedregoso
Sob olhares famintos de lobos...
Acho que a noite é infinita
como o meu amor
e quando penso
que a noite é tão bonita
o dia já chegou
eu acho que te amo
eu acho que te amo,
não sei por quanto tempo
mas já faz tanto tempo
que eu acho
acho, faz mais de trinta anos...
quem já teve um amor verdadeiro
um dia e perdeu
herdou nos olhos a nostalgia...
mas perdeu seus horizontese suas referências
minha primavera, minha Vera prima
eles verão este inverno no meu olhar
eles verão o meu outono e outras estações
fases de lua e suas consequências
eles verão e eu inverno a derramar
o amor que transbordou no tempo e na saudade
quem já teve um amor verdadeiro e um dia perdeu
jamais será triste
triste é quem um amor verdadeiro nunca viveu
mas quem pode entender o amor,
o amor é um deus
ou se vive o amor e tem fé...
ou não vive e padece
e se torna um ateu
preciso lembrar que o amor me esqueceu
e que os sonhos que eu tinha
não são mais sonhos meus
GRAVIDADE
Os pivetes mal fazem um avião
E já pensam que são astronautas
Se perdem na gravidade da lua
E acabam na poeira da rua...
TEMPO
O tempo já levou o meu olhar faz tempo...
Faz tempo que eu olhava o tempo
Com a esperança vã de um dia em algum tempo
Que essa coisa toda que envolve a gente...
Nem sei se é assim...
Mas pelo menos em mim, faz tempo...
Sempre quis entender, mas essas coisas do coração...
O tempo foi passando e passou o tempo do entendimento
Agora eu só percebo que o silencio
Vai além do que comove e o que se locomove
Rodopia com a poeira dos meus pensamentos...
Eu sei que vou sonhar ainda até que entenda
Que o tempo já levou o meu olhar faz tempo
Faz tempo que eu tento entender o que se passa
E não passa este acreditar no amor,
Esse ter fé e esperar nos meus pressentimentos
Faz tempo que eu olhava o tempo,
Faz tanto tempo... tanto tempo, que naquele instante
Que ainda não era o nosso tempo e as nossas mãos
Se uniam a tecer a eternidade
E éramos deuses de todos os momentos
Que nem percebemos o galopar veloz
Desse corcel indomável que se chama tempo
Então a mãe chegou para o filho adolescente, visivelmente drogado e aconselhou:
-meu filho, você já tem dezessete anos,
porque você não arranja uma namoradinha de quem você goste
e que também goste de você
e pense num futuro de construir um lar; pare com esse negócio de usar drogas!
Então o filho respondeu:
-Aos quinze anos eu ainda pensava assim mãe;
mas então começaram as bebedeiras,
brigas e seguidas traições entre a senhora e o pai;
naquele tempo eu ainda usava drogas, mas então vocês se separaram...
agora a droga que me usa...
ALGO NOVO
Eu queria te dizer alguma coisa nova...
Mas parece que tudo já foi dito;
Inédito mesmo só o que deixamos de viver...
Então eu digo: desculpe-me por tudo o que fiz,
Eu já me perdoei pelo o que não fiz...
Corriqueiro, sempre digo:
Me arrependo mais pelo que deixei de fazer;
E não são raras as vezes que eu questiono
Meu Deus, o mundo ainda não acabou!...
O mundo ainda não acabou. Somos sobreviventes...
Vencemos o tempo; o tempo de todas as coisas,
O tempo de olhar os horizontes... de observarmos os pássaros,
De ouvirmos a brisa...
Perdoa por tudo o que fiz eu já me perdoei pelo que não fiz...
Isso clareou meus cabelos, riscou meu rosto
E as noites são longas, perdidas nos abraços
Que deixamos de dar...
Em tudo o que deixamos de entender...
Mas isso já foi dito; eu queria te dizer algo novo...
mas alguma coisa esmaga o silêncio...
Uma verdade pesada, numa manhã luminosa,
Uma luz intensa... que não cabem nas palavras...
VERDE OU AZUL
Ainda acontece como se minha alma
afugentasse a calma...
Já adolesci faz tempo, faz tanto tempo
Que as tardes agora ardem de saudade
De algo que agora caminha nesse teu caminhar...
Quero entender toda a magia do verde ou azul
Que agora abriga a minha alma...
Sabe o que é ser tão triste, tão triste,
Profundamente triste de felicidade...
Ainda acontece caminhar sobre as águas...
Esta coisa divina me leva
Como se todas as coisas fossem novas,
Como se paixão fosse novidade
Fico na expectativa de que todos os dias sejam sábados
De que o céu tenha esse azul ou o mar tenha esse verde
E o que se perde entre o olhar e o sentir vire encanto
Sonho que todos os dias sejam sábados
E que todos os sábados sejam assim,
Mágicos, verdes ou azuis eu não sei...
Ou não tenho certeza mas hoje é sexta feira
E amanhã já é sábado de novo...
tenho um sorriso que ilumina o espelho
e o orgulho de já ter sido feliz,
mas então ante tua presença se curvam meus joelhos,
e a vergonha de ter feito o que não fiz...
os poetas não morrem, eu já sei,
mas não sei se os poetas sabem disso...
Cecília, entre os tons quentes do rosiclér
morria nos finais dos crepúsculos com todo capricho
deveríamos ser felizes se inventamos o amor
se fizemos o mundo
mas não somos felizes na busca desse amor profundo
quem terá entendimento pra felicidade...
diante de tantos deslizes
não somos, jamais seremos felizes
somos apenas deuses, temos apenas a eternidade...
Tem sessenta, só viveu vinte
e tá com uma gata de vinte que já viveu oitenta
ele pensa que ela é novinha
ela tem muita estrada, beco, vielas, guetos...
ele adolesce sexagenário
ela parece um anjo, e ele não parece ser otário..
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