Indiretas de amor: demonstre interesse com sutileza đ
No Amor existem dois trajectos, a ida e a vinda. No primeiro caminhamos, no segundo somos o caminho.
Sinto este apocalĂptico amor
cerzido em carne viva
no tecido transparente do osso
submetido a formas anatĂłmicas
irremediavelmente inviolĂĄvel.
Ă assim que
eu quero estar contigo
a contemplar o nada
e atordoados pelo amor,
do nada, construĂmos
o nosso interno mundo.
Caminho do Amor
No sabor salgado da pele
molhada de coral e algas
transparece a colorida emoção
salpicada de bĂșzios que abraçam o vento.
Nos areais e enseadas luarentas
deposito a minha alma no teu colo
refresco-me na tua boca
bebo o teu sentir de mim.
MĂŁos percorrem gemidos arfantes
navios naufragados adormecem
nos teus olhos em ecos de sal
o ar respira as entranhas do sossego.
Abismo opaco pula segredos
escondidos no vazio causticante do medo
onde os mais humanos nĂŁo sucumbem
e fielmente seguem o caminho do Amor.
Fomos Todas as Partes do Amor.
A manhĂŁ fugiu da minha boca
para a tua boca.
A tarde pulou das minhas pupilas
para as tuas pupilas.
A noite voluptuou-se do meu corpo
para o teu corpo.
Nesta constante dupla infusĂŁo
fomos todas as partes do Amor.
E no peito das nossas almas
existe uma certeza: em todas as vidas.
Guitarra Ă Luz de Velas
O amor é uma nua canção
dividida em curtos fados
pela sĂșmula pulsante do coração
que se ouve nos mares cansados.
No estreito silĂȘncio das flores
murmura o pólen das pétalas
desfolhadas pelos acordes indolores
no rosto duma guitarra Ă luz de velas.
As arcadas cegam os claustros
que sustĂȘm as paredes calcinadas
das celestes melodias dos astros
cantadas no sangue da madrugada .
Move-se pelo esquecido poema
a voz calada do poeta
propaga a luz verbal do fonema
na elĂptica cauda do cometa.
Mar Ferido de Amor
O refluxo de correntes e marés
em vagas esbatidas pelos ventos.
Nas amplitudes frĂĄgeis dos horizontes
cega-se o corpo em espuma de sal
na entrega absoluta do mar ao luar
onde naufragam as almas aos céus.
Remos que remam a distĂąncia
em louvor Ă s entranhas do silĂȘncio.
Navegam as sentinelas dos astros
no nevoeiro insĂpido e rouco:
chora este mar ferido de amor.
Depositando o seu pranto nos areais
e regressa ao mergulho profundo
das suas lĂĄgrimas.
