Homem Pobre
“Não tenha medo do homem que treinou mil chutes uma vez; tenha medo daquele que treinou um chute mil vezes.”
Bruce Lee
MANIFESTO SOBRE A RESILIÊNCIA HUMANA
Por: Abel Manuel Fernando
“A vida do homem sempre foi feita para ser dificultada.”
Esta premissa não é um lamento, mas sim uma constatação profunda sobre a natureza da nossa
existência. Desde os primórdios, a jornada humana nunca foi desenhada para ser um caminho linear
ou isento de barreiras. Pelo contrário, são os obstáculos que surgem ao longo do percurso que
validam o nosso crescimento, testam as nossas convicções e transformam o potencial latente em
força real.
Evitar as dificuldades é ignorar a própria ferramenta de lapidação do carácter. Cada contrariedade,
cada barreira aparentemente intransponível, funciona como um espelho que reflete quem realmente
somos quando despidos das facilidades do quotidiano. O homem que não enfrenta a resistência
permanece frágil, incapaz de sustentar o peso das suas próprias ambições.
Assumir a autoria desta visão é aceitar o desafio de viver com protagonismo. Compreender que a
vida é intrinsecamente difícil permite-nos abandonar a postura de vítimas das circunstâncias e
adotar a postura de arquitetos do destino. Não escolhemos a ausência de problemas, mas
escolhemos, soberanamente, a magnitude da nossa resposta perante eles.
O homem começa a ser livre quando ousa perguntar se os valores que recebeu merecem continuar governando sua vida.
Há um instante em que o homem deixa de obedecer às verdades recebidas e começa a escrever as suas próprias perguntas.
Assim como o homem não é o mesmo ao entrar no rio pela segunda vez, o escritor também muda junto de seus pensamentos. Ao reler opiniões de anos passados, percebo a transformação em minha visão, a evolução da minha percepção. Como as águas do rio, meu crescimento é contínuo, nunca se detém.
O homem se molda à sua realidade. Reclama de uma refeição repetida quem nunca sentiu o estômago vazio por dias. Reclama de seu amor quem nunca dormiu sozinho em um colchão duro, sem abrigo nem abraço. Reclama de acordar para o trabalho quem nunca sentiu o peso da porta fechada do desemprego e o olhar de desprezo da sociedade. Reclama da vida quem nunca enfrentou a violência, a injustiça, a miséria, a fome que corrói ossos e esperança. Reclama de existir quem nunca precisou lutar para sobreviver, quem nunca foi invisível aos olhos de um mundo cruel.
O homem que se isola por medo do erro renuncia à sua natureza e torna-se um eco em seu próprio deserto.
A criança que fui e o homem que sou trocam bilhetes na madrugada. Um pede coragem, como quem pede socorro. O outro devolve silêncio, rabiscos, mapas inúteis de resignação. Às vezes, contra a própria vontade, sobem no mesmo trem. Não sabem por quê. Descendem em estações sem nome, onde a surpresa não consola, apenas prova, cruelmente, que ainda se está vivo.
Existem pensamentos que libertam a alma e fazem o homem despertar para si mesmo. Mas existem outros que apenas distraem, anestesiam e mantêm a consciência adormecida diante da vida. E quase sempre, o que separa a libertação da prisão invisível é apenas o tamanho da coragem que alguém possui para enfrentar a própria verdade.
- Tiago Scheimann
Um homem passou anos carregando um vaso quebrado, envergonhado pelas rachaduras que o atravessavam. Certo dia descobriu que, por onde caminhava, as fendas deixavam escapar pequenas sementes que floresciam pelo caminho. Nem toda imperfeição é uma perda; algumas são apenas formas discretas de espalhar vida.
- Tiago Scheimann
Há em mim um homem que sofre em silêncio, observa com profundidade, recorda com saudade e reza com esperança. Talvez seja por isso que minhas palavras nasçam das cicatrizes: porque algumas dores só encontram descanso quando se tornam literatura.
- Tiago Scheimann
O homem se perde com mais facilidade quando tenta ser espelho para os outros e se esquece de ser casa para si.
Às vezes olho para trás e não sinto saudade de quem eu era. Sinto pena. Pena daquele homem que acreditava que a dor tinha um propósito, sem saber que algumas feridas simplesmente acontecem, permanecem e envelhecem conosco.
O homem passa metade da vida construindo máscaras e a outra metade tentando descobrir quem ficou escondido atrás delas.
O homem acredita que escolhe seus caminhos, até descobrir que passou a vida inteira obedecendo aos medos que jurava combater.
