Homem Pobre
O Pescador era antes de tudo, um homem de família, embora tivesse poucos amigos além daqueles que estavam sempre com ele no barco, ele não era um solitário como se dizia na Vila, apenas mantinha a relação social um pouco restrita para fugir daquela velha dita de que todo pescador gosta de contar mentiras que ninguém acredita.
Ele também não cuidava muito da aparência que era judiada truculenta, afinal era de estar no rio debaixo do sol que ele mais gostava e os peixes e as águas barrentas do rio que ele navegava nunca se importaram com essas coisas de presença.
Sua mente era assim que funcionava, ora calma ora brava, como as ondas esverdeadas que as ventanias do tempo fomavam. Mas o Pescador ligeiro assim como água a toda situação se amoldava, às vezes perdia a calma mas rapidinho a encontrava escondida atrás da serenidade e nunca se desesperava nem quando o tempo fechava e o leme se quebrava naquelas tardes de fortes chuvas, relâmpagos e trovoadas.
Nenhuma tempestade por mais forte que se apresentava desviar seu curso ele deixava. Pois sabia onde o cardume estava e era para lá que ele navegava, e ainda que o rio estivesse revolto os seus pensamentos eram livres, confiantes e soltos do medo que não afeta de forma alguma quem conhece o rio e o condutor do barco que por ele navega.
... o grande mal
do homem é o esquecimento.
E, por esquecer, nunca aprende.
Por não aprender, não evolui — e,
pior: abdica do mais caro dos
seus pertences, a sua
consciência!
... quanto mais sábio
é um homem, mais singulares
e marcantes qualidades ele notará
em seu semelhante — em outras palavras:
somente os desprovidos de um mínimo
vestígio de bom senso consideram
que todos são iguais!
... extrair
do homem comuma ilusão,
bem como seus embaraçosos fiascos, é
desconhecer ou mesmo desacreditar aquele que, sem dúvida, é o mais eficaz dos fundamentos que esculpem a
suafelicidade: a própria
experiência!
... o direito
de um homem deve ser
o direito de todos os homens...
O mesmo vale para os seus deveres
consigo e com o próximo — caso contrário,
qualquer direito se torna um privilégio,
e qualquer dever sem critério
uma infundada
imposição!
O que mais espanta num homem
não é a sua franca erudição, a sua extraordinária capacidade de aprimorar-se cada vez mais — mas,
a sua insistência emcomportar-se como um ser inferior e, sobretudo, indiferente àquilo
que sabe!
O maior desafio do homem sonhador é encontrar uma mulher que, em vez de criticar o seu mundo, decida construir um foguete para viajar ao lado dele rumo às estrelas.
... cada homem
implica num Ser condenado
à edificação de sua inalienável
liberdade, acentua a 'filosofia cristã'...
Uma vez que, lançado ao mundo,
será ele o único responsável
pelo que fez, faz e dedicado
fará do seu estimado
destino!
... um homem,
por vezes, é taxado como
um louco, em virtude daquilo
que acredita e busca - outras vezes,
aclamado como um verdadeiro
sábio,em virtude daquilo que
acreditando, buscando,
conquistou!
... um homem
pode ser um 'expert' em
muitas coisas, bem informado
em tantas outras; no entanto, aquele
resquício de sabedoria que tanto admira
e procura só é acessível pela prática,
ou melhor, por todo bem que,
praticando, seja capaz de
oferecer!
... um homem
minimamente sensato
é aquele capaz de encantar-se
tanto com os grandes quanto com
os pequenos detalhes da vida...
Sejam os aparentes, sejam os não
revelados, que ele, centrado e
intuitivo, reconhece que
existem!
... o que mais
me espanta num homem
não é a sua vasta erudição e
competência em saber cada vez
mais, mas sim a sua teimosia em
comportar-se como um ser
inferior,alheio àquilo
que sabe!
... nenhum homem
vive sem questionar, sem demonstrar
no que verdadeiramente acredita: seja
em um Ser Criador ou em algo capaz de
ocupar seus neurônios e opiniões.
De fato, somos todos teimosamente
questionadores;, embora,
provisoriamente
crédulos!
... penso que
uma Verdade não se torna
crível,porque um homem,inocente, morreupor ela. Mas por sua essência,
por Ele,exemplarmente vivida que,
superando toda e qualquer
resistência ou martírio,
aeternizou!
... um homem
sensato, é aquele que se libertou
das limitações impostas pela idade,
enaltecendo, sobretudo, a maturidade
alcançada; visto que, já goza da eterna
juventude que somente a Verdade,
igualmente atemporal e
renovadora lhe
propicia!
... um homem
que não influencie outros
homens por meio de sua nobre
postura e lucidez de espírito
dificilmente conseguirá
auxiliá-los!
... assevera
a filosofia do espírito que
cada homem personifica um Ser
condenado ao cultivo e sofisticação
de sua inalienável liberdade — porquanto, lançado ao mundo, ele se torna o único responsável por aquilo que fez, faz
e ainda fará em favor do seu
impermutável destino!
... se todo animal
nos inspira a mais sincera ternura,
como se explica o 'animal-homem',
sempre às turras com seu
semelhante?
A TERCEIRIZAÇÃO DA CONSCIÊNCIA
O homem terceirizou quase tudo.
Terceirizou o trabalho, a memória, as escolhas, os caminhos, os relacionamentos e, aos poucos, começou a terceirizar aquilo que jamais poderia entregar a outro: a própria consciência.
Hoje não perguntamos apenas o que pensamos. Perguntamos ao mundo o que devemos pensar sobre aquilo que pensamos.
Consultamos algoritmos para decidir o que assistir, avaliações para decidir onde comer, tendências para decidir o que vestir, influenciadores para decidir o que desejar e a aprovação alheia para decidir quem devemos ser.
Criamos uma sociedade cheia de informação e cada vez mais vazia de discernimento.
O problema não é termos acesso ao mundo. O problema começa quando o mundo passa a ter acesso ao governo de nós mesmos.
Privatizamos a intimidade e terceirizamos o próprio governo.
E talvez essa seja uma das formas mais silenciosas de escravidão contemporânea: continuamos acreditando que estamos escolhendo justamente quando nossas escolhas já estão sendo escolhidas por nós.
Nunca tivemos tantas respostas disponíveis.
Talvez por isso estejamos desaprendendo a fazer perguntas.
Nunca tivemos tanta informação.
Talvez por isso tenhamos tanta dificuldade para transformá-la em conhecimento.
E nunca falamos tanto em consciência enquanto entregamos nossa atenção, diariamente, para quem aprendeu a comercializá-la.
Os algoritmos estão ditando o ritmo de nossas vidas.
Não porque sejam necessariamente nossos inimigos, mas porque descobrimos que é mais confortável obedecer ao que nos recomenda do que discernir aquilo que realmente queremos.
A guerra atual é, antes de tudo, mental.
Disputa-se atenção.
Disputa-se percepção.
Disputa-se desejo.
Disputa-se interpretação.
E quem consegue determinar aquilo a que você presta atenção começa, silenciosamente, a participar daquilo que você pensa.
Por isso:
Preste atenção na atenção que você está prestando.
Sua atenção não é apenas uma função cognitiva. É território existencial.
Aquilo que captura repetidamente sua atenção começa a ocupar sua mente; aquilo que ocupa sua mente influencia sua percepção; aquilo que influencia sua percepção interfere em suas escolhas; e escolhas repetidas acabam escrevendo aquilo que chamamos de vida.
Tempo é vida. Atenção é vida direcionada.
Quando entregamos indiscriminadamente nossa atenção, não estamos simplesmente perdendo tempo. Estamos entregando fragmentos de existência.
O homem contemporâneo não precisa necessariamente ser proibido de pensar.
Basta mantê-lo ocupado demais para perceber que não está pensando.
Porque pensamento sem processamento ou é nulo ou é limitado.
Receber informação não significa compreendê-la.
Compreender não significa discerni-la.
E ter consciência de alguma coisa não significa possuir autonomia diante dela.
É exatamente nesse intervalo que surge uma questão fundamental: quem está pensando aquilo que você chama de seu pensamento?
A pergunta incomoda porque ameaça nossa certeza de autonomia.
A mente recebe, associa, repete, racionaliza e muitas vezes transforma condicionamento em convicção.
Por isso digo:
A mente mente e o discernimento desmente.
E também:
O senso comum comumente mente.
Não porque toda percepção coletiva seja falsa, mas porque repetir uma ideia milhares de vezes não a transforma em verdade. Popularidade não é evidência. Viralização não é conhecimento. Convicção não é consciência.
Para pensar não basta pensar.
É necessário duvidar do que pensamos.
A dúvida, nesse sentido, não destrói o pensamento. Ela impede que o pensamento se transforme em prisão.
Existe diferença entre possuir pensamentos e possuir autoria sobre eles.
Talvez seja justamente aí que comece a terceirização da consciência: quando deixamos de examinar aquilo que entra em nossa mente e passamos a reproduzi-lo como se tivesse nascido dentro dela.
A consciência terceirizada não precisa de correntes.
Precisa apenas de estímulos suficientes.
Ela consome antes de compreender.
Reage antes de refletir.
Compartilha antes de verificar.
Julga antes de conhecer.
Escolhe antes de perceber por que escolheu.
E chama tudo isso de liberdade.
Consciência sem autoria é perceber a própria vida e continuar permitindo que outros a escrevam.
É por isso que discernimento não pode ser confundido com inteligência.
Uma pessoa pode possuir enorme capacidade intelectual e continuar prisioneira das próprias certezas.
Pode acumular informação e permanecer incapaz de distinguir fato de interpretação, necessidade de desejo, identidade de personagem, consciência de condicionamento.
O discernimento é o cimento do conhecimento.
Sem ele, acumulamos conteúdos que nunca chegam a constituir consciência.
Mas há algo além.
O discernimento é o fermento que permite a expansão da consciência.
Ele cria distância entre estímulo e resposta, pensamento e adesão, desejo e decisão, informação e verdade.
Por isso compreendo discernimento como a capacidade de criar uma distância entre aquilo que pensamos e aquilo que decidimos continuar pensando.
Essa distância pode parecer pequena.
Mas talvez nela resida uma das últimas fronteiras da liberdade humana.
O contrário da terceirização da consciência não é isolamento.
Não é rejeitar tecnologia, ciência, redes sociais, inteligência artificial ou conhecimento produzido por outras pessoas.
É recuperar autoria.
É voltar a utilizar ferramentas sem permitir que as ferramentas nos utilizem.
É consumir sem ser consumido.
Porque a lógica contemporânea parece repetir uma ordem silenciosa:
Consuma ou suma.
Eu proponho outra:
Discirna para não desaparecer dentro daquilo que consome.
A verdadeira autonomia não começa quando podemos dizer tudo o que pensamos.
Começa quando conseguimos perguntar por que pensamos aquilo que estamos prestes a dizer.
Talvez a maior revolução do nosso tempo não seja tecnológica.
Talvez seja interior.
Recuperar a consciência que terceirizamos.
Retomar a atenção que entregamos.
Questionar as certezas que herdamos.
Processar as informações que acumulamos.
Discernir os pensamentos que chamamos de nossos.
E reassumir a autoria da própria existência.
Porque quem terceiriza tudo pode ganhar eficiência.
Mas quem terceiriza a própria consciência corre o risco de passar a vida inteira vivendo uma vida que nunca chegou verdadeiramente a escolher.
Carlos Eduardo Balcarse
Escritor, pensador, psicanalista e pesquisador do discernimento, da consciência e da autoliderança
15 de setembro de 2026
