Gostar de quem Mora longe
A noite guarda segredos que o dia não entende. Ela tem diplomacia de quem aceita contradições. Sento-me à sua mesa e aceito seu cardápio. Alguns pratos são amargos, outros, surpreendentemente doces. E eu como tudo com fome de entender.
A saudade não chega devagar,
ela atravessa a porta como quem tem direito. Não traz esperança, não oferece consolo, só deixa o impacto seco de quem já perdeu. É memória sem afeto, é amor sobrevivendo em forma de dor.
Às vezes penso que sou ilha e ponte ao mesmo tempo. Isolado, construo travessias para quem está perto. Há dias em que não quero ponte alguma. Outros, sou inteiro de tal modo que abraço o mar. E nessas variações, descubro meu próprio ritmo.
Sou o inventário de versões minhas que não sobreviveram ao inverno, carrego os restos como quem guarda relíquias de um incêndio.
Fiz da ausência um hábito, depois um vício e, por fim, meu próprio nome. Já não sei quem eu seria se o vazio me deixasse.
O pessimismo é apenas o realismo de quem já foi ferido demais pela expectativa e hoje prefere a segurança da observação.
Minha escrita não busca o aplauso da plateia, mas o reconhecimento silencioso de quem lê e pensa: "eu também habito esse deserto".
Desconfio da perfeição de quem nunca caiu. A verdadeira humanidade só é forjada no fogo do abismo, nunca no conforto do pedestal.
Exauriu-me a tarefa de legendar minha dor para quem não sabe ler sentimentos. Prefiro o silêncio de quem escreve.
Sou o resultado de mil falhas honestas, nenhuma foi covardia, todas foram passos em falso de quem buscava a luz.
Habito o hiato entre quem eu fui e quem eu nunca serei. É um espaço desconfortável, mas é o único lugar onde sou real.
Sinto saudades de uma versão minha que talvez nem tenha existido, apenas a ideia de quem eu poderia ser antes de tudo.
A escrita é o meu suporte de vida. Nada romântico, apenas o oxigênio necessário para quem se sente sufocado pelo real.
Escrever é o gesto de quem já compreendeu que o grito não alcança ninguém, resta, então, converter o pavor em grafia. É usar o próprio sangue como tinta para riscar uma saída numa parede de concreto que jamais cederá aos ombros cansados. Cada frase estanca, por instantes, uma hemorragia interna que o mundo ignora enquanto exige sorrisos e produtividade. Sou o náufrago que, em vez de pedir socorro, consome os últimos fôlegos descrevendo a beleza aterradora do oceano que o afoga.
Sentir-se desperto em um mundo de sonâmbulos é a punição de quem ousou olhar para o sol da verdade sem a proteção das mentiras sociais.
A fé, para mim, é o suspiro de quem, no escuro absoluto, ainda estende a mão esperando tocar a orla de algo sagrado. É saber que Deus me vê mesmo quando eu mesmo me tornei invisível para o espelho.
Escrever é o gesto desesperado de quem tenta colocar um curativo em um rasgo que atravessa o peito de lado a lado. A caneta é a agulha, o papel é a pele, e a tinta é o sangue que insiste em vazar toda vez que lembro de quem eu poderia ter sido.
O brilho nos olhos de quem sofreu muito não é luz, é o reflexo da lâmina que a vida usou para nos lapidar até que não sobrasse nada além do essencial. Somos diamantes feitos de pressão e escuridão, brilhando apenas para quem tem a coragem de olhar para o abismo.
Não confio em quem não tem cicatrizes, pois quem passou pela vida sem ser ferido ou não viveu de verdade ou é mestre na arte de fugir de si mesmo. As feridas são as aberturas por onde a luz consegue, enfim, entrar em nosso interior sombrio.
Chopin tocava o piano como quem acaricia uma ferida aberta, buscando a nota exata que fizesse a dor se transformar em beleza sonora. Eu tento fazer o mesmo com as letras, buscando a palavra que faça o meu peito parar de arder por alguns segundos de leitura silenciosa.
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